EDITORIAL – O levantamento das Caldas

logo editorialQuem se movia nos meios políticos – sobretudo os jornalistas e activistas ligados a partidos, a movimentos unitários, nomeadamente os católicos, sabiam que o regime iria cair, até mesmo pelos problemas que o minavam por dentro. A partir das eleições legislativas de 1969, percebeu-se que a «primavera marcelista» consistira em mudar o nome às coisas, mantendo, com designações novas toda a parafernália de instrumentos repressivos que Salazar legara – a polícia política, a censura, a impossibilidade de legalizar partidos e, sobretudo, a Guerra Colonial. As reuniões clandestinas multiplicavam-se e os sinais de que «alguma coisa» ocorreria multiplicavam-se.

Por um lado, racionalizando o problema, sabíamos que, mais tarde ou teria um fim (a hipótese de uma implosão não era de põr de parte).Porém, temíamos que a queda do Estado Novo, embora inevitável, tardasse mais uns anos). O primeiro sinal inequívoco de que a luta mudava de tom, passando dos panfletos e grafitti a formas mais consistentes, foi a ocupação da Capela do Rato, na passagem do ano de 1972 para 1973, tendo como pretexto a comemoração do Dia Mundial da Paz decidida por Paulo VI,  um grupo de católicos ligado ao Boletim Anti-Colonial, assumiu posição contra a guerra e contra o regime.  A iniciativa teve eco, mesmo além fonteiras. Todos, incluindo a gente do regime, percebeu que a luta se ia radicalizar. No sábado, dia 30 de dezembro de 1972, na missa das 19H30 da Capela do Rato, um grupo declarou ir realizar na capela uma jornada de 48 horas de «greve da fome» e de reflexão acerca da guerra colonial, apelando a cristãos e não-cristãos para que se juntassem à iniciativa. Entretanto, vários petardos colocados pelas Brigadas Revolucionárias, em diversos pontos espalhavam panfletos apelando à solidariedade com os grevistas da Capela do Rato.

O MDP/CDE, que coordenava as comissões eleitorais e que era controlado pelo PCP (era quem tinha os meios, algum dinheiro. Funcionários, fotocopiadoras…) viu-se invadido por gente da «esquerda não-reformista» que mais tarde daria lugar a partidos como o MÊS, o PRP-BR, a UDP e outros. Em 1973, ano de eleições legislativas, as reuniões sucediam-se. E uma coisa ficou clara: a unidade da oposição era impossível. Não contando com os velhos republicanos que estremeciam só de ouvir a palavra ‘revolução», a hostilidade aberta entre os militantes do PCP, que queria trabalhar dentro das regras que a lei eleitoral impunha, e os «não-reformistas» que, de formas diferentes combatiam o controlo pecepista..impedia os «reformistas» de fazer o seu trabalho e os «esquerdistas» de desenvolver. O processo de cisão começou num plenário da CDE, reunião numa garagem de Odivelas (o presidente da mesa, ligdo ao PCP(que se negou a incluir na ordem de trabalhos um ponto dedicado à Guerr Colonial, alegando que o tema nada tinha a ver com problemática eleitoral, e ´consumou-se notro´plenáriio, este realizado no . pinhal da praia de Santa Cruz, onde se realizou uma reunião plenária da CDE, a nível nacional, com mais de uma centena de delegados a abandonar a reunião em sinal de protesto contra a manipulação eleitoralista levada a cabo pelo PCP. Um panfleto saído dias depois, expunha claramente «porque saímos da CDE».

Mas voltemos a 16 de Março de 1974.

Em 22 de Fevereiro de 1974 surgira nas livrarias Portugal e o Futuro, livro em que o general Spínola defendia a tese de que a solução para a guerra colonial deveria ser política e não militar. Propunha mesmo que Portugal se transformasse numa República federal, conferindo às colónias a dignidade de Estados federados. Em 5 de Março dá-se a reunião da Comissão Coordenadora do MFA. Foi lido, e decidido pôr a circular no seio do Movimento dos Capitães, o primeiro documento do Movimento contra o regime e a Guerra Colonial. Ao que consta fora redigido pelo major Melo Antunes e intitulava-se Os Militares, as Forças Armadas e a Nação. Em 14 de Março, o Governo demitiu os generais Costa Gomes e Spínola dos cargos de Chefe e Vice-Chefe de Estado Maior General das Forças Armadas, por não haverem estado presentes na cerimónia de fidelidade ao  regime, levada a cabo pelos três ramos das Forças Armadas. Com tudo isto a acontecer, e com boatos à mistura, esperava-se a libertação a todo o momento. Naquele sábado, quando se soube que apenas o 5 de Infantaria avançara sendo facilmente neutralizado, o desânimo espalhou-se.

Subitamente, em 25 do mês  seguinte…

 

 

 

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