CARTA DE VENEZA – PARA CELEBRAR A CHEGADA DA PRIMAVERA – por Vanessa Castagna

carta de veneza

Há iniciativas que têm vindo a fazer parte dos hábitos dos italianos mais curiosos e uma delas é sem dúvida a das Giornate FAI di Primavera, cuja 24ª edição acaba de decorrer: dois dias em que o Fondo Ambiente Italiano, graças a milhares de voluntários, permite descobrir tesouros habitualmente inacessíveis do património artístico, cultural e natural italiano.

Veneza não é exceção, já que, entre outras preciosidades preservadas e valorizadas pelo FAI, apresenta na magnífica praça de São Marcos a Loja Olivetti, um espaço desenhado pelo célebre arquiteto Carlo Scarpa (hoje propriedade de Assicurazioni Generali) que o FAI ajudou a recuperar.

A Loja Olivetti foi encomendada em 1957 por Adriano Olivetti (1901-1960) ao arquiteto veneziano Carlo Scarpa (1906-1978), sendo inaugurada no ano seguinte. A Loja não era concebida para ser um verdadeiro espaço de venda de máquinas de escrever, mas antes uma sala de exposição que bem simbolizasse a procura de qualidade empreendida pela Olivetti.

Scarpa ganhara em 1956 o prémio Olivetti da arquitetura e já realizara importantes intervenções em sítios históricos, como o Museu de Castelvecchio em Verona e o Museu do Palácio Abatellis em Palermo, dando provas de uma especial capacidade para dar um visual moderno a um contexto rico de história.

A Loja realizada por Carlo Scarpa representa de uma forma própria a excelência da histórica empresa de Ivrea, na vanguarda inclusivamente pela sua inovadora abordagem social ao trabalho. Nas décadas de cinquenta e sessenta a Olivetti encontrava-se em grande expansão, contava com 40.000 empregados e estava presente em 17 países. Os seus produtos eram conhecidos e apreciados em todo o mundo: em especial, podem-se mencionar a Divisumma (1940), a sua primeira máquina registadora, e a icónica Lettera 22 (1950).

Ambos os modelos referidos fazem parte da exposição original da Loja, que só há poucos anos foi recomposta pelo FAI graças à oferta das peças históricas por parte da família Olivetti. Com efeito, em 1997 a sociedade de Ivrea, numa fase de dificuldade comercial, acabou por fechar o prestigiado showroom de São Marcos, que foi substituído por uma loja de lembranças para turistas pouco em sintonia com a qualidade arquitetónica da Loja. O ressurgimento desta pequena joia é certamente um sinal positivo para quem tem saudades de uma cidade mais autêntica.

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