INDIFERENÇA SOCIAL por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

As cidades teimaram, durante muito tempo, serem grandes espaços sem comunicação entre as pessoas.

Vieram os centros comerciais e ei-los cheios de pessoas anónimas que se passeiam com ar entediado para passar o tempo ou porque está frio e chove na rua.

As crianças vão arrastadas pelas mãos dos seus pais, sem conseguirem andar ao mesmo ritmo do adulto.

Crianças vão no seu carrinho com as faces muito rosadas pelo calor e pela falta de circulação de ar limpo para respirar.

É um espaço multicultural, todos têm acesso aos Centros Comerciais. É um espaço intercultural se observarmos as relações amorosas e de amizade com que se passeiam, conversam e comem sem discriminação das origens culturais.

Comem comida chinesa, japonesa, senegalesa, indiana, angolana, caboverdeana, portuguesa….

Vestem-se conforme as tendências da moda e os grupos sociais a que pertencem.

Mas em muitas outras pessoas vê-se não o brilho do olhar, mas o desconforto do anonimato, a falta da saudação bom dia,  falta a família que ficou na terra.

Grande parte dos habitantes das grandes cidades são fruto da migração em busca de melhor vida e de garantias de aceso aos seus direitos sociais, políticos, económicos.

As ruas, apesar do Sol português, são escuras para quem trabalha de dia e de noite, sem direito ao tempo para aceder ao que sonhou: uma vida melhor…

E assim se passaram anos até que, uma nova vaga de concepção de uma vida melhor, alterou os hábitos de muitas pessoas que migraram para o interior, para o Alentejo.

Nas pequenas cidades, nas vilas ou aldeias cada um sente-se pessoa, todos se cumprimentam. O senhor do café sabe o que cada um gosta de tomar, o senhor do quiosque já estava à sua espera para vender o jornal, na mercearia já lhe escolheram a fruta mais apreciada.

Chega-se a casa com a sensação de uma auto-estima que  proporciona o tal bem estar, a tal melhor vida.

…migraram para o interior, para o Alentejo.

Com a internet, está-se ao corrente do que se passa no mundo.

Não há oposição entre cidade e não cidade.

Quem não migra para outro local começa agora a sentir a necessidade de comunicar com o outro.

Para muitos é penoso entrar no elevador e não ser cumprimentado pelo outro, a cidade é demasiado grande e anónima, é doloroso saber a violência doméstica contra as mulheres, as crianças e os idosos que convive, se calhar, no seu prédio, mas…ninguém se cumprimenta…

Ninguém aguenta muito tempo a indiferença social.

Os bairros estão a devolver a comunicação entre as pessoas e são os pequenos cafés, os mercados, as mercearias, os restaurantes com comida tradicional portuguesa que estão a devolver espaço para a comunicação. Ao fim de algum tempo já muita gente se conhece, já muita gente sente a falta do outro.

A vida está demasiado privatizada, ninguém quer ter conhecimento do que corre mal nas relações interpessoais…

Estamos no tempo da estimulação do egoísmo, mas, a contratempo, pequenos grupos vão criando pequenos, muito pequenos espaços de contra poder, de alternativas à vida frenética do trabalho ou do desemprego.

As pessoas começam a sentir que têm uma função e um papel a desempenhar na sua própria vida e que esse papel começa no sentimento de pertença na comunidade onde vivem.

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