
(conclusão)
…
V- Do espírito de Abril e a propósito de um futuro Abril
Lembrar mesmo que loucamente um dia que já passou como um sonho numa noite de verão, como um fogacho de luz nas trevas que a Troika nos vai impondo, ou reencontrar um filho doente, trata-lo, recuperá-lo, voltar a restituir-lhe o sentido da vida e da sua história? Será o 25 de Abril apenas algo que tem de ser relembrado ao limite do possível ou antes deve ser visto como uma realidade profundamente abalada que tem, nervo a nervo, fragmento de vida após segmento de vida, que tem de ser recuperada, reconstituída?
Chegado aqui relembro uma situação com que me deparei em Faro, num quente dia de Agosto. Estávamos na praia do Farol. Por volta das 13 horas regressamos para apanhar o barco que nos traria de volta a Faro. No caminho da praia até ao barco atraso-me relativamente à passada dos meus familiares. Quando chego ao local de embarque deparo-me com um senhor muito bem vestido de calções bermudas de boa qualidade, visível à vista desarmada, um polo Mike Davies de fino padrão e com um ar bem distinto. Falava com uma ansiedade brutal como se alguém que tem de contar bem alto o que lhe vai na alma e num curto espaço de tempo. Um jovem, a minha mulher e a minha neta escutam-no. O homem que o escutava ria-se, a minha mulher e a minha neta estavam caladas. Cheguei, distanciei-me, exactamente por causa desse riso. Nada ouvi de pessoal. Depois aproximei-me quando se falava de Faro e da sua estada por aqui há cerca de 40 anos. Ainda meti conversa mas ao nível das banalidades. Teve dois filhos, já bem criados, um deles gestor numa multinacional em Madrid e o outro engenheiro a trabalhar na Inglaterra. Uma família fragmentada, dispersa, pelas aleatoriedades da globalização. Do primeiro filho teria ganho na semana passada o estatuto de avó e na próxima semana ia para Madrid.
Do que entretanto tinham falado, não sabia nada, não ouvi nada. Entrámos no barco. Aí ficámos afastados do homem do polo Mike Davies. A minha mulher contou-me muito comovida o que tinha antes ouvido. Uma história de pasmar. O senhor tinha sido funcionário de posto elevado na Administração Marítima de Faro de há quarenta anos. Depois saiu e vivia na reforma em Pero Pinheiro. Mais tarde, a mulher adoece gravemente, com Alzheimer do mais elevado grau. Anos de pesadelo assim vividos em que ele a acompanhou dia após dia, noite após noite. Uma mulher que vegetava, apenas isso, reduzida a um nível de infantilidade entrecortado por vezes por momentos de lucidez. E desses momentos de lucidez, falava da vez em que se amaram na praia do Farol , da noite em que à luz do luar e tendo com pano de fundo a música tocada pelas ondas do mar se amaram, se amaram loucamente. E na areia, fisicamente cansados mas emocionalmente maravilhados, dormiram a sono solto. Quarenta anos depois era ainda essa noite, era ainda a revelação brutal desse amor que lhe iluminava as trevas em que vivia. Talvez como a lembrança do 25 de Abril anima as nossas. E nesses momentos felizes pedia-lhe que quando pudesse e se pudesse que fosse visitar por ela, pelos dois, pelo que dai veio depois a desabrochar, pela força aí sentida que iria dar à vida, pelos dois mundos que depois deram ao mundo, a ilha do Farol. Dois anos depois da sua morte, 40 anos depois de aí ter estado, aí estava ele feliz por se revisitar a si-mesmo através da ilha do Farol, através da memória do amor daquela mulher, da paixão daquela noite, nesta ilha que agora já não reconhecia, em que agora já nada lhe era familiar, a não ser o Farol.
Aqui relembremos, porque é de 25 de Abril que falamos, o poeta de Abril cantado, Zeca Afonso:
Vejam bem
que não há só gaivotas em terra
quando um homem
quando um homem se põe a [amar]
Quem lá vem
dorme à noite ao relento na areia
dorme à noite ao relento no mar
dorme à noite ao relento no mar
Tal como ele relativamente à mulher, nós, da revolução poucos mais temos que a luz do farol que nesse dia emergiu na sociedade portuguesa a iluminar-nos as trevas em que vivemos a mando da Troika visível, efectiva porque presente pelo memorando do (Des) entendimento ou só subjacente, porque representada pelos seus vassalos como Cavaco Silva, Passos Coelho ou ainda muitos outros dos seus sequazes. Quase tudo o resto se esfumou nas contra-revoluções neoliberais havidas até agora. Estamos um pouco como este homem face ao 25 de Abril mas com uma diferença que nos dá o sentido da História, falamos de um povo na sua infinitude por comparação com vida de uma pessoa, necessariamente finita no seu tempo de vida. Este homem, na sua finitude alimenta-se da memória do que foi, nós, na infinitude da História, não só procuramos manter viva a memória do que se passou em 74, como devemos também procurar reconstituir para a vivência nos dias de hoje o que foi o significado daquele dia e das vitórias que se lhe seguiram, quase todas elas hoje desaparecidas a mando dos Draghi de agora. Se assim não fizermos, se não nos opusermos aos assassinos e vândalos que estão a destruir a Europa com os seus dogmas neoliberais, com as suas politicas de austeridade e cada vez mais austeridade, se ficarmos indiferentes aos desempregados e às desempregadas de ABRIL, transformaremos o 25 de Abril, se o não esquecermos até e ao contrário do nosso homem de bermudas de bom tecido, apenas numa miragem, num cadáver da história. Ao contrário do nosso homem de calções bermudas vestido, assim como o fazia a sua mulher extremamente doente e já falecida, que só pode lembrar intensamente o que tem como grande referência, a lembrança de um dia ou de uma noite que se passou na ilha do Farol e que lhe marcou a vida, a nós cabe-nos não apenas a lembrança intensa do que a sociedade portuguesa tem ainda como grande referência, como Farol, o dia 25 de Abril, mas sobretudo cabe-nos colectiva e intensamente trabalhar para que um outro 25 de Abril se inscreva rapidamente no tempo longo da História. Se isto não fizermos, neste caso, estaremos a trair o sentido da própria História e perder o respeito por todos aqueles que abnegadamente lutaram e sofreram pela sua realização.
Coimbra, 23 de Abril de 2016.
Júlio Marques Mota
________
