Uma segunda carta a uma amiga minha sobre o dinheiro que não posso colocar nos cofres-fortes de um banco porque o não tenho – por Júlio Marques Mota II

Uma segunda carta a uma amiga minha sobre o dinheiro que não posso colocar nos cofres-fortes de um banco porque o não tenho

júlio marques mota

Júlio Marques Mota

 

(continuação)

O que nos diz Summers?

Pessoalmente, acho que a ideia de retirar as notas existentes é um passo que pode ir longe demais. Mas uma moratória sobre a impressão de novas notas de elevado valor nominal faria do mundo um lugar melhor. Em termos de medidas unilaterais, o ator mais importante é, de longe, a União Europeia. A nota de EUR 500 é quase seis vezes tão valiosa quanto a nota de USD 100. Alguns atores na Europa, nomeadamente a Comissão Europeia, têm demonstrado simpatia pela ideia e o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi demonstrou muito interesse também na ideia. Se a Europa mudou, a pressão poderia provavelmente ser levada a outros, nomeadamente à Suíça.

Confesso não ficar surpreendido que a resistência no seio do BCE esteja a vir do Luxemburgo, dada a sua longa e desagradável tradição de dar conforto aos que fogem aos impostos, aos lavadores de dinheiro e outros proponentes do sigilo bancário e onde há 20 vezes mais dinheiro impresso relativamente ao seu PIB, em comparação com outros países europeus.

Estes são tempos difíceis na Europa com a crise dos refugiados, a fragilidade da economia europeia, com as questões de segurança e a ascensão de movimentos populistas. Há limites reais sobre o que se pode fazer para resolver os problemas globais. Mas aqui há um passo que irá representar uma contribuição global com apenas um impacto menor sobre o comércio legítimo ou sobre os orçamentos governamentais. Pode não ser um almoço grátis, mas é um almoço muito barato.

Mesmo muito melhor do que medidas unilaterais na Europa seria um acordo global para deixar de emitir notas que valham mais do que, digamos, USD 50 ou USD 100. Um tal acordo seria tão significativa quanto qualquer outra coisa que o G7 ou o G20 tenha feito nos últimos anos. A China, que está a preparar a receção do próximo G-20, em Setembro, está frontalmente a atacar a corrupção, uma peça central na sua estratégia económica e política. De forma mais geral, num momento em que tal demonstração é muito necessária, um acordo global para parar de emitir notas de valor elevado também mostra que os grupos financeiros globais se podem levantar contra o “dinheiro grande” e no interesse dos cidadãos comuns.

Que nos dizem alguns críticos sobre esta medida?

Uma possibilidade mais cínica

Enquanto o caso para a supressão das contas de elevado valor nominal parece bastante clara, nem toda a gente está no mesmo barco. Como se sabe, na Alemanha e na Áustria, especialmente, há um certo amor pelas notas de mais elevado valor nominal. De acordo com o Financial Times, um jornal alemão iniciou uma campanha de cartas (provavelmente não e-mail, dada o seu fetiche pela impressão ) protestando contra os planos do Banco Central Europeu para acabar com as notas de EUR 500. A Áustria também está contra relativamente às grandes notas do BCE.

O dinheiro também tem o benefício adicional de fornecer reservas de emergência para as pessoas “com taxas de câmbio instáveis, com governos repressivos, com controlos de capital ou com uma história de colapsos bancários”, como o Financial Times observou no início desta semana, em desacordo com a ideia difundida muito recentemente que as grandes contas são apenas uma ferramenta para a criminalidade.

Mas nem todos os protestos resultam de um amor pelo dinheiro, ou pela sua utilidade comum. O blog Zero Hedge, um blog Insider-finance tem uma visão mais cínica do desgosto das autoridades pelas notas de EUR 500, alegando que a verdadeira razão para eliminar estas notas é eliminar uma quantidade significativa de dinheiro da economia. Cerca de um terço de todo o dinheiro em euros que está em circulação encontra-se atualmente em notas de EUR 500 euros. Retirando um tal dinheiro a partir do sistema económico iria colocar mais dinheiro nos bancos, o que daria ao banco central mais controle, maior capacidade de prevenção na corrida aos bancos relativamente aos levantamentos importantes. Isso pode ser especialmente importante considerando-se as taxas de juros negativas do BCE, que poderia acabar por ser cobradas aos depositantes para manterem o dinheiro no banco ao invés de lhes pagar juros. Mas, no caso de os EUA, o entesouramento não levanta grande preocupação.

Então, de novo, a eliminação das notas de grande valor nominal não pode ser motivado em nada pela política monetária. De acordo com o Financial Times, o governador do BCE, Mario Draghi, disse que eliminar as notas de EUR 500 não tem nada a ver com a redução de dinheiro líquido mas sim com a luta contra a atividade criminal. As notas de elevado valor nominal podem ser substituídas por outras de mais baixas denominações para manter constante a massa monetária em circulação. Embora os rendimentos advindos da seignoriage – o lucro do governo expresso pela diferença entre o seu valor da moeda criada e o custo da emissão dessa mesma moeda – possa ser reduzido, o estudo de Sands diz que o efeito contra a evasão fiscal seria mais do que compensar os custos acrescidos.

 

(continua)

 

Uma segunda carta a uma amiga minha sobre o dinheiro que não posso colocar nos cofres-fortes de um banco porque o não tenho – por Júlio Marques Mota I

 

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