O reaparecimento dos Jacksonianos – por Michael Pettis III

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de Maria Cardigos

 O reaparecimento dos Jacksonianos

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The re-emergence of the Jacksonians
Michael Pettis

(continuação)

Escândalo estratosférico

Mas se alguém tem que ser mais ultrajante diariamente do que o foi no dia anterior e a eleição está a meses de distância, é certo que em algum momento esse alguém vai-se tornar estratosfericamente escandaloso e necessariamente irá mesmo longe demais. Isto é, quando os apoiantes reais de Trump vão começar a superar a sua própria intoxicação, como eles, eventualmente, quase sempre o fazem, e é por isto que provavelmente será apenas uma questão de semanas antes de todo o fenómeno Trump começar a entrar em colapso. Ninguém pode com facilidade manter uma progressão geométrica quando se trata de se ser escandaloso.

Porque enquanto as pessoas imbecis da América se podem realmente reunir para ouvir os discursos de campanha de Trump, a fim de apreciar o espectáculo, é injusto descartar os apoiantes de Trump como se eles fossem todos iguais. Muitas pessoas que apoiam Donald Trump, e Dani é um caso óbvio, são pessoas boas, honestas, trabalhadoras, talvez não especialmente dotados de boa bagagem escolar, mas eles são muitas vezes a espinha dorsal das suas comunidades locais e do seu país .

E eles não são tão estúpidos como nós queremos acreditar. Será que a imigração os atinge? Sim, é verdade, e enquanto eu acredito que a imigração tem sido sempre uma das maiores e mais poderosas fontes de sucesso americano, e continuará a sê-lo durante décadas, se não mesmo séculos, também admito plenamente que só alguém que trata as relações económicas de forma puramente ideológica pode negar que existem custos de curto prazo. Mas Dani e milhões de americanos não arriscam estar a pagar estes custos, e é desnecessário e até mesmo estúpido apontar a ironia da própria origem imigrante de Dani, como se isso de forma conclusiva provasse alguma coisa, porque isto não tem nada a ver com o que se está a analisar. Quando Dani se preocupa com a imigração é porque ele está preocupado com a educação das suas filhas, e não porque ele se esqueceu de que a sua mãe é da República Dominicana. Os partidários de Trump sabem que alguns deles podem acabar por pagarem o custo de curto prazo para o que muitos deles nem sequer sabem qual é o benefício a longo prazo para os Estados Unidos, e eles sabem que não têm folga suficiente nos seus rendimentos e poupanças para estarem a pagar.

E o que acontece com a sua fúria para o que eles acreditam ser o comércio internacional injusto? Enquanto pode haver benefícios globais no comércio livre, e quase certamente que os há, não é tão incrivelmente difícil de reconhecer que o ambiente de comércio global é sistematicamente capturado por muitos países – e, sim, às vezes pelos EUA também – e estes comportam-se assim porque há ganhos a ser obtidos em detrimento de outros países. O regime de comércio global, sem dúvida, beneficiou determinados círculos eleitorais nos EUA, mas também criou custos significativos para os EUA e, mais importante ainda, resultou numa redistribuição de rendimento, e enquanto a todos aqueles que trabalham duramente, se milhões de ignorantes que apoiam Trump podem não ser capazes de lhes explicar os custos de forma franca e segura que irão ter, o que os banqueiros e outros vencedores da globalização e do livre comércio se recusam também a fazer, eles têm então razão de reclamar. O comércio é, sem dúvida, uma questão complexa, mas há uma situação real contra o actual sistema de livre comércio que deve ser abordada de uma forma que faça sentido para os apoiantes de Trump.

E, finalmente, os apoiantes de Trump estão enfurecidos pelo aumento inexorável da desigualdade de rendimento. A única resposta que lhes tem sido oferecida é que este aumento da desigualdade de rendimento é natural, provavelmente o resultado de tecnologia, e não pode de forma alguma ser invertida, de modo que poderíamos muito bem habituarmo-nos a viver com ela. Esta resposta é tão profundamente falsa que só pode ser seriamente proposta por alguém para quem a história americana é um mistério total. Tivemos períodos de aumento da desigualdade de rendimento antes, e estes sempre foram invertidos sempre que houve uma determinação política para o fazer. Dani, e os milhões como ele, têm todo o direito de estarem enfurecidos com as últimas três décadas de crescente desigualdade de rendimento e se eles descartam todos os gracejos anti-Trump como completamente irrelevantes até que se aborde a questão da desigualdade de rendimentos, eles estão muitos certos nesta sua posição .

