EDITORIAL: Shakespeare ou Tarrafal?

logo editorialDilema recorrente do coordenador escalado para escrever o editorial, é o da escolha do tema – há dias em que a abundância de notícias importantes é tal que o escriba fica aturdido, com dificuldade em escolher; outros há em que nada de verdadeiramente interessante ocorreu; há dias em que há notícias susceptíveis de servir de assunto, mas o cronista não  se sente motivado a trabalhar sobre elas. Nestes  dias recorre-se às efemérides. Hoje é um desses dias. Ao cabo de várias leituras da lista de acontecimentos ocorridos em 23 de Abril, o escrivão seleccionou dois  o nascimento de William Shakespeare, em 23 de Abril de 1564 e, em 1936, a abertura do campo de concentração do Tarrafal, na ilha de Santiago em Cabo Verde. Quando ia a optar por Shakespeare, o plumitivo foi assaltado por uma dúvida – o divino  dramaturgo nasceu em 23 de Abril segundo que calendário – o gregoriano ou o juliano. Até 1582 vigorou em Inglaterra o juliano. Portanto, em 1564, 23 de Abril correspondia ao dia…

Optámos pelo Tarrafal.

Em 18 de Janeiro de 1934, eclodiu na Marinha Grande um movimento insurreccional contra o regime do Estado Novo liderado por António de Oliveira Salazar e em 8 de Setembro de 1936 houve uma revolta de marinheiros, tripulações de parte dos navios de guerra da Armada (que, segundo alguns historiadores pretendiam pôr os navios ao lado dos republicanos que desde o Verão enfrentavam as hordas fascistas de Franco).

Ambos os movimentos foram jugulados pelo Exército e pela Guarda Nacional Republicana, fiéis ao Governo. Os sobreviventes foram julgados e condenados a pesadas penas de prisão. Com as prisões cheias, era necessário aumentar a capacidade de resposta da ditadura, e assim apareceu  a  Colónia Penal do Tarrafal, no lugar do Tarrafal situado na ilha de Santiago, no arquipélago de Cabo Verde, à época colónia portuguesa. No dia 18 de Outubro de 1936 partiram de Lisboa 152 presos –  participantes do 18 de Janeiro  na Marinha Grande e alguns dos marinheiros que tinham participado na rebelião de 8 de Setembro  de 1936. O   Campo de Concentração do Tarrafal começou a funcionar em 29 de Outubro de 1936, com a chegada da primeira leva de prisioneiros.

As condições desumanas, castigos torturas, provocaram cerca de quatro dezenas de mortos, número exíguo  e falseado, pois quando os médicos do Campo concluíam que a morte do prisioneiro era irreversível, libertavam-no, morrendo, pois de «morte natural» em sua casa, junto da família.

 

 

 

 

 

2 Comments

  1. Foi uma saída de mestre, Shakespeare, espero, você terá outras oportunidades ou pretextos uma vez que o velho bardo é inesgotável…
    abrço

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