
O mito do rei ARTHUR e os CAVALEIROS DA TÁVOLA REDONDA sempre nos remete a uma dimensão de sonho, onde o idealismo e as mais nobres aspirações imperam num mundo de honra, valores e corações puros. HILÁRIO FRANCO JÚNIOR escreveu que: “o que diferencia os homens dos demais seres vivos não é produzir, construir, guerrear, jogar ou viver em sociedade (atividades de várias espécies de animais), mas pensar e sonhar. Recordar e imaginar, isto é, ligar-se ao passado e ao futuro, dá um sentido ao presente, torna o homem –e nisso reside sua especificidade essencial- um ser histórico”. A imaginação, por sua vez, liga-se à UTOPIA, palavra criada por THOMAS MORUS, em 1516, para designar uma ilha imaginária (UTOPUS), que é a negação de um presente medíocre e sufocante, é o espaço futuro sem limites, sustentado pelo desejo de uma sociedade ideal, é um sonho apaziguador. As sociedades arcaicas, com seus mitos, festividades, ritos e crenças no constante contato com um mundo supra-humano, vivenciavam mais o passado e o futuro que as sociedades industriais. Daí sociedades como a do Ocidente medieval cristão terem revelado grande capacidade de utopizar com a acentuada presença de componentes míticos. Muitas utopias são baseadas em fatos reais, originários no passado, em situações sociais decorrentes da sociedade em questão e, em algumas delas, com personagens tirados da própria História. O rei Arthur existiu por volta de 530, d. C., mas a verdade histórica é difícil de determinar. O máximo que se pode dizer, com segurança, é que foi chefe de um clã britânico que capitaneou uma força militar ao longo da linhas fronteiriças romanas, participação decisiva para garantir a vitória em uma importante batalha em Mont Badon, nos primeiros anos do século VI.. A utopia da Távola Redonda serviu de fundamento para a formação de toda a sociedade cavaleiresca da Idade Média. No ciclo arthuriano, a Távola das aventuras será dotada, mais tarde, de um poder moral que ROBERT DE BORON mencionarem sua obra “Merlin”: os cavaleiros que nela tomam lugar vêm-se imediatamente unidos, desde a primeira refeição em comum, por tão grande afeição, que jamais desejarão separar-se. A partir daí, amam-se “como um filho deve amar ao pai”. No “Tristan de Béroul” lêm-se dois versos que, talvez, digam tudo sobre a Távola Redonda:
“Ja verroiz la Table Ronde
Qui tournoie comme lê monde”.
Traduzindo:
Vereis, agora, a Távola Redonda,
Que gira como o mundo.
Tal representação é confirmada por um comentário do séc. XIII: essa mesa significa a redondez do mundo e a circunstância e os elementos do firmamento. Interpretação evidentemente platônica, que não deve causar surpresa quando se conhece o prestígio da obra “Timeu”, de PLATÃO, no séc. XII, e a quantidade de comentários que esse diálogo suscitou. Nela, Platão afirma que o mundo é “esférico e circular”. Deus o fez segundo essa forma, sendo as distâncias em toda a parte iguais desde o centro até as extremidades. De todas as figuras, é a mais perfeita e a mais constante igual a si mesma (…) Quanto à alma, tendo-a colocado no centro do corpo mundo, estendeu-a através do corpo todo e mesmo além dele, e com ela envolveu o corpo. Firmou, assim, um véu circular, céu único, solitário, capaz, por sua virtude própria, de permanecer em si mesmo, sem necessitar de nada mais, porém, conhecendo-a e amando a si mesmo suficientemente. Pouco a pouco, a mesa-de-nenhuma-procedência foi considerada a Mesa perfeita, a Mesa à imagem do mundo e do céu perfeitos.Colocado no centro do corpo da Mesa, o vaso místico do Graal é como sua alma irradiante. Chegará a um tempo da “Demanda”, em que os aventureiros, os heróis da proeza, não mais terão lugar nela. Apenas serão admitidos à Mesa Mística os mais puros, os Perseval, os Galahad. A Mesa convoca ao seu redor a reunião fraternal e mística de uma elite vinda de todos os pontos do Universo. Essa “Mesa-que-gira”, mesa dos encantamentos, estaria em comunicação com uma mesa de outro mundo, de outro plano. Cabe à ela designar o herói, o único digno de sentar-se na cadeira proibida, e, mais tarde, proclamar o fim dos usurpadores, déspotas e encantadores da massa ignara. Ao conhecer a envolvente saga dos cavaleiros de Arthur, que travam batalhas mortais, enfrentam feras sobrenaturais e lutam para salvar sua dama inspiradora para tornar-se melhores e mais dignos, nos perguntamos às vezes, onde estariam esses bravos, que a lenda imortalizou, nos dias de hoje? Aqueles que se dizem “Cavaleiros”, hodiernamente, não titubeiam em renegar sua formação, quebrar –mesmo até- juramentos de fidelidades submeter-se a um estroina, se isso lhes resultar em vantagens. CAVALEIROS? Ora, pois! …sequer procuram entender a origem da palavra. A mentalidade cientificista e mecânica, que hoje impera, a falta de luzes (e sejamos francos e sem hipocrisia: o caráter mal formado, a covardia ou a subserviência), não deixa lugar para esse tipo de idealismos. Hoje, a realização pessoal é confundida com a satisfação das necessidades físicas e psíquicas, e, no mais das vezes, as pessoas não sabem por que nascem, por que vivem e por que morrem… E um importante aliado neste estudo e nesta vivência é a correta interpretação dos mitos, dada a sua profunda relação com o inconsciente humano e com o chamado “mundo dos arquétipos”, como definiu Platão. Dessa forma, entender os mitos torna-se uma importante ferramenta para entender a Psique humana, com todos os seus rebuscados processos. Por isso, o “ciclo arthuriano” nos revela muito mais que uma lenda, uma utopia: o que vemos é a relação do homem com as forças da Natureza, que ganha um caráter mágico na medida em que vai transformando-o, do desapego e da superação das limitações. Essa relação é o que chamamos de “mistérios”, pois colocavam o homem em contato com as causas de todas as coisas, com a Lógica do Universo, que permanecia naturalmente oculta para a maioria dos seres. Ocorre que essa atitude, embora tenha seu modelo original nas lendas , é uma postura interna, e, portanto, pode ser canalizada por todos nós. Mas como se mostra essa atitude nos personagens do mito arthuriano? O cavaleiro busca proteger sua dama acima de qualquer coisa, porque esta representa sua alma imortal, o seu ideal de pureza, que ele tenta alcançar fazendo-o digno e mais puro através da superação constante de sua natureza inferior, de seus medos, seus apegos e fraquezas. De igual sorte, a dama busca aproximar-se do ideal de beleza e de virtude, busca tornar-se uma encarnação de amor e de pureza, pois assim será inspiração para o seu cavaleiro, evocando nele o que ele possui de melhor. Assim, ambos reproduzem a Lei da Harmonia, por oposição do Universo. Os dragões que ele mata com a espada, são as sombras d sua própria personalidade, sua natureza inferior que somente pode ser vencida através da vontade e do sacrifício. A Távola Redonda influenciou na criação da Ordem dos Templários (que era um prolongamento da cavalaria) e tem muitas semelhanças com a Maçonaria : o apego à família, à lealdade, à franqueza, à procura da perfeição e o conceito de homem perfeito, à justiça, toda uma simbologia, à ritualística, à estratificação interna dos cargos. Hoje, mais do que nunca, precisamos resgatar esse espírito aventureiro e cavalheiresco, para dar um sentido mais nobre e mais digno à vida. Essa é a principal lição que podemos extrair dessa grandiosa saga, que relata a aventura espiritual daqueles que se atrevem a enfrentar os dragões escondidos na própria personalidade. Que possamos reaprender a sonhar com todo o coração, e que possamos acreditar que é possível sermos mais homens e mulheres, verdadeiras damas e cavalheiros!
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Carlos Reni Melo – Fundador e primeiro Venerável Mestre da A\ R\ L\ S\ CAVALEIROS DA TÁVOLA REDONDA
