QUE CRISE É ESTA? de MARCELLO DE CECCO

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Que crise é esta?

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota. Revisão de Joaquim Feio.

Marcello De Cecco, Ma che cos’è questa crisi

Sinistrainrete.info, 3 de Dezembro de 2013

De onde é que vem e para onde é que nos leva esta crise que desde há seis anos afecta fortemente os principais países desenvolvidos? O que vai acontecer à Europa e ao euro? Publicamos aqui a introdução do último livro de Marcello De Cecco, Ma che cos’è questa crisi publicado pela Donzelli em 2013.
Marcello Secco - I

 

A crise atinge desde há seis anos os principais países desenvolvidos. Atingiu o coração da economia mundial, depois de ter atingido em 1997-98, os países emergentes, especialmente na Ásia. Agora, de acordo com a tradição, a crise parece dar um abraço mortal aos países que, na actual convulsão, pareciam ter sido poupados e que mostravam realmente uma capacidade invejável para crescer e prosperar, apesar das dificuldades do centro.

Marcello Secco - II

Com esta enorme convulsão tanto a economia como a ordem política global tudo vão sair completamente mudadas. Não sabemos o que vai acontecer à Europa e ao euro, e nem ao menos sabemos quanto é que do chamado modelo europeu de organização económica e política irá sobreviver. Sabemos que o equilíbrio mundial vai ser profundamente alterado, com a ascensão que parece imparável da China e com o declínio relativo de alguns países: Europa, Estados Unidos e Japão.

Que uma grande crise se estava a gerar é coisa que se poderia prever, certamente, em 2007. Pessoalmente, argumentei que estávamos na véspera de uma grande reviravolta em todo o mundo, em Maio do mesmo ano, no final de uma palestra que dei na Universidade de Waterloo, no Canadá. Já havia algum prenúncio nas dificuldades anunciadas em Fevereiro por um par de instituições financeiras americanas, que afirmaram ter problemas no sector dos empréstimos subprime, uma categoria que toda a gente viria a conhecer em poucos meses, mas que me parecia ser ainda completamente desconhecida para um leigo na matéria, bem como para muitos que neste campo trabalhavam.

Nesta minha conferência referi que a situação canadiana tinha muitas semelhanças com a dos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial. Então, a libra era a moeda internacional, de um sistema que estava ancorado ainda no ouro. Mas a Grã-Bretanha era um país em declínio. As duas superpotências emergentes eram os Estados Unidos e Alemanha, embora nenhuma ambicionasse substituir a libra com a sua própria moeda como o centro do sistema monetário internacional. Ambição que acalentava a França, que, na sua tentativa de substituir o a libra esterlina pelo franco, dava instabilidade ao sistema, às vezes de propósito (no período 1907-1914 houve numerosos incidentes que viram a França repatriar fundos da Alemanha por razões políticas, obrigando esta a procurar ouro e a impedir a saída do mesmo). O dólar viria tornar-se a moeda global somente após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Nas primeiras quatro décadas do século XX, portanto, o sistema monetário internacional tinha-se tornado policêntrico, o que acentuou a instabilidade e também favorecia o desenvolvimento dos mercados e das transacções financeiras baseadas na arbitragem e na especulação. Nessas décadas, o sistema também viu o florescimento de “inovações financeiras” em parte graças às inovações tecnológicas reais, como os cabos telefónicos transoceânicos e a rádio, mas em larga medida resultado de invenções que foram destinadas a incentivar a especulação e a contornar os controlos financeiras e fiscais.

A crise presente é uma crise que vem de longe, certamente desde o início dos anos  de mil novecentos e noventa, e tem a assinatura das autoridades económicas e da grande finança nos Estados Unidos. Os europeus e os chineses também têm, em certa medida, a sua quota de responsabilidade. Mas a máxima culpa deve ser imputada seguramente à determinação americana de financiar as suas guerras com o menor custo possível em  matéria de juros da dívida pública, através de uma política monetária extremamente expansionista e de uma dinâmica excepcional das instituições financeiras privadas, que as autoridades americanas permitiram para não terem de suportar medidas correctivas dolorosas, em particular, da sua gestão económica e política. Os comportamentos americanos também são induzidos pela necessidade de ajustar a economia privada para prolongar a fase de crescimento e de emprego máximo, tentando contrariar os ciclos que se formavam no sistema produtivo. Criaram enormes défices nas contas externas dos EUA, que correspondem igualmente ao grande excedente nas contas externas de países como a Europa, a China e os países emergentes, cujas economias foram cada vez mais impulsionadas pelas exportações. Estes países partilham a responsabilidade pela crise juntamente com os Estados Unidos, mas a verdadeira variável independente é o comportamento do sistema americano, induzindo todos os outros.

A crise actual é sobretudo financeira. O crescimento anormal das superestruturas bancárias e de outras instituições e dos mercados financeiros é muito difícil de subestimar, era por demais evidente, especialmente nos Estados Unidos, mas também noutros lugares, desde o início dos anos de mil novecentos e noventa. Era uma tendência muito em voga já em décadas anteriores, mas nas duas últimas o sector financeiro tornou-se em todos os países, especialmente nos países do centro, o Primum mobile de toda a economia, dotado de energia e vontade independente e capaz de fazer um melhor uso de todas as inovações, particularmente da electrónica e das comunicações, que todos os outros sectores, que estavam disponíveis com uma velocidade  cada vez maior.

