CARTA DO RIO- 97 por Rachel Gutiérrez

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Acredito que a maioria dos leitores de Marcel Proust admite ter vivenciado experiências “proustianas”, aquelas invasões da memória afetiva tão bem descritas pelo genial escritor, o flash fugaz de um misterioso “tempo reencontrado”, lembrança súbita capaz de reconstruir momentos preciosos de nossa história pessoal e única.

Defino uma dessas experiências como “a minha madeleine.” Pois acontece que cada vez que abro o papel de alumínio de um bombom, sinto a necessidade de esticá-lo com a ponta dos dedos, ou com as unhas, até que fique liso por igual e, por algum tempo procuro não rasgá-lo nem dele me desfazer porque sou tomada por um prazer muito especial, extremamente agradável. E vou me permitir um delírio: é como se a asa de um anjo tivesse me abraçado. Parece loucura, eu sei. Preciso, portanto, explicar:

O papel de alumínio, que envolve os bombons, sempre me remete a um período muito feliz da minha infância, quando frequentávamos as sessões de cinema do Gran Cine América de Rivera, no Uruguai.  E ao pedido e  recomendação de Madame Dubreuil, a institutriz francesa de uma de nossas amigas, para entregarmos a ela, sem rasgá-los, todos os papéis de alumínio dos muito apreciados chocolatines Águila, que devorávamos durante nossas alegres matinês. Ela agradecia e os guardava cuidadosamente em sua bolsa  depois de muito tê-los esticado e alisado, e dizia que os mandaria para a França, então em guerra, para “a construção ou reparação dos aviões”! Madame Dubreuil era para nós simplesmente “a Madame”.  Todas a respeitávamos, e talvez temêssemos um pouco a velha senhora estrangeira, severa, sempre de preto, que talvez nem fosse tão velha nem tão severa como nos parecia. Na verdade, nós nos sentíamos importantes ao entregar-lhe os papéis de alumínio dos chocolates porque ela não se cansava de explicar que era por uma causa nobre, que assim colaborávamos com os esforços de guerra de sua amada França.  Nunca soube como era feita a remessa de nossa valiosa contribuição, não lembro de ter tido a coragem de perguntar.   E até hoje, quando repito o gesto de alisar o papel de alumínio de alguma bala ou bombom, são as matinês de domingo, os chocolatines Águila e Madame Dubreuil, as amigas e todo o encantamento do tempo da infância que revivem, como o campanário, a cidade e os jardins e tudo o que tomou forma e solidez ao sair da xícara de chá de Marcel Proust no famoso episódio da madeleine.

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Naquela maravilhosa passagem do primeiro volume de Em busca do Tempo Perdido, o que desencadeia as lembranças é o gosto de uma madeleine (conhecida  bolachinha francesa feita com ovos e mel), que a tia – a Tante Léonie-  costumava mergulhar no chá para depois oferecê-la a Marcel ainda menino, cada vez que ele vinha cumprimentá-la antes da missa, aos domingos.  E tudo retorna quando ao chegar em casa, após longa caminhada numa fria noite de inverno, o narrador dos longos volumes da Recherche  aceita uma xícara de chá com bolachinhas, que sua mãe lhe oferece. Ele mergulha distraidamente uma madeleine no chá , leva-a à boca e ao sentir-lhe o gosto é tomado por forte emoção. Sentimentos e sensações o invadem e comovem sem que os compreenda imediatamente. Segue-se, então, um dos trechos mais poéticos e belos de toda a obra, merecidamente um dos mais citados e louvados. A certa altura é evocada a persistência das lembranças nos perfumes, nos odores e sabores…

quando de um passado antigo nada subsiste, após a morte dos seres, após a destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis porém mais vivazes, mais imateriais,  mais persistentes, mais fiéis, o cheiro e o sabor permanecem ainda muito tempo, como nas almas, a se lembrar, a aguardar, a esperar, sobre a ruína de todo o resto,  e a carregar sem esmorecer, numa gotinha quase impalpável, o edifício imenso da memória.

