A CRIAÇÃO DE MOEDA, BANCA E CRISES: UMA OUTRA PERSPECTIVA – UMA NOVA SÉRIE SOBRE QUESTÕES DE ECONOMIA – 4. CONTRIBUIÇÕES PARA UMA OUTRA PERSPECTIVA DA CRISE – I

Falareconomia1

A Criação de Moeda, Banca e Crises: uma outra perspectiva

Uma nova série sobre questões de Economia

 4. Contribuições para uma outra perspetiva da crise[1],[2]

Andrè Chaineau

Um longo diálogo entre três professores da FEUC demasiado pacientes e um aluno terrivelmente impertinente, a propósito da crise que tinha recentemente estalado.

De um texto em formato apenas de borrão feito em 2012 pensado então como matéria para um livro e depois abandonado como projeto.

2º Dia de diálogo

(…)

Mas então, segundo os senhores professores, com as políticas de austeridade impostas, continuamos a ficar dependentes de um choque externo, como dizem os neoliberais. Ora, numa economia globalizada, sujeita aos mesmos parâmetros, aos mesmos comportamentos, não pode haver choques externos que sirvam de rutura ao quadro criado, a não ser que estes venham do além. Não nos afastamos, portanto, da lógica neoliberal, com a diferença que sabemos bem que estes não nos levam a lado nenhum e, se eventualmente sairmos da crise agora será apenas com a garantia de que a empurramos para a frente, para depois esta nos rebentar na mão, de forma ainda mais intensa. Ou não será assim, digam-me?

Tens razão, mas só aparentemente, responde-lhe um dos professores. Depois de perceberes que o crédito é a seiva que alimenta a economia real, pela compatibilização de tempos diferentes, de maturidades diferentes, do tempo dos aforradores e do tempo dos investidores reais, os empresários, e as palavras ainda têm sentido[3], vejamos um outro detalhe importante: o capitalismo tende sempre para a produção excedentária, porque em cada momento do tempo o valor dos rendimentos gerados é inferior ao valor da produção criada. Precisa portanto de estar sucessivamente sujeito a choques externos para não cair em recessão.

Esperem, por favor. Estão a ir depressa demais. Querem com isso dizer que não aceitam a versão comum da “lei de Say”, segundo a qual a oferta cria a sua própria procura?

Claro que não. Vejamos então como se podem ver as coisas. Imagina os empresários que investem 800 unidades, milhares, milhões, tanto faz, em unidades produtivas. Para a produção, o banco concede-lhes créditos bancários (a nossa moeda negativa, pois ainda não há produção). Com estes 800 unidades pagam salários e rendas no montante de 800 unidades. Qual é o poder de compra gerado?

É imediato, então, senhores professores. Se só distribui poder de compra de 800, logo só existe uma procura efetiva de 800, diz o aluno impertinente, mas aqui surge uma questão, não há lucros no sistema capitalista? Isto parece a maior aberração que nos é dada pelos neoliberais no ensino da economia. Estão os senhores, a dizer a mesma coisa? Mas mais ainda, como é que se vende o resto da produção, a diferença entre as 1.000 unidades produzidas e as 800 unidades compradas, não me diz?

Vá mais devagar, diz um dos professores. Não queira tudo explicado num instante. Repare no seguinte: imagine que se tratam de dez empresários e que a taxa de lucro é em cada momento 20%. Como no total se produziram 1.000 e se se venderam 800, o stock é de 200 unidade, ou seja, 20 unidades por empresário. Quanto vale o stock de produtos de cada empresário, calculado a preços de produção, se a taxa de lucro é de 20%. Vale 16 unidades. Então, face aos bancos, cada empresário tem uma produção, os seus inventários, stocks, que calculada ao seu custo de produção, vale 16 unidades. O banco concede agora um empréstimo de 16 unidades, garantido, “backed”, pelos stocks, como se diz agora na finança. Não arriscam. Na posse de 16 unidades cada empresário vai às compras e gasta as 16 unidades. Então cada um vendeu a produção por 16 unidades. E quanto ganhou, se a taxa de lucro é de 20%? Ganhou 3,2 unidades que corresponde ao valor de produção do seu inventário que é de 4 unidades. O banco concede a cada um dos dez empresários um empréstimo de 3,2 unidades, garantido pelos seus stocks. Cada um dispôs de 3,2 unidades que gastou. Se tinham um valor de venda ao público de 4 unidades e venderam 3,2 com quanto ficaram? Com 0,8 unidades cada um, que lhes dava direito a um crédito “backed” de 0,64 unidades. Vendeu-se a seguir a cada um 0,64 ou seja, no total, vende-se 6,4. Resta então 0,16 a cada um em stock e o processo continua. Como vês, a produção está escoar-se, a vender-se. E assim sucessivamente até que a produção se escoa por inteiro, com nenhum banco a arriscar: cada novo crédito era sempre garantido pelo valor do stock, mas calculado ao seu custo de produção.