Quando a crise eclodiu, no entanto, espalhando-se dos EUA para o resto do mundo desenvolvido, mas também envolvendo áreas que mal haviam começado o seu caminho de desenvolvimento, como a África, a economia real foi atacada com um verdadeiro furor, como evidenciam os dados relativos à produção e ao emprego. Foram mais afectadas as camadas mais desprotegidas da população, em particular a chamada classe média, que entrou em sofrimento a seguir às camadas de trabalhadores industriais, e que devem ser consideradas verdadeiras vítimas da crise. O problema é que a classe média é o personagem principal do “capitalismo com rosto humano”, o capitalismo do bem-estar público, e a sua nova fraqueza prenuncia, pois, tempos de austeridade de ferro para as relações sociais no centro do sistema económico mundial. O sofrimento da classe média envolve também os sectores de produção de bens de consumo que dependem da sua procura, os sectores construídos na aplicação do princípio de economias de escala: automóveis e electrodomésticos, por exemplo, embora se deva salientar e diferenciar nesta dinâmica as suas produções das dos bens de grande luxo, reservados à pequena categoria dos ricos e dos super-ricos, que viram as suas fortunas ainda melhorada pela crise actual.

Outra grande vítima da crise foi a integração europeia, que está claramente em recuo desde 2007, e parecia ter tomado, com a introdução do euro, a via de um grande e duradouro sucesso. A crise dividiu a Europa em três: há os países do centro, como a Alemanha, a Finlândia, a Áustria e (embora vacilante) a Holanda; em seguida, há uma área fora do centro, que compreende essencialmente a França, o segundo país na Europa; e depois há a periferia, uma categoria nova e em sofrimento, a que pertencem a Itália, Grécia, Irlanda, Espanha e Portugal.

Imediatamente antes da eclosão da crise, o mesmo para o escoamento do excedente alemão sob a forma de investimentos na zona euro chamada periferia tinha-se esperado uma bem maior, e não menor, homogeneidade nas condições económicas de todo o espaço europeu. A crise deitou essas esperanças por terra, forçando a Europa a tomar medidas de emergência, segundo o pior dos estilos europeus, negociado com milhares de dilações e de hesitações e assumidas como uma espécie de óleo de rícino pelos países excedentários.

Nas páginas que se seguem, que reproduzem alguns dos artigos que publiquei no jornal “La Repubblica” neste período (1), tentei abordar todas estas questões, uma vez que estas se apresentam com uma urgência e um dramatismo  que não se conhecia já desde o fim da II Guerra Mundial. E não se lhes podia fugir. Mesmo aqueles que tentaram fazê-lo, criando, como os economistas ortodoxos, o seu próprio mundo virtual, têm sido profundamente abalados pela crise e tiveram de voltar a utilizar padrões de pensamento menos rarefeitos. Mas, sempre que o clima da economia mundial parece indicar um retorno a um estado de maior tranquilidade, ei-los, de novo, os economistas ortodoxos, a voltarem ao seu mundo virtual, tentando reconstruí-lo. Isto é particularmente perigoso, porque é precisamente a autoridade da economia ortodoxa que sugere soluções incorrectas para as classes dominantes dos países do centro, com consequências dramáticas que agravaram ainda mais a crise.

Perante o perdurar da crise mais grave dos últimos cento e vinte anos, na ausência de soluções inovadoras sugeridas pelos teóricos para os actores políticos, a tendência mais forte, infelizmente, parece ser a de recorrer a velhas soluções que, desde há muito tempo, estão desacreditadas, e regressam de repente a ser moda e sugerem medidas de forma precipitada, avulsas e duras, porque as medidas finalmente tomadas, são-no com atraso e sem nenhum acordo, mesmo entre países que pertencem a Uniões de Estados, como é o caso dos países europeus. Nacionalismo, proteccionismo, regulação dos mercados são os nomes dessas soluções. Depois de terem sido desacreditadas e postas de lado por mais de meio século, como se fossem impulsos pecaminosos e indignos de uma organização internacional nova e mais elevada devemos sentirmo-nos culpados e até mesmo estúpidos por isso mesmo, porque na forma mais branda estas medidas deveriam permanecer em voga, mesmo o nacionalismo, enquanto agora há quem as queira aplicar a toda a pressa e em doses muito mais elevadas, sem beneficiarem dos benefícios que derivariam da aplicação destas medidas em doses moderadas, e correndo-se pois plenamente o risco de mergulhar o mundo inteiro numa nova desordem internacional, com consequências económicas e políticas semelhantes às que induziram duas guerras mundiais e o caos dos anos  vinte e trinta do século XX.

A desagradável sensação de estarmos a viver um período de profundo refluxo a caminho do nacionalismo e do racismo é difícil de evitar, na Europa como noutros lugares. Os recém-libertados ex-países soviéticos da Europa de Leste, por exemplo, têm estado a viver uma verdadeira orgia de nacionalismo, infectando, por causa da sua integração forçada na UE, até mesmo os antigos membros da UE que, de resto, não precisavam nada disso, e iniciaram um caminho menos explícito, mas igualmente inequívoco na mesma direcção.

Uma nova classe política vai emergir desta viragem acentuada nos países que terão de a efectuar ou simplesmente de a suportar. Se levarmos em linha de conta a experiência dos últimos cem anos, as previsões são necessariamente nefastas. Como acima escrevi, estamos a voltar a tempos de ferro, como aqueles que homens da minha idade viveram na sua infância.

 

La Repubblica Marcello de Cecco, Ma che cos’è questa crisi, Introdução ao livro com o mesmo título, publicado por. Texto disponível em:

http://www.sinistrainrete.info/crisi-mondiale/3240-marcello-de-cecco-ma-che-cose-questa-crisi.html

 (1) Agradeço ao grupo editorial L’Espresso ter autorizado a republicação dos artigos saídos em «».

 

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