
As Sardines, os Santos Populares e a Perda de Identidade
Na minha cidade, e nas duas que com ela confinam, assiste-se a um fenómeno que em tudo se revela desagradável. O afluxo turístico, por certo bem-vindo e desejável nos seus primórdios económicos, trouxe consigo um provincianismo bacoco que corrói, a passos largos, a nossa identidade colectiva.
Enterrou-se o cimbalino, que já agonizava sem pompa nem circunstância na penumbra dos balcões, e com ele esmoreceu a meia de leite em chávena escaldada, o fino e o príncipe, o pingo, o galão, o carioca de limão, o copo de três, o quartilho, o traçado e o abafado. Do chuço já poucos guardam memória, tal como do saudoso Mono. A listagem das nossas pequenas liturgias urbanas é vasta e jaz, agora, na vala comum do esquecimento.
Em contrapartida, nas bancas das peixarias e nos cartazes ou ementas das casas de pasto, surgiram as inevitáveis sardines! Pelas ruas, proliferam os churrascos de feição brasileira, descaracterizando a paisagem e o olfacto da ribeira e dos bairros históricos. Nada tenho contra o churrasco brasileiro; tenho contra a transformação da cidade numa montra onde a identidade local vale apenas enquanto souber agradar a quem nos visita.
Por altura das festas dos Santos Populares, os estrangeirismos brotam como cogumelos após a trovoada, suplantando a própria tradição. Os turistas andam à cata da icónica francesinha, das tripas e do caldo verde. Quanto ao genuíno bacalhau à Gomes de Sá, aos pastéis de bacalhau de antigamente, às iscas, ao pernil, ao arroz de cabidela, aos rojões ou às singelas moelas, esses vão ficando para trás, no mais espesso silêncio. Ninguém os pede, ninguém os conhece, ninguém os valoriza. As nossas festas eram populares e tinham um forte sentimento de pertença, linguagem própria, comida e música, cheiro e improvisação, e vizinhança com o comércio local. Agora, temos traduções, cartazes, programação, experiências, menus, conceitos, fotografia e consumismo. A nossa festa deixou de ser vivida e passou a ser oferecida.
A questão central impõe-se com urgência. Onde fica a nossa identidade? Hoje, entramos num estabelecimento de restauração na nossa própria terra e somos de imediato interpelados em inglês, uma falta de respeito perante a qual me recuso a curvar, virando o corpo e abandonando o recinto.
– Good evening…
– Boa noite!
– …
E o espectáculo grotesco atinge o cume quando o empregado, ao perceber finalmente que o cliente é português, vê o sorriso mercantilista desvanecer-se num esgar de contrariedade.
Se procuramos lembranças, são inúmeras as lojas de recordações onde o contrafeito e o descuido substituíram a qualidade. Um desperdício que não serve o turista, nem a cidade, nem quem nelas trabalha.
Há ruas onde a falta de integração deixou marcas visíveis; espaços onde a exclusão social se acumulou sem resposta, e que o visitante atravessa com uma desconfiança que não deveria existir numa cidade que se quer acolhedora.
E a pergunta impõe-se; o que pretendem fazer os senhores Presidentes das Câmaras do Porto, de Matosinhos e de Gaia? Como pôr cobro a estes dislates que, por decisão própria ou desleixo, transformam a invicta terra num parque temático feito à medida de quem nos visita?
A preservação da identidade não se compadece com a submissão acrítica ao lucro imediato ou a ideias peregrinas dos modernos pensadores do burgo. Exige-se regulação, respeito pelas raízes e uma defesa intransigente do nosso património linguístico, gastronómico e cultural, antes que o último balcão tradicional feche portas, antes que tenhamos de explicar ao empregado o que é um cimbalino, e antes que sejamos estrangeiros na nossa própria casa.

Sou dos que aceito ser a identidade cultural plasmável a influências de culturas externas mas com a condição de não haver perda de qualidade no elemento em causa. Cito o caso do molete, que se afirma ter sido introduzido no Porto por um militar francês. Não substituiu a sêmea, ou a broa de Avintes, é certo, mas possibilitou à população da cidade um pão de excelente paladar, que deixou de haver. Agora, vender a quem nos visita o «hotdog» em vez da isca de bacalhau é concorrer para a desaparecimento desta, se é que ainda existe na Ribeira. O turista que nos visita, sobretudo o jovem continua a pedir o cachorro quente, porque é aqui mais barato e pode fazer uma refeição com ele. Poderia também apontar a perda de qualidade histórica e artística da reutilização das habitações ribeirinhas para alojamento turístico implicando destruições da compartimentação dos interiores e o desaparecimento de elementos que as identificavam. E que em muitos casos foi responsável pela gentrificação devido à subida forçada das rendas. Guimarães, no seu Centro Histórico, não aplicou tal processo, mas antes procurou fixar a população das ruas históricas nas suas casas.
Muito obrigado pelo comentário e pelos exemplos, que enriquecem bastante a reflexão. Estamos, creio, de acordo no essencial; não se trata de rejeitar as influências externas, mas de evitar que, em nome delas, se perca aquilo que a cidade tem de seu. O exemplo do molete é particularmente feliz; o do cachorro quente em lugar da isca de bacalhau, infelizmente, também. E a questão das habitações ribeirinhas e da gentrificação acrescenta uma dimensão importante ao problema.
Obrigado pela contribuição e pela conversa.
Divulguem os pratos locais nos restaurantes na época dos Santos Populares.
Abraço
Concordo totalmente, mas durante todo o ano.
Abraço