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E assim que reconheci o gosto do pedaço da madeleine molhada no chá que minha tia me dava, (embora eu não soubesse ainda e devesse deixar para muito mais tarde a descoberta de por quê essa lembrança me fazia tão feliz) em seguida a velha casa cinzenta que dava para a rua, onde ficava o seu quarto, veio como um cenário de teatro, compor o pequeno pavilhão sobre o jardim(…)

E ele compara essas aparições com as figuras que se formam aleatoriamente nas tigelas cheias de água com as quais os japoneses brincam jogando pedaços de papel que…  se transformam em flores, em casas, em personagens consistentes e reconhecíveis, (porque) assim agora todas as flores do nosso jardim e as do parque do Senhor Swann, e as ninféas do Vivonne, e as boas pessoas do vilarejo, e suas casinhas, e a igreja e todo Combray   e seus arredores, tudo o que tomou forma e solidez saiu, cidade e jardins, da minha xícara de chá.

E a propósito de madeleines tão poderosas, já vivi uma autêntica anedota, que contei a vários amigos e desejo repetir aqui.

 Numa de minhas visitas à França, fiz questão de conhecer Illiers, perto de Chartres, a pequena cidade onde o menino Proust passava as férias, e a casa da  Tante Léonie, hoje museu, que continua intacta.

O trem que se toma, em Chartres, viaja por bitolas estreitas, próprias de terrenos montanhosos e de difícil acesso.

E já na estação de Illiers, aguarda-nos uma primeira grande emoção, pois a Arte transfigurou a realidade: ao nome do vilarejo foi acrescentado, com um hífen, Combray, o nome literário que lhe deu Marcel Proust, seu mais ilustre frequentador.

Em 8 de abril de 1971, centenário do nascimento do escritor, Illiers foi rebatizada como Illiers-Combray, uma das raras comunas francesas a ter adotado um nome retirado da literatura.

Illiers-Combray é um dos mais antigos vilarejos medievais do distrito de Chartres e seus senhores feudais remontam ao tempo de Joana D’Arc. É dominado pela Igreja Saint- Jacques, que elevando ao céu, acima da praça, seu campanário contemplou São Luis e parece vê-lo ainda.  E o lugar  preferido do jovem Marcel era um pequeno parque, ou prado, o Pré Catelan, onde ele passava longas horas solitárias, lendo George Sand, Victor Hugo, Dickens, Balzac e George Eliot, horas silenciosas, sonoras, perfumadas e límpidas, que  evocou com emoção em sua obra.

Pouquíssima coisa mudou na pequena cidade, que possui apenas duas boulangeries (padarias/confeitarias). O mais interessante é que ambas ostentam cartazes em suas entradas. Numa delas, lê-se algo mais ou menos assim: “Aqui se encontram as saborosas madeleines tão apreciadas pela Tante Léonie de Monsieur Proust”.

E na outra, lê-se: “Comprem aqui, as verdadeiras madeleines da Tante Léonie de Monsieur Proust.”!

Nem é preciso dizer que comprei algumas madeleines de cada confeitaria. Não fui capaz, porém, de perceber a diferença.

2 Comments

  1. O texto inebriou-me, quer pelo estilo-que já conhecia, vez que leio a autora há bom tempo-, quer pela coerência e exuberante narrativa, como se eu também a estivesse acompanhando em suas memórias. Como moro no Extremo Sul do Brasil, seria um pecado não conhecer Rivera, nosso limite geográfico. Não tive interesse em conhecer a França, embora me acrescentasse culturalmente, mas tive outras prioridades turísticas nas minhas viagens, não descartando uma possibilidade depois da impecável descrção. Quanto ao PROUST, a história em epígrafe me recordará dele, daqui há três dias.

    Parabéns!

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