LITERATURA DA GUINÉ-BISSAU/1- por Maria Estela Guedes

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‘N BA PAPIA CRIOULO?

Ultimamente tenho andado a reunir materiais literários da Guiné-Bissau e múltiplos problemas se vão acumulando. Continuo a pedir-vos mais, apesar deles. Ainda falta muito para incluirmos todos os escritores.

O que já constitui a nossa colheita, ou kebur, no crioulo guineense, pode ser consultado em: http://www.triplov.com/guinea_bissau/

O termo mais apropriado para definir o que se passa não é problema, sim ferida. Uma série de feridas, dificilmente sanáveis, porque a memória é viva, ainda não passou tempo bastante para se falar de memória histórica. Da independência brasileira já não há testemunhas, porém na colonização de África, na guerra colonial e nos processos de independência, estamos implicados em enorme percentagem. Por isso existe ainda agora uma chaga que se exprime na amistosa hostilidade entre indígena e alienígena, entre ex-colonizador e ex-colonizado. Ou não será hostilidade, sim manter-se na defensiva, o que é sempre atitude bélica. O próprio conceito de exotismo, de que se foge, e que ao europeu se censura, quando escreve sobre África, mais do que os problemas que levanta, é ferida que sangra. Sangra nos dois lados, nos lados todos da questão, pois os implicados no processo de descolonização são bem mais do que dois.

O primeiro problema é o da classificação, e primeiro porque as diligências africanas decorrem do meu livro Chão de Papel, cujo título, traduzido, daria Bissau. Em que estante lineana se arruma ele? – comecei por perguntar a mim mesma, antes de bater com a cabeça nas paredes, diante de estudantes brasileiros que esperam ouvir-me falar destes assuntos. E, já agora, sempre vou dizendo que outra ferida é a de parecer mínima a cooperação portuguesa nos estudos africanos, face à dos brasileiros, pelo menos na Internet.

No blog Senegâmbia, com grande simpatia, Duarte Figueiredo assentou em que, tantos anos após a descolonização, o meu caderno de poemas não podia integrar-se na literatura colonial guineense; não o dizendo, ficou entretanto nas entrelinhas que, não sendo eu bissau-guineense, também não podia receber o rótulo de literatura guineense. Então trata-se de literatura portuguesa, relativa a África, mais especificamente à Guiné-Bissau. Diplomaticamente, o problema ficou solucionado, e até parece simples.

Sim, esta conversa está à beira de um cataclismo emocional. Mais: entrar em consideração com as emoções do ex-colonizador é uma frivolidade, quando, após um mês de pesquisa, verifico que, do lado de lá, ainda nem sequer está criado o mecanismo de suporte de uma literatura. Eu, que chego a Bissau mais de quarenta anos depois de ter saído de lá, isto é, que só agora dedico atenção ao que tive, por um período da minha vida, como minha terra, nha tchon, e não há diplomacia que nos convença a renunciar a bens que não são materiais nem políticos, este nha tchon é territorialidade psicológica, quero que me classifiquem como literatura guineense um caderno de poemas, quando os escritores guineenses ainda não decidiram qual será o suporte linguístico da sua literatura. Na Guiné-Bissau existe uma literatura nascente, de acordo com a nação nascente, que, por isso mesmo, por serem imagem especular uma da outra, ainda não alcançou uma maturidade que permita classificá-la. Não é que a classificação seja importante, mas é assim que pensamos, enfiando objectos em gavetinhas hierarquizadas, com etiquetas por fora a dizer o que está dentro. Ora a língua em que estão escritos os documentos dessa gaveta, a nacionalidade dos que os escreveram, o tempo em que foram escritos, a nacionalidade do território em que foram publicados, etc., leva a perguntar o que é a literatura guineense. Eu não digo que não existam muitos textos literários, que a produção não seja rica, questiono-me é sobre os carateres que definem a literatura guineense. Afinal, são eles que determinam que o meu Chão de Papel seja excluído do conjunto de obras a que se pode ou não dar o nome de “literatura bissau-guineense”.

Se atentarem na colaboração enviada para o TriploV depois do meu pedido de textos guineenses, verificam que apareceu uma série deles sobre João Vário – a questão não é a de João Vário ser cabo-verdiano, sim a de os textos serem de um português, o poeta Luís Serrano, e um poema de João Rasteiro, a quem pedi duas linhas de biografia a justificarem que eu incluísse aquele poema na literatura angolana. Ao que ele respondeu não ter declarado que o poema era angolano! Não, de maneira nenhuma, e prefiro transcrever o e-mail, o João Rasteiro não se aborrece com isso:

Estela, eu não disse que o poema “é angolano”, ele é “lusófono”, pois abarca todos os cinco paises africanos de língua portuguesa.

Para além disso, como referi, ele resultou do concurso efectuado pelo “Congresso Internacional de Literaturas Africanas”, no que concerne aos espaços de língua portuguesa.

Ah, e eu sou Licenciado em Literaturas Modernas, Variante de Estudos Portugueses E Lusófonos.

POEMA = Geografia Lusófona

Esse “poema lusófono” de João Rasteiro, “Cinco dedos na polpa da terra”, em 2003 obteve o prémio de poesia e conto “Cinco Povos Cinco Nações”, promovido pelo “Congresso Internacional de Literaturas Africanas”.

Não é que tu não mereças prémios, João Rasteiro, pergunto é que literatura pretendia estimular e promover um Congresso Internacional de Literaturas Africanas. Além da literatura portuguesa, da angolana, da moçambicana, da bissau-guineense, etc., agora aparece uma literatura lusófona, capaz de abarcar pelo léxico e pelos temas todos os que falam português, incluído o Brasil?

