Quando até a Opus Dei já fala em misericórdia, é caso para alarme. O papa Francisco fica reduzido a pó. Pretende ser o paladino da mudança da e na igreja, mas acaba um fantoche mais da e na igreja. Toda a gente repete frases suas, as mais sonantes, mas ninguém muda as suas práticas quotidianas. E sem mudança de práticas, não há conversão que se veja. Só mais do mesmo, enfeitado com conceitos que mal acabam de ser pronunciados, logo murcham e deixam o mundo cada vez pior. Não são as sonantes frases que mudam a igreja, menos ainda o mundo. Só as práticas correctas, maiêuticas – ortopraxia – são capazes de mudar o mundo e a igreja. Mas essas, quem as assume? Nem o papa Francisco, perito em sonantes frases e em vistosos gestos que têm o condão de deixar o mundo e a igreja ainda mais às escuras. Como os relâmpagos no meio duma noite de borrasca.
Até a Opus Dei já fala em misericórdia! O encontro-faladura foi, por estes dias, no Porto, mais concretamente, em Enxomil. Destinado a padres diocesanos do país. Pelos vistos, muito poucos se congregaram. O comunicado enviado à Agência Ecclesia, para que conste, fala em “uma centena” com aspas. A sugerir que dizer centena é favor. Terão sido menos. Ainda que o menos importante, em coisas de fecundidade, sejam os números, a quantidade. Jesus insiste sempre nos dois ou três reunidos em seu nome, para mudarem o mundo. Em coisas de fecundidade vale mais a qualidade. Um pouco de fermento leveda a massa e ela fica pão. Porém, o fermento Opus Dei é como o dos fariseus no tempo histórico de Jesus. Os seus membros são os fariseus deste nosso tempo. O tempo de Jesus Século XXI. O fermento deles pode fazer da massa, pão, mas pão envenenado que envenena quem o come. Como acontece nas missas de domingo e suas hóstias de farinha de trigo com glúten. São tão ritualizadas e tão vazias da Ruah-Sopro maiêutico de Jesus; são tão ritos e rotinas, que, em lugar de alimentar, envenenam quantas, quantos insistem em frequentá-las. Sem se aperceberem que cometem pecado grave, pois aquilo tem tudo de um suicídio colectivo, até que a morte chega e encontra estas pessoas ainda no Infantil, sem nunca terem chegado ao estado de maioridade. Teriam deixado de frequentar tais lugares e ambientes.
“A Misericórdia de Deus e a conversão do homem”, foi o slogan publicitário da iniciativa. O próprio enunciado não engana. A conversão das mulheres não interessa. Nem a dos homens de carne e osso. Apenas “o homem”, como mero conceito sem nenhum contexto social, económico-financeiro, político. As mulheres nem chegam a ser referidas no slogan. Nem sequer como conceito, “a mulher”. Só mesmo “o homem”. E neste caso, nem o homem-homem, uma vez que o encontro era destinado a clérigos diocesanos do país. Clérigos não são homens, seres humanos. São segregados dos seres humanos. Funcionários do Religioso, dos santuários, dos altares, do Deus-Poder. Abortos e mais abortos. Incapazes de afectos. De os dar e de os receber. Que os afectos são um perigo para os da Opus Dei. Disciplina e objectos de autotortura, sim, são bem-vindos na “Obra de Deus”. Escribá de Balaguer dixit. E não é ele o Cristo da Opus Dei? Um Cristo monárquico. Absoluto. Santo canonizado. Um dos patronos do grande Capital, no prosseguimento do Cristo davídico, a negação de Jesus Nazaré, o filho de Maria.
O encontro contou também com a presença-participação da postuladora da Causa de Canonização dos Pastorinhos de Fátima, irmã Ângela Coelho, com uma intervenção dedicada ao tema ‘A Conversão: recorrer a Maria, Mãe de ternura e misericórdia’, que apareceu neste “mundo conturbado do século XX e XXI”. A este respeito, a religiosa da Aliança de Santa Maria descreveu a “profunda vivência” dos pastorinhos no seu encontro com Nossa Senhora e como foram “protagonistas e arautos” da Mensagem de Fátima e da devoção ao Coração Imaculado de Maria. Como se vê, um rol de disparates que nem a própria sabe o que esteve a dizer. Um chorrilho de mentiras, de frases feitas e batidas, sem um pingo de honestidade intelectual. Como é timbre do dizer-escrever dos intelectuais cristãos, nomeadamente, clérigos e freiras ou religiosas.
A juntar a toda esta baixeza moral e indigna de seres humanos, o encontro teve ainda, para ajudar à festa-faz-de-conta, a presença activa do Bispo de Lamego, um missionário Boa Nova que desistiu da missão “ad gentes” e agarrou com ambas as mãos a mitra, o báculo e o anel de bispo residencial e, com isso, suicidou-se, como filho de mulher. Supostamente, é tido como um perito em Bíblia judeo-cristã. E será, mas numa abordagem que desiste da consciência crítica e envereda por um poético esvaziado de Poema. O comunicado da Obra resume assim a sua intervenção: “D. António Couto, disse que a Misericórdia é o modo de Deus se revelar e o cristão é “chamado a imitá-lo”. Convenhamos que para “uma centena” de padres diocesanos do país, dizer isto e nada é a mesma coisa. Melhor fora que tivesse estado calado o tempo todo que lhe deram para dissertar sobre a misericórdia que, como bispo, só conhece como conceito, não como prática, uma vez que tem de reger-se nos seus ofícios de bispo residencial pelo CDC-Código de Direito Canónico, não pelo Evangelho de Jesus. Seria destituído na hora!
São assim os eventos promovidos pela Opus Dei. Inócuos, q.b. Porque servem apenas para esconder os perversos fins para que a Obra foi criada. Não fossem fins esdruxulamente pérfidos e o seu fundador não seria hoje santo de altar. Todos os seus crimes foram para bem do Vaticano S.A., por isso, poucos anos depois de morrer, foi canonizado por outro que tal, também já santo de altar, o papa João Paulo II. Ai se as vítimas da pedofilia falassem e o dinheiro sujo falasse. Não falam. Gritam. Não com ruído. Com o Silêncio. Ensurdecedor silêncio, que nem a canonização do seu fundador consegue calar. Quando é que perdemos a ingenuidade? Quando chegamos à maioridade e dispensamos todo o tipo de tutores, intermediários, os altares e os santuários? Não nos bastam as casas que habitamos e que havemos de partilhar uns com os outros? Acordemos!