Os apoiantes de Trump não podem articular isto muito bem, e podem muito facilmente permitir que a sua ansiedade sobre a imigração e sobre o comércio internacional se espalhe para os nativos e para o ódio aos estrangeiros, mas eles têm um dossier forte que os torna de facto parte de uma história venerável. Trump quase certamente não lhes vai resolver nenhum desses problemas – os precedentes históricos são bastante claros sobre esse ponto – mas não é estupidez que Trump os queira de toda a maneira impulsionar. É o reconhecimento de que porque todos os políticos pertencentes ao actual establishment político se têm claramente mostrado relutantes ou incapazes de resolver qualquer um destes problemas, então o jogo sobre alguém “ultrajante”, que eles identificam como fora do establishment político, é perfeitamente razoável, pois que não se apresenta nenhum inconveniente ao fazê-lo. A sua lógica é a lógica dos fundos especulativos, os hedge funds, com sucesso: quando não há nenhum custo se estiver errado, então deve-se jogar, não importa quão pequena possa ser a possibilidade de estar certo.

Os Jacksonians a crescerem novamente

A tendência jacksoniana na política americana tem existido ao longo da história norte-americana. A sua primeira bandeira trazia o lema “Não me pisem”, e todas as suas bandeiras subsequentes mantiveram essa mensagem de uma forma ou de outra desde então. A sua auto-confiança muitas vezes admirável, vem, no entanto, com outras qualidades.

Elas são muitas vezes ferozmente nativistas, ou seja, anti-imigrantes, e enquanto nós pensamos que eles estão sempre estupidamente a ignorarem a ironia da sua proveniência, na verdade, eles entendem que esta ironia é aqui irrelevante. Eles sabem que os imigrantes meios esfarrapados de há trinta anos ameaçavam corromper o ideal americano são hoje os nativistas que estão hoje determinados a proteger a pureza americana, mas a verdade é que muitas vezes eles têm muito pouca folga nas suas vidas do dia-a-dia assim como as suas famílias, para poderem enfrentar qualquer interrupção financeira. Talvez seja por isso que eles parecem tão impressionados com a ironia e é provavelmente apenas a arrogância da nossa parte que nos assegura que eles são demasiado estúpidos para o verem. Dani e eu temos falado muitas vezes sobre os seus antecedentes familiares, e ele sabe muito bem que a sua genealogia como americano é superficial, mas ele cresceu nas ruas de Nova York e está convencido de que ele esta tão cheio de sangue americano como qualquer um outro, e é claro que está .

Os jacksonianos podem mudar de pontos de vista de forma um pouco aleatória, digamos, ao caso. Nos tempos modernos, por exemplo, eles normalmente apoiam os direitos dos estados, embora durante o século XIX, ao longo de toda a campanha de Andrew Jackson, exigirem uma presidência que fosse muito mais forte. Mas também há consistências duras como as rochas. Os jacksonianos romantizam o homem comum, seja ele o colono que passa a fronteira, o agricultor em regime de auto-suficiência ou um trabalhador da Ford Motor Company nos anos de 1920, da mesma forma que Daniel falou sobre os seus sentimentos relativamente à polícia e aos bombeiros, cujos corpos se sentiu obrigado a resgatar depois da tragédia de 9/11. Eles sempre detestaram fortemente tudo o que se se assemelhasse a uma aristocracia hereditária e, em vez disso, admiram ou mesmo adoram, às vezes com uma loucura que muito nos surpreende, os novos ricos que são também uns deslocados porque esses homens fizeram-se à sua própria maneira. Trump convenceu-os, apesar da verdade, que ele é um desses homens self-made man, e enquanto eles acreditam nele perdoam-lhe as suas palhaçadas e a sua auto-importância.

