GIRO DO HORIZONTE – TERRORISMO GLOBAL- por Pedro de Pezarat Correia

Imagem1A situação internacional continua focalizada em Bruxelas, nos recentes atentados na capital belga e nos seus antecedentes próximos de Paris e, com ela, no problema que é hoje centro das preocupações generalizadas – o terrorismo global.

Já várias vezes temos abordado o problema do terrorismo que não é novo, pelo contrário é tão velho como a própria guerra. O que é novo é que, enquanto inserido na área da conflitualidade militar, deixou de ser uma forma de violência complementar, menor, no seio de guerras convencionais ou mesmo irregulares, passando a ser um tipo de guerra autónomo. Passou do patamar da tática ao da estratégia.

A verdade é que o pensamento estratégico clássico ainda está num processo de adaptação a esta modalidade de conflitos. Vai encontrar respostas, mas estes processos são lentos e desenrolam-se ao mesmo tempo que têm de agir. Na permanente dialética da evolução do confronto entre o gládio e o escudo, a resposta de um à iniciativa do outro precisa de tempo mas não conhece pausas o que, numa época em que a opinião pública está em permanente contato com os acontecimentos e exige respostas imediatas, é mal compreendido.

A grande arma do terrorismo é a surpresa, a imprevisibilidade. A evolução da guerra levou a que se sistematizassem, ao nível militar, formas de planeamento e decisão que passavam pelo conhecimento, estudo e previsão das formas de atuação do inimigo, do quando, do onde, do como, do com quê. No atual patamar do conhecimento em relação ao terrorismo a aplicação desta forma de resposta militar é ainda muito precária.

Os Estados e a chamada comunidade internacional vão, seguramente, aperfeiçoar as capacidades de resposta ao terrorismo global. Presentemente ainda se está numa fase em que as formas de atuação se assemelham algo às que são aplicáveis às catástrofes naturais: prevenção, seleção de probabilidades, previsão de riscos, prontidão de meios, capacidade de intervenção, controlo e minimização de danos. As armas mais eficazes são as informações, a contra-informação, a espionagem, as polícias, a proteção civil. A componente militar assume, aqui, um papel complementar.

Atualmente o terrorismo começa a apresentar-se com novos contornos. O terrorismo global, na sua própria evolução, tende também ele a expor os seus flancos. Com a Al Qaeda e, agora com o Estado Islâmico, aquilo que era uma ameaça difusa, não identificada, não localizada, passou a ter rosto, a estar referenciada, a ter estruturas. A repetição das suas ações passou a evidenciar modos de atuação, a denunciar objetivos, a revelar bases organizacionais. Isto é, passou a apresentar-se como alvo apropriado para intervenções em que as forças militares sejam atores fundamentais e já não complementares da ação policial.

As sociedades organizadas têm de se mentalizar para conviverem com esta realidade sem porem em causa os seus valores fundamentais. O pânico generalizado ou a reação emocional será a forma de atuação mais desejada pelo terrorismo. Porque o objetivo do terrorismo é mesmo esse, causar o pânico para dominar e se impor. Dizemos, no Ocidente, que o objetivo do terrorismo global é a destruição dos nossos valores civilizacionais, a liberdade, a democracia, os direitos humanos. No dia em que abdicarmos desses valores, como pretexto para combater o terrorismo, nesse dia o terrorismo ganhou. No dia em que no ocidente a resposta ao terrorismo impuser a instauração de regimes, como alguns que são anunciados por movimentos políticos em ascensão na Europa e na América, chauvinistas, xenófobos, racistas, religiosamente intolerantes, totalitários, policiais, o terrorismo ganhou. A paternidade do atual terrorismo global também é, como muito bem lhe chamou Fernando Rosas, um islamofascismo. Islamofascistas e neofascistas cristãos serão todos bons aliados.

Invoca-se, por vexes, Samuel Huntington e a sua tese do “Choque das civilizações” para caraterizar o atual terrorismo global como um conflito entre o ocidente e o mundo islâmico. É um erro crasso da análise huntingtoniana, porque a atual fratura passa, no essencial, pelo interior do mundo islâmico, a grande maioria das vítimas do terrorismo global são muçulmanos, os teatros mais atingidos são o Iraque, a Síria, o Afeganistão e outros do mundo islâmico. E o ocidente bem ajudou a criar as condições para que o Médio Oriente fosse o alvo privilegiado.

O combate europeu ao terrorismo global tem duas frentes. Uma direta, preventiva e reativa, contra os grupos armados e as suas bases proclamadas. Nesta frente os Estados europeus devem, obviamente conduzir as suas ações próprias, preventivas e reativas face às ameaças que os atingem, mas num quadro de cooperação com os Estados muçulmanos, aos quais deve competir o principal papel na estratégia global contra o terrorismo. Este quadro tem de ser patrocinado pela ONU. A outra frente é indireta, política, no interior dos países ocidentais, para que sejam capazes de salvaguardar regimes que recusem soluções políticas que consagrem a vitória do terrorismo global.

É tema que fará correr muita tinta. Alguma da nossa parte, certamente.

28 de Março de 2016

 

 

 

Leave a Reply