12 cadáveres. É tudo o que sobra daquele brutal e estúpido acidente – mais estúpido do que brutal – em vésperas da páscoa de calendário da igreja católica romana, sem dúvida, uma das suas causas próximas. Nunca choraremos bastante esta tragédia multiplicada por 12 que afecta várias aldeias católicas do norte de Portugal. Não me digam que é o destino. Muito menos, a vontade de Deus. E se quiserem dizer, acrescentem de imediato que é a vontade do Deus do cristianismo e o destino dos cristãos que insistem em confiar nele e na sua boneca de Fátima, em lugar de cuidarem deles próprios, uns dos outros e do planeta. Desde que impunemente se ensina, logo em criança, que a morte é castigo de Deus, o da Bíblia judeo-cristã-Alcorão, abre-se caminho a falarmos em destino e vontade de Deus, para nos desculparmos dos próprios erros, resultantes do clamoroso défice de responsabilidade e de dignidade que nos faz aceitar viver por toda a vida resignados e sem um pingo de raiva e de cólera políticas em condições degradadas e degradantes, que fazem chorar de sangue e de vergonha as próprias pedras da calçada. A carrinha acidentada transportava 13 pessoas emigrantes na Suíça, rumo a várias aldeias de Portugal, onde pretendiam receber-beijar a cruz, anacrónico instrumento de tortura do império romano-cristão, com as suas famílias. Por uma estrada de França, sai da sua faixa de rodagem e vai chocar de frente com um camião. O facto tem tudo de suicídio colectivo. Dói ter de o escrever, mas só a verdade nos faz crescer de dentro para fora em humano, por isso, em dignidade-responsabilidade. E dignidade é o que mais falta nesta deslocação a Portugal. As 13 pessoas demitiram-se da sua condição de seres humanos. Nenhuma tem o bom senso de recusar viajar em condições tão indignas. O que mais pesa em todas elas na hora de decidir, é o baixo custo em euro da viagem de vinda e de volta. Para cúmulo, sob a condução de um jovem de apenas 19 anos. Na raiz de semelhante decisão – tem de se dizer – está a fé religiosa e cristã que estupidamente valoriza mais a humilhação e o sofrimento humanos e o dinheiro, do que a dignidade e bem-estar dos que se dizem seus crentes. Para cúmulo, ainda aparecem, na hora dos funerais, uns clérigos sacerdotes com a cruz do seu Cristo a presidir, o que perfaz o cúmulo da ignomínia. Vomitemos de raiva e de cólera. E dispensemos duma vez por todas estes abutres clericais e os seus símbolos de tortura. É mais do que hora!
1 Abril 2016