Estou a entender, diz o aluno. As primeiras 800 unidades afluíam aos bancos e anulavam parte da moeda criada. Produto vendido, realizado no mercado é então a moeda positiva que o banco permitiu que se criasse com a criação monetária gerada pelo seu crédito. Depois, venderam-se 160 unidades (vendas dos 10 empresários, a 16 cada), depois as 32 unidades, depois as 64 unidades e assim sucessivamente. No total venderam-se as nossas 1.000 unidades, milhares ou milhões, não importa. Moeda negativa, gera poder de compra, permite a produção, permite a criação de moeda positiva no mesmo montante pela venda da produção e ao liquidar o crédito concedido, a moeda positiva anula a negativa. Mas espere, não estou satisfeito. No nosso caso, com ou sem russo, tudo tinha dívidas. Estas são pagas e fica-se na mesma. Mas aqui, também. A economia fica parada. Pagaram-se as dívidas, e depois? Afinal, o seu modelo e o neoliberal, não são ambos a mesma coisa com roupas diferentes?

Mais uma vez calma, foi a resposta que o aluno ouviu. São coisas opostas, meu caro. Vejamos. No caso neoliberal, pagam-se as dívidas e a seguir morre-se de fome, de fome e digo bem, de fome, pois não houve produção, houve apenas circulação de créditos e com a crise também não há a seguir créditos e nada avança. No nosso caso, não é assim. Admitamos, estamos perante uma situação de credit crunch, como agora. Que fazer?

Bom, o Estado sabe que tem que se substituir à atividade privada quando esta não atua se quer que a economia ande. Imagina que manda construir vias de comunicação modernas que aumentam o bem-estar da população. Gasta 1.000 unidades, obtidas através de crédito bancário e que distribui sobre a forma de bens salariais. O sistema foi então irrigado com 1.000 unidades. Temos ainda dez fábricas, 9 que produzem o valor final de 1.000 unidades cada de bens salariais e uma que produz 1.000 unidades de bens de luxo. Admita ainda que a imposição fiscal é de 10 % sobre o valor das vendas, que a taxa de lucro de cada empresário é de 10% sobre o valor das vendas e que os salários em cada unidade de produção industrial ou agrícola são de 800 unidades.

Temos então massa salarial que entra no circuito da produção 10 x 800 = 8.000 unidades em bens salariais. A estes adicionam-se os 1.000 pagos aos operários das obras públicas e temos 9.000. A produção de bens salariais encontrou uma procura efetiva do mesmo montante. Tudo bem, até aqui.

Esperem um pouco. E os lucros, pergunta o aluno espantado? E os impostos? E os bens de luxo? Não se explica nada disso?