Isso ocorre porque Trump se posicionou bem, mesmo que desonestamente, entre as pessoas que têm uma longa história de aversão aos monopólios e aos banqueiros das grandes cidades. Os jacksonianos sempre desprezaram Nova York e Washington (e agora Los Angeles também) como as vivendas e as sedes de tudo o que não está de acordo com a República. Eles valorizam o jogo leal e franco e a igualdade de condições como sendo os mais altos objectivos do governo, e opõem-se, por princípio, contra as acções do governo que tentam corrigir os erros sociais, favorecendo um qualquer grupo – e enquanto isso o ódio contra este tipo de práticas de apoios sociais promovidos pelo governo pode muito facilmente escorregar para o racismo, é injusto também ver nisto apenas um fenómeno racista, especialmente quando muitas famílias afro-americanas e latinas, conservadoras e religiosas mas muitas vezes silenciadas, espalhadas em cidades, nas pequenas-cidades e pelas propriedades agrícolas de todo o país partilham o mesmo sentimento. Na verdade, se qualquer pessoa fosse alguma vez capaz de ultrapassar e de uma forma credível os seus receios de que o nativismo automaticamente leva ao racismo, perdendo esse medo muitos desses negros e latinos ter-se-iam rapidamente juntado aos Jacksonianos.

Os jacksonianos incluem os iniciais elementos do Tea Party, os tea-partiers iniciais, e os Sons of Liberty, os filhos da liberdade, que apesar de sua glorificação subsequente incluíam arruaceiros e por vezes bandos de viciados que muitas vezes eram revolucionários menos por amor à liberdade do que pelo ódio aos ricos. Eles incluíram os Know-Nothings da década de 1850, nativistas que se levantaram em cólera para purificarem uma América que era susceptível de ser invadida por católicos irlandeses maltrapilhos, juntamente com o Locofocos da década de 1830, que se levantaram com fúria para proteger os trabalhadores das depredações monopolistas dos ricos. William Jennings Bryan fala-nos deles na sua cruzada contra o ouro, e ainda mais contra os banqueiros de Nova York que apoiaram o padrão-ouro. Os seus apoiantes eram conhecidos como os progressistas e o seu racismo e nativismo foi em grande parte romantizado fora da história, mas não são menos jacksonianos do que aqueles que se dizem apoiar Trump hoje, algo que o historiador de Harvard Niall Ferguson já assinalou.

A fúria Jacksonian contra as mudanças trazidas pela rápida industrialização e contra o monstruoso segundo banco dos Estados Unidos, em torno do qual o novo país viu surgir de repente indivíduos de riqueza outrora inimaginável, colocou Andrew Jackson na presidência, e é lamentável que as verdadeiras preocupações que muitos americanos tiveram na década de 1830 tenham sido minimizadas face ao racismo de Andrew Jackson e dos seus apoiantes – tanto contra os escravos negros como contra os americanos nativos – mas nós não melhoramos a nossa compreensão da história americana se permitirmos que o racismo seja ele toda a história da presidência de Jackson, mais ainda se nos esquecermos de que pessoas como Dani, que não é um racista, são uma muito grande parcela dos apoiantes do Trump e bem maior do que a que é composta pelos tolos racistas que nós gostamos de criticar e gozar.

Canalhas, porcos e podres

A força da tendência jacksoniana tem aumentado e tem diminuído, dependendo das condições que se vivem em cada momento na América. É durante os períodos de imigração, especialmente quando esta é muito forte, e durante os períodos em que a desigualdade de rendimento é particularmente profunda, que eles aparecem em força, tanto assim que, por vezes, abalam fortemente o establishment político até aos seus próprios ossos, e geralmente, nunca cedo demais. Mas com muito poucas excepções os jacksonianos quase sempre escolhem como seus líderes os piores e mais hipócritas dos patifes, patifes estes que quase sempre os traem logo que tenham já embolsado os milhões que eles obtiveram por terem andado a malhar na velha elite .

Quando nos trememos com a ideia de ver Trump como presidente, devemos lembrarmo-nos do fraco historial dos jacksonianos em colocar presidentes na Casa Branca (mesmo William Jennings Bryan com todo o seu brilhantismo oratório foi derrotado). Talvez o seu único triunfo tenha sido o próprio Andrew Jackson, mas o seu sucesso em nada sugere que Trump pode fazer o mesmo. Andrew Jackson, apesar de toda a sua bárbara traição para com os nativos americanos, não era um hipócrita nem um oportunista, e os seus sucessos, especialmente como um soldado, colocam-no numa categoria que está totalmente fora do alcance de Trump, tanto que querer comparar os dois é coisa que não tem nenhum sentido.

Mas apesar de terem tido quase sempre azar ou tolice quando elegem os seus dirigentes, os jacksonianos ainda conseguiram perturbar o establishment político de uma maneira que se tem mostrado quase que permanente, e isso eles estão a fazê-lo novamente. Por mais absurdo que Trump possa ser, ele canaliza os seus sans-culottes ao ódio contra as elites de uma forma que pode até realmente fortalecer as instituições democráticas.