Posto isto, não nos surpreendamos com o facto de António Cardoso Pinto, nascido em Angola, de nacionalidade portuguesa, também ter acorrido ao meu apelo, sobretudo que ninguém se espante com essa ideia que me aflorou o espírito, sim, de querer que o meu Chão de Papel fosse integrado na literatura colonial portuguesa ou, mais radicalmente ainda, na literatura guineense.

Voltando atrás da confusão, dizia eu que dada literatura assenta numa língua, tal como a nacionalidade, e a jovem nação ainda não decidiu em que língua vai escrever. Entendendo, enfim, com Fernando Pessoa, que «minha pátria é a língua portuguesa», e que neste entendimento teria até o consenso dos escritores guineenses, parece urgente, para eles, consolidarem um espaço de ação escrita em que, por exemplo, o uso do crioulo já não tenha propósitos de provocar o poder europeu, agora afastado, e o uso do português não se transforme em aparelho castrador da criação literária.

mapa guiné-bissau

Eu vivi na Guiné-Bissau quando ela era a colónia portuguesa da África ocidental identificada como Guiné Portuguesa. Vivi ali durante os anos mais importantes para a nossa formação emocional, dos 8 aos 18 anos. Cheguei a Bissau ainda criança e regressei na idade de frequentar a universidade. O meu pai era funcionário público, trabalhou na secretaria dos estudos liceais, quando, incipientes, ainda as aulas se davam no Museu. Depois passou para o Liceu Honório Barreto, logo que este abriu as portas, e ainda passou pela secretaria da Escola Técnica, mais tardia ainda. Estreei o Liceu ex-Honório Barreto, entrei no primeiro ano em que começou a funcionar. Quando? Aí por volta de 1957-58. Não fiz quarta classe; depois da terceira, na Escola Primária encostada ao paternal mangueiro da Praça, passei diretamente para o Honório Barreto, e lá fiz um ano designado como de «admissão ao liceu». Meus professores mais importantes, porque residentes, e não passageiros como os militares, foram a D. Anita Ribeiro e Silva (Português), a D. Clara Schwarz da Silva (Francês), o Dr. Firmino (Inglês) e o Dr. Brandão (Filosofia e Organização Política). Lembro-me de outros mas os nomes perderam-se nos atalhos da memória.

Como refiro em Chão de Papel, uma das interdições a que estávamos sujeitos era a de falar crioulo nas aulas. Hoje, as aulas continuam a ser dadas em português, mas a língua oficial só é falada por 10% da população. A língua mais falada, pelo menos nas cidades, é o crioulo, que chega a atingir 90%, e, acrescentadas a estas, há as línguas étnicas. Espanta saber que nas campanhas eleitorais os líderes, no interior, se fazem acompanhar de tradutor, que os deputados, no Parlamento, falam crioulo, e que é igualmente em crioulo que se publicam documentos de caráter oficial. O estado de coisas manifesta hesitação política em optar por uma língua.

As feridas não acabam aqui, na questão da língua em que se escreve a literatura bissau-guineense, e não resisto a meter a foice em seara que não me é assim tão alheia: é verdade, como regista Moema Parente Augel, que a taxa altíssima de insucesso escolar, no meu tempo do Liceu hoje chamado Kwame N’Krumah, se devia ao facto de a maior parte dos meus colegas só falar a sua língua étnica ou, na melhor das hipóteses, além dessa também falar crioulo. A perceção dessa dificuldade criou-me no espírito a ideia de que a língua oficial da Guiné-Bissau devia ser o crioulo. É na nossa língua materna que sabemos escrever, que nos desembaraçamos melhor, não em línguas estranhas. A poesia, então, nem sequer a consigo distinguir da língua materna, de tal modo que as traduções em geral me deixam tão indiferente como os poemas escritos em línguas que não conheço. Porém fica a desvantagem que todos conhecem em se adotar uma língua de fraca expansão, abandonando outra, como o português, em que o escritor africano pode projetar-se mais facilmente no mundo.

Só um pormenor, antes de correr a cortina: a ortografia não tem importância por aí além, basta pensar que existe a oratura, a literatura oral, das várias etnias, sem expressão escrita. A literatura precisa de língua para se manifestar, mas não precisa de escrita. Em todos os países se começou pela literatura oral, e, no nosso, em Portugal, as mais importantes ferramentas de fixação das ortografias, os dicionários, só aparecem no século XVIII, com o Vocabulário de Rafael Bluteau. Então a ortografia não tem grande importância quando se trata de firmar ou não firmar um acordo ortográfico, por exemplo. Mas tem importância capital quando se trata de fixar a grafia das palavras de uma língua escrita nascente. É preciso a política tomar uma decisão drástica, sim, compete aos políticos a unificação linguística. Não vamos ficar com o conceito de crioulo manifesto nos dicionários em mil e uma formas: criol, kriol, kiriol, criôl, e por aí adiante. De outra parte, há grafias mais etimológicas, como creolo, e mais fonéticas, como kriol. A diferença, em termos de inteligibilidade para falantes do português, é colossal: o “kriol skuru” parece código de agentes secretos, é dificilmente inteligível, embora seja desafiante o exercício de o decifrar. Ora o que vela as palavras, para além do vocabulário desconhecido, é a deliberada opção por uma grafia fonética. A origem etimológica, sob véus de “kk”, “uu” e elisão de vogais, fica obscurecida. Bastava a grafia seguir a do português para o «kriol sukuru» deixar de ser crioulo escuro e ficar assim mais iluminado, mas parece que a vontade foi precisamente a de obscurecer, quer para uso do crioulo como código secreto durante a guerra, quer como provocação à língua do poder dominante. No caso da poesia, o exegeta tem assim a exasperante e ao mesmo tempo amorosa tarefa de tentear as palavras como alimentos, a ver se pelo sabor vai descobrindo quais são.

 

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