Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
A QUEDA DO IMPÉRIO EUROPEU: TERRORISMO, IMIGRAÇÃO, FRONTEIRAS
Elisabeth Lévy, Revista Causeur – publicação autoriza
* Agradecemos à autora Elisabeth Lévy e à Revista Causeur.
Refugiados BLOQUEADOS na fronteira entre a Hungria e a Sérvia (Setembro de 2015).
Sipa. número do relatório: 00723425_000001.
Desintegração, naufrágio, queda, impotência, abulia: quando queremos colocar a Europa num destes registos, hesitamos entre dois registos semânticos, o da catástrofe e o da patologia. Mesmo os melhores crentes não podem ignorar que a sua bela quimera de todos os povos da Europa (esperando por poder dizer todos os povos do mundo) a darem-se as mãos para avançar para um futuro brilhante liberto no futuro de guerras e dos “egoísmos nacionais” está ainda para nascer.
Vista socialmente a partir de baixo, a Europa evoca um tipo de oficial-ajudante que se mete em tudo, que impõe regras absurdas para nos alimentarmos, para nos vestirmos, e obriga a manter os braços caídos face ao perigo. E vista por cima é uma debandada em que cada um tenta salvar a sua mobília – os famosos “egoísmos nacionais”. No jornal Le Monde, Arnaud Leparmentier lamenta que “a pressão dos populistas” impeça os governos de ” tomarem medidas radicais para resolver a situação: mais Europa”. Sim, talvez no maravilhoso mundo dos correspondentes em Bruxelas, haja uma Europa activa, poderosa, de que gostaríamos que houvesse mais. Na vida real, desde há cinquenta anos, quanto mais Europa existe, menos política há. Confrontada com tensões internas e crescentes ameaças externas, a Europa parece indefesa, estratégica, política e moralmente. Em suma, quando esta é mais necessária na forma de uma união de Estados a trabalharem em conjunto para os seus interesses comuns, ela está conspicuamente ausente. E descobrimos com espanto que minou (ou, no caso removeu) o andar de baixo.
É significativo que tenha sido a crise migratória e não as tensões monetárias e financeiras a esfolar a pele da unidade europeia. Mais uma vez, as questões identitárias são mais existenciais do que as questões económicas. Dir-se-á que há uma ligação entre o mercado rei, o desemprego em massa e o islamismo radical. Talvez, mas eu posso viver com mais liberalismo mas não com mais islamismo. E eu estou pronta para lutar pela laicidade, não pelo ISF (nem contra, aliás).
Agora a primeira das questões identitárias é a da fronteira que permite não só definir o que somos, mas também defendê-lo. E seja o que for que pensam os que nada têm para ver (1) há pelo menos uma ligação entre a crise migratória e o terrorismo jihadista: é que ambos mostraram aos europeus que estes já não tinham fronteiras para os proteger. Formalmente, as ilusões pró-europeias foram destruídas na noite de 6 ou 7 de Março, quando Angela Merkel ofereceu um lanche ao primeiro-ministro turco Ahmet Davutoglu (2). Não é uma questão de romance de bastidores, mas de uma negociata sobre os refugiados, com os turcos a aceitarem, mediante pagamento, várias cortesias e uma púdica cegueira sobre a sua própria depravação, para efectuarem eles mesmos a escolha – não ousamos escrever…triagem daqueles que poderão passar pelas portas de acesso ao Eldorado.
Os comentadores não têm tido palavras suficientemente duras para denunciarem o acordo, e este não deixa nenhum espaço, é verdade, para a poesia humanitária. De resto, pouco ou nada têm notado relativamente aos fracos protestos governamentais quanto à substância do acordo, como se, nas chancelarias, todos considerassem que Angela Merkel fez já o trabalho sujo, portanto, sem que os outros tenham necessidade de sujar as suas próprias mãos. Depois de longos meses cheios de múltiplas e dispersas hesitações que em nada reduziram o fluxo de migrantes nem permitiram encontrar qualquer solução para o milhão e meio dos que já solicitaram asilo na UE, este acordo representa uma primeira tentativa de construir uma represa e diminuir o ritmo de chegadas. E é moralmente deplorável, seja dito, que com este os vassalos de Madame Merkel mal tenham protestado depois do “ golpe” da chanceler, excepto alguns clamores segundo “fonