Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
(continuação)
E a Argélia em tudo isto ?
A corrupção é um fenómeno que tomou uma grande amplitude desde há cerca de trinta anos. De uma corrupção artesanal ela é relativamente praticada em todos os países, mesmo nos que se autoproclamam puros e duros. Topaze com dor diz “ eu já não sou um honesto homem” e di-lo, com um tom trágico, ao seu amigo Tamisa! – e ao dizê-lo prevenia-nos : a probidade não é deste mundo. Kissinger, por seu lado, afirmava que “todo o homem tem o seu preço”
Contudo, assistimos a um fenómeno novo, a passagem a uma sociedade onde não se vende nada mas onde tudo se compra. Uma gangrena que está a tomar conta do corpo social argelino. A Argélia não é poupada, há nomes que figuram sobre as listas “do Panamá papers”. Se tínhamos algumas dúvidas, edifiquemo-nos.
Para Djilali Hadjadj, o presidente da Associação argelina de luta contra a corrupção: “É a natureza, a situação geográfica e a história do Panamá que fez deste último um dos principais paraísos fiscais do mundo. Os novos líderes do Panamá têm-se comprometido em reduzir de maneira substancial as actividades offshore do seu país, nomeadamente junto do Grupo de acção financeira (Gafi).
De resto, a propósito do Panamá como paraíso fiscal, são numerosas as comissões no âmbito de negócios de corrupção internacional onde é implicada a Argélia que estão domiciliadas no Panamá onde fazem “escala” o tempo suficiente para apagar a sua rastreabilidade. (…) Mas se a justiça argelina quisesse, poderia obter do seu homólogo panamiano a identidade dos titulares destas contas. (…) Há uma técnica frequentemente utilizada pelos autores destas fugas de capitais – ou pelo menos pelos gestores das suas fortunas -, é fazer transitar este dinheiro nos vários paraísos fiscais sucessivos, encerrando ao mesmo tempo as contas precedentes: a técnica dita “ salto ao eixo” para impedir qualquer rastreabilidade e qualquer descoberta pelas autoridades do país de origem dos beneficiários destas contas. A caixa de Pandora está apenas entreaberta e será muito difícil de a fecharem novamente. É esperado dos poderes públicos e da justiça que saiam do seu silêncio em face destes sucessivos escândalos (7).”
Corrupção e plágio: gangrena da Universidade argelina
Se há uma área em que a corrupção é devastadora e que pode ser considerada como uma praga mais perigosa do que a do dinheiro, é o da educação. Vemos nas universidades catálogos à Prévert com todos os “truques” possíveis para evoluir não pelo mérito mas toda uma série de processos questionáveis É verdade que a corrupção existe em todos os lugares e em todas as áreas. A diferença é que nos países desenvolvidos, existem regras e normas a não ultrapassar sob pena de instauração de um processo. É verdade que o plágio é uma forma grave de corrupção até porque emana de uma instituição que deve servir de referência e de norma norma para o país. Falar de corrupção no mundo académico pode parecer, à primeira vista, não muito interessante pela simples razão de que, quando falamos sobre a corrupção, a ideia vai em linha recta para as enormes somas que alguns grandes responsáveis desviam todos os dias e com todos os golpes que forem necessários .
Ora, no mundo da educação, a corrupção é como uma enorme armadilha que causa enormes estragos. Nos países desenvolvidos, em princípio, as penas aplicadas são severas e o transgressor é geralmente apanhado pelo seu passado fraudulento. A mediocridade e o plágio reflectidos nas teses produzidas triunfam sobre a qualidade. Não! Não podemos deixar que a gangrena se propague! Cada um ao seu nível deve ser responsável pelas suas acções e deve indignar-se com estas derivas. Só existe a Carta Universitária que é um avanço ético real que poderia parar a hemorragia. .
Mais amplamente, esta divulgação dos Panamá Papers para além do não-dito é uma manobra – mais uma diríamos nós mesmos para desestabilizar os países vulneráveis. Ela peca pelo seu enviesamento e, de alguma forma, não nos diz nada. No máximo, somos confortados que os slogans da luta contra os paraísos fiscais, particularmente proclamados pelos diferentes G7 e que não são senão poeira para os olhos. Sarkozy proclamou que em 2009 não haveria mais paraísos fiscais.
Os cidadãos do mundo deixaram de ser ingénuos . O desencantamento de que Max Weber falou tão bem sobre a secularização do mundo, agora afecta o dia a dia de todos nós. À sua maneira, Topaze, o personagem central no jogo de Pagnol, fala-nos com amargura sobre a sua longa luta consigo mesmo, ele que era honesto até à ponta das suas unhas que eram compridas para se juntar à arena sangrenta do compadrio global e onde os valores antigos deixaram de ser aplicados. Mais filosoficamente falando, a pequena corrupção é aceitável, na medida em que permite ao seu autor sobreviver. O que é repreensível são aqueles que sempre querem mais e mais enquanto as suas necessidades básicas são triviais e acima de tudo, que se esquecem de que no dia J não poderão levar nada com eles . Um provérbio árabe incita-nos à sabedoria, quando nos lembra que “a mortalha não tem bolsos. “
Recordemo-nos das palavras atribuídas Alexandre o Grande que conquistou o mundo e que foi vencido por uma bactéria: Alexandre pediu “que o [seu] caixão fosse transportado aos ombros pelos melhores médicos da época, que os tesouros [que tinha ] adquirido (dinheiro, ouro, pedras preciosas…) fossem espalhados ao longo do caminho até ao [seu] túmulo, e que as [suas] mãos permanecessem ao ar livre, soltas, fora do caixão, à vista de todos”, para que “os médicos compreendam que face à morte, eles não têm o poder de curar, que todos possam ver que os bens materiais aqui adquiridos, permanecem aqui em baixo e que as pessoas possam ver que de mãos vazias chegamos a neste mundo e de mãos vazias deixamos este mundo, quando se esgota para nós o tesouro mais precioso de todos: o tempo”. Possam estas palavras ser ouvidas !
6.https://www.youtube.com/watch?v=morvwo25dhg
Chems Eddine CHITOUR , LA CORRUPTION PLANÉTAIRE, Un non-événement. Testo disponível em: http://www.lexpressiondz.com/chroniques/analyses_du_professeur_chitour/239100-un-non-evenement.html
A corrupção planetária : um não-acontecimento – por Chems Eddine CHITOUR I