Calma, rapaz, responderam-lhe vamos devagar para que tudo se torne claro, para ti e também para cada um de nós. Cada unidade produzia 1.000 de bens salariais, no total, 9.000 unidades. Parte da procura era proveniente dos trabalhadores destas unidades que tinham recebido, a título de salários, 9 x 800= 7.200. Por outro lado o setor de bens de luxo pagou salários de 800 unidades que se acrescem aos 7.200 anteriores e temos um total de 8.000 unidades. A estes valores acresce ainda a procura de bens salariais das obras públicas em 1.000 unidades e temos então os 9.000. Mas agora repara. Cada uma das 9 empresas de bens salariais vendeu 1.000, gastou 800 em salários, retira 100 para os impostos e fica com 100 de lucros, já em termos monetários. Temos assim, no total, 900 unidades para pagamento de impostos. Gastam os seus lucros em bens de luxo e então temos uma procura de bens de luxo, produzidos fora do seu setor, de 9x 100=900 unidades. Encontramos o setor de bens de luxo com 100 unidades de excedente. Produziram 1.000, venderam 900 aos outros empresários, produtores de bens salariais e venderam 100 entre si, possivelmente via crédito bancário, garantido, “backed”, pelos stocks. Obtiveram uma receita de 1.000, pagaram 100 unidades de impostos, 800 de salários e 100 foram distribuídos como lucros. O sistema entrou em ordem e não precisámos de nenhum choque externo. Precisámos sim, de um choque interno, de um choque de mentalidades, de uma nova conceção do Estado, de uma nova conceção de um Estado ativo na Economia. Só assim é que se pode ser regulador. Isto é o contrário do modelo neoliberal.

Pois é, diz o aluno. Agora percebo porque é que eles nos dizem que o Estado é inoperante.

Não será bem assim, foi a resposta dada. Por aqui apenas rompemos uma ideia central dos seus esquemas: face à crise é necessário e urgente que o Estado intervenha na economia, sendo fundamental que se tenha a primeira perceção de que o sistema assenta numa dinâmica que gera necessária e sucessivamente a desigualdade entre o valor da produção criada e os rendimentos ex-ante à produção distribuídos, pois só assim é que verdadeiramente a intervenção estatal tem sentido. Conceito fundamental que nos permitiu, contrariamente ao que nos dizem os neoliberais criar infraestruturas necessárias a coletividade, aumentar a produção e não ter inflação. Como vês, a partir da moeda negativa e da desigualdade “Produção maior que Rendimento ex-ante” é toda uma outra visão da economia que salta à vista.

Mas, espere, e o crescimento económico? E o New Deal? E o plano de reconstrução europeia pós Segunda Guerra Mundial? E o plano Marshall da Europa. Como é que isto se enquadra no que foi exposto? Ou se enquadra tudo isto, ou então o modelo também não nos serve para nada. Que me dizem, então?

A resposta é simples, muito simples, mas fica para amanhã, foi o que o aluno ouviu.

(continua)

________

[1] Este borrão de texto foi elaborado por Júlio Mota, Margarida Antunes e Luís Peres no final do ano de 2012. A estes dois participantes peço desculpa pelo roubo assumido, ao publicá-lo agora, mas as recentes declarações de um dos maiores operadores de Wall Street, John Bogle, despertaram-me o interesse pelo borrão de um projeto que a crise eliminou e que por isso, esquecido ficou nas virtualidades de um disco duro. Mesmo na qualidade de borrão, acho que pode ser lido. De exclusivamente pessoal, este trabalho tem apenas a inserção de pontos que ficaram por escrever na altura e para o efeito utilizei apenas os documentos para tal  então seleccionados, com uma só excepção bem referenciada no corpo do texto de agora. Também devemos tornar claro que o projecto inicial era ele dedicado aos alunos impertinentes que todos nós tivemos pela frente e desses tempos foram muitos. Pela minha parte, na época, gostava de me despedir assim de todos aqueles que deram sentido ao que fiz, ao que li,  ao que reflecti, ao que reproduzi. Desses, alguns deles  são hoje professores na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra ou noutras Faculdades.

[2] Agradeço a Flávio Nunes, meu antigo aluno e amigo, a releitura, os seus comentários, o  rearranjo gráfico   deste texto e das suas múltiplas tabelas.

[3] Uma questão dos tempos: a mudança do significado das palavras: como assinala Kempf. “Não há melhor símbolo desta nova fase do capitalismo que as palavras usadas pelos comentadores: antigamente, «investidor» designava um empresário que aplicava o seu capital numa operação industrial ou comercial de resultado incerto. Agora, o termo qualifica as pessoas ou as firmas que investem no mercado financeiro e que não são, na verdade, senão especuladores.” P. 20, Hervé Kempf. Ou a na nossa brochura.

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