Os partidários de Trump podem ser por isso mesmo a razão pela qual os EUA nunca desenvolveu uma aristocracia permanente de estilo europeu ou até a sua institucionalização do poder. E talvez não seja apenas uma pura coincidência o facto de que em todos os períodos em que houve uma redistribuição significativa à baixa da riqueza , esta redistribuição tenha sido precedida por um período em que os jacksonianos estiveram bem politicamente. Para o melhor ou para o pior, Trump não é excepcional na história americana e a boa notícia é que mesmo que ele nunca vá ganhar a presidência, ele torna claro que os futuros candidatos presidenciais não têm escolha, terão de enfrentar e resolver o problema da desigualdade de rendimentos e as ansiedades dos jacksonianos se querem manter as ambições de Trump fora da Presidência.

Mesmo que Trump não obtenha a nomeação republicana, o único efeito pode ser o de destruir o partido de Abraham Lincoln para sempre, e o candidato democrata, seja ele quem for, vai ganhar por uma deslocação massiva de votantes, um verdadeiro e histórico deslizamento de terras na história política americana. E para aqueles que precisam do bicho-papão de uma possível presidência Trump, a fim de manter essa deliciosa sensação de indignação justificada, tanto pior se Trump se tornar presidente? Isso não é o fim do mundo, muito longe disso. A primeira coisa que cada presidente americano aprende é o quão pouco ele é capaz de fazer, e o Presidente Trump estará no cargo por quatro anos, com um Congresso em que ambos os partidos o irão desprezar e ele não irá fazer coisa nenhuma, após o que irá sair da Presidência com os seus índices de popularidade entre os mais baixos já registado.

E sobre aquele muro, quantas vezes já ouvimos os nossos amigos liberais ameaçar que, se Trump se tornar presidente, eles vão desistir da sua cidadania americana e vão-se mudar para o Canadá? Que idiotas. Na circunstância extremamente improvável que Trump venha a tornar-se presidente, a primeira decisão que ele vai ter de tomar, porque não tem alternativa e, provavelmente será a última, que nunca será realizada, é construir o muro entre o México e os Estados Unidos que ele prometeu. Mas qualquer pessoa que tenha seguido a carreira empresarial de Trump sabe muito bem o que vai acontecer. Ele vai realmente construir o muro, mas inevitavelmente vai construí-lo no lado errado do país – talvez por incompetência ou talvez porque há muito mais dinheiro a ser ganho com uma parede mais longa. Esses idiotas liberais podem falar o que quiserem sobre a sua ida para o Canadá mas eles não serão capazes de lá chegar . Haverá a parede de Trump pelo meio a impedi-lo..

P. S. Habitualmente não escrevo sobre os acontecimentos políticos no meu blog, mas depois de uma discussão sobre Trump com um amigo inglês durante uma das minhas viagens de negócios, eu escrevi isso no avião e de regresso a casa, com uma vaga ideia de talvez o enviar para alguma publicação. No entanto, eu não queria gastar muito tempo com isto porque estou sobrecarregado com outros compromissos e por isso decidi coloca-lo no meu blog. Assim, escrevi o texto exactamente antes dos acontecimentos horríveis de terça-feira, na Bélgica, o que me fez lembrar que, enquanto eu descartamos as chances de Trump nunca vir a ser Presidente ou mesmo de durar por muito mais tempo como candidato, há uma mosca na sopa que vai dar-lhe mais algumas semanas de vida política. As organizações terroristas parecem saber que estamos num período de eleições nos EUA e na Europa, e que na medida em que eles podem afectar o processo eleitoral no Ocidente – e é claro que o podem fazer – farão o que puderem para assegurar que os partidos de extrema-direita tenham um bom desempenho. Os dois estão em um ciclo de auto-reforço. Os brutais acontecimentos de Bruxelas não só irão reforçar Donald Trump, Marine Le Pen, Vladimir Putin e uma série de outros, mas a sua maior força irá ser o aumento do número de recrutas internos para estas mesmas organizações terroristas. É um processo enlouquecedor.

 

Michael Pettis, The re-emergence of the Jacksonians. Texto disponível em:

http://blog.mpettis.com/2016/03/the-re-emergence-of-the-jacksonians/

e noutros sítios como por exemplo :

http://www.nakedcapitalism.com/2016/03/michael-pettis-trump-and-the-re-emergence-of-the-jacksonians.html

 

O reaparecimento dos Jacksonianos – por Michael Pettis II

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