Meus amigos e familiares cobram-me o desapego pelo dinheiro. Às vezes, até de forma veemente. Entendo-os, porque, afinal, sou o mantenedor/provedor da família, e, em muitos casos, o “desaperto” de algum deles que, eventualmente, esteja passando por percalços financeiros. Na condição de advogado criminalista, termino, em muitos casos, trabalhando de graça, já que não resisto às lágrimas de uma mãe ou de uma avó que me procuram em diversificados dias e horários, das quais já não cobrei consultas, porque seus filhos ou netos acabam de ser presos de forma ilegal, por abusos de policiais despreparados ou que, pelos mais variegados motivos, necessitam efetivar tais prisões, “industriando” flagrantes (e não se enganem: os presídios têm, pelo menos, UM QUINTO de suas superlotações por esse motivo ou pela malfadada e inconstitucional Lei Maria da Penha, que sequer precisa de provas para levar homens aos cárceres, embora eu não concorde com violência contra as mulheres ). Como também tenho um escritório cercado por comunidades miseráveis, jurei não conviver com injustiças e tenho alma intimorata, é-me impossível não atuar, mesmo que graciosamente, comprando, em algumas situações, algumas peleias homéricas. Mas sei de muitos dos que estas mal-digitadas lerem, que reagiriam da mesma forma. Então, não importa a cobrança da minha gente quanto ao descaso pelos metais. Na minha idade, não mudarei.
O dinheiro é meio, não meta. É ferramenta, não artífice. É matéria-prima, não obra acabada. Diferentemente da maioria, sou um péssimo comprador, porque aprendi com meu falecido pai que precisamos ganhá-lo antes de comprar algo. Ele dizia que “o surgimento do crediário acabou com a paz do homem” e não tinha prestações, mensalidades. Cresci nesse modelo familiar, e, mesmo que necessite de algum bem, junto os valores para comprá-lo à vista. Se não é prioritário, abstenho-me. Não costumo ter muitas economias, em razão do acima descortinado, mas visto o que preciso, como o que gosto -e muito além do que deveria- e não costumo tomar emprestado, o que envergonharia ao meu tão amado pai. Então, tenho uma vida digna e isso me basta. Tudo o demais é ostentação, veleidades. O dinheiro constitui pesada responsabilidade ao seu possuidor, porque não compra felicidade e, muitas vezes, torna-se responsável por incontáveis desditas. Apesar disto, a sua ausência quase sempre se transforma em fator de desvario. Em si mesmo, ele não tem culpa, não é bom nem mau. A aplicação que se lhe dá torna-o agente do progresso e do desenvolvimento, do conforto físico e, às vezes, moral, ou causa de inomináveis desgraças. Também através dele irrompe o vício e a corrupção, que arrojam criaturas levianas em fundos despenhadeiros de loucura e criminalidade, como o que vivenciamos em nossa sofrida Pátria, atualmente. Mas por intermédio dele igualmente se estabelecem acordos de paz, se oportunizam grandes descobertas e, se bem aplicado, mitiga a vida de tantos sofredores. Esse objeto contraditório, construtivo e também mórbido, capaz de fomentar guerras calamitosas, é o chamado vil metal e sua posse ou falta é relevante para quase toda a Humanidade.
Portanto, usa-o sem escravizar-te. Possui-o sem deixar-te por ele possuir. Não te desesperes pelo dinheiro, pois tê-lo ou não pouco importa na economia moral d tu existência. Enfim, que o brilho dos metais não te ofusquem os olhos à caridade e que o peso do ouro, se o conseguires, não te encurve a dignidade.
Dois peesses: * essa matéria foi publicada na REVISTA DA SANTA ISABEL, em Viamão, RS, em 2004. Acabo de “recauchutá-la”, atualizando-a.
* a taxa média de juros cresceu 2,4 pontos percentuais, de dezembro para janeiro, quando ficou em em 61,1% ao ano. No cheque especial, ela chegou a 292,3% ao ano, com alta de 5,3 pontos percentuais. Segundo o Banco Central, a taxa de juro rotativo do cartão de crédito, hoje, é de 439%.

É sempre um renovado prazer poder ler os abalizados artigos do meu nobre e sapiente amigo Carlos Reni.
Texto excelente que muito apreciei.
Meus aplausos ao Amigo Carlos Reni.
Fraterno abraço
Isabel
(Lisboa-Portugal)