EDITORIAL – O nosso europeísmo

Diário de Bordo - IILeonardo da Vinci nasceu num dia 15 de Abril de 1452. Passa hoje o 564º ano sobre o aparecimento de uma das maiores figuras da Humanidade. Seres humanos como Leonardo, redimem a nossa espécie e compensam-nos de que no seio da família humana tenham eclodido personalidades como Nero, como Hitler… Leonardo e mais alguns génios, reabilita a Europa.

Nada do que possamos dizer sobre a genial figura é excessivo. Diríamos que excessiva era a sua inteligência a sua capacidade de raciocínio, a sua maneira de viver o presente sonhando com o futuro. Considerado um exemplo ímpar do homem do Renascimento, pensamos que aceitar essa classificação seria considerar essa etapa da Humanidade como exemplar e como uma benigna encruzilhada do processo histórico em que escolhemos, entre a multiplicidade de hipóteses a senda mais correcta.

Seres humanos como Leonardo, Shakespeare ou Einstein, acordam o europeísmo que os crimes do colonialismo ou o desenvolvimento mercantilista que portugueses e castelhanos provocaram ao encarar as terras que iam achando como fontes de exploração intensiva, fazem esmorecer. A Europa, que se prolongou nas Américas, criando uma nova estirpe de «europeus», infelizmente herdando e agudizando características menos positivas e desenvolvendo a ganância e o anseio do lucro rápido, de genoveses e venezianos, a brutalidade céltica, o pragmatismo anglófono, a picardia latina, o sentimento de conquista e pilhagem dos ibéricos… Neruda cantou as independências de forma superior, mas esqueceu-se de acrescentar que o índio, o negro escravizado, a mulher, mantiveram sob novas bandeiras o sofrimento que a cultura europeia conciliava com prédicas católicas ou com a pseudo rectidão luterana. Os portugueses venceram os otomanos porque os canhões fabricados no Arsenal de Lisboa lhes permitia um alcance de tiro que, ao colocar-se fora do limite atingido pela artilharia turca, fazer tiro ao alvo e pôr em debandada uma armada muito superior em número; os conquistadores castelhanos, a golpes de espada e a tiros de mosquete, destruíram civilizações intelectualmente superiores; a codícia de piratas britânicos, possibilitou a edificação de um império grandioso; o método e disciplina de flamengos, deu corpo a um poder económico de grande magnitude… etc.

Não vemos motivos de orgulho no poder que os europeus obtiveram no alvor da Idade moderna. A União Europeia é um recipiente onde se acumula o lixo europeu. Camões, Cervantes, Shakespeare, Leonardo, redimem-nos. A Europa começa e acaba na esplendorosa inteligência de alguns dos seus filhos.

Por um europeísmo da cultura merece a pena argumentar. Só por esse.

1 Comment

  1. Acrescento, ao habitual bom senso do autor, à coerência, precisão dos detalhes e concisão das palavras, tudo aliado à neutralidade no tema abordado -mormente pela sua origem colonizadora-, que SHAKESPEARE, um dos redentores da memória europeia, estaria completando hoje, 16 de abril de 2016, quatrocentos anos.

    Em respeito às virtudes da matéria, acima consignadas, repassá-la-ei para os meus cerca de seiscentos contatos.

    Parabéns e bom domingo!

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