CONTOS & CRÓNICAS – «Os Erros da Imprevisão» – por Henrique Neto

Publicado anteriormente no Jornal da Marinha Grande

 

contos2 (2)O Governo de António Costa pretende combater a crise que se instalou no sector da suinicultura reduzindo a metade a contribuição das empresas para a Taxa Social Única (TSU), isto é, usando o dinheiro que é dos trabalhadores para pagar uma decisão do Estado, para um problema cuja responsabilidade pertence ao Estado e à União Europeia.

Trata-se obviamente de um erro do Governo, mas que tem raízes mais profundas, de facto trata-se de uma sucessão de erros da chamada comunidade internacional, erro iniciado com a tentativa de trazer a Ucrânia para a esfera de influência do Ocidente, Estados Unidos e União Europeia, o que deu origem ao erro da intervenção da Rússia, a que se seguiu o erro das sanções económicas à Rússia decididas pela União Europeia e pelos Estados Unidos, erro esse que os suinicultores e outros sectores da economia portuguesa estão a pagar com a quebra das exportações de alimentos para a antiga União Soviética.

Este é um bom exemplo de como nas sociedades modernas as decisões estão interligadas, nacional e internacionalmente, com consequências muito superiores às inicialmente previstas, razão para a minha insistência de muitos anos sobre a necessidade de desenvolver nos governantes a capacidade de previsão das consequências futuras das suas decisões, ou das suas omissões. De facto, treinei esse desígnio através das minhas “Crónicas do Futuro”, há muitos anos publicadas no “Correio” a convite de José Vareda.

Por isso defendi que na Ucrânia deveria ser criada uma zona desmilitarizada, equidistante entre a Rússia, União Europeia e deixada de fora da Nato, uma espécie de Suíça, tampão dos interesses historicamente divergentes entre o Oriente e o Ocidente. Este erro dos Estado Unidos e da União Europeia não ficou, infelizmente, por aqui, somaram-lhe o erro da Invasão do Iraque, que previ e condenei antes de acontecer, num texto “Parar para Pensar”, a que se seguiu o erro da chamada Primavera Árabe, com consequências trágicas na Tunísia, no Egipto, na Líbia, na  Síria e na Turquia. Erro que a União Europeia está agora a sofrer através de uma nova crise dos refugiados, erro que também recentemente aqui denunciei neste jornal.

O antídoto destes erros também existe, passa pela capacidade dos governos desenvolverem uma estratégia que preveja os acontecimentos futuros, para deles tirarem vantagens, como acontece na Irlanda, cuja economia cresceu no último trimestre cerca de 9%, mais do que a economia chinesa, o que previ como possível há quase vinte anos na moção “Portugal Primeiro”, apresentada ao Congresso do PS da Expo, no tempo de António Guterres.

Por força da sua posição geográfica, Portugal tem melhores condições do que a Irlanda para vencer a crise e desenvolver a sua economia, basta que aprenda a perscrutar o futuro e a não cometer erros, como este da TSU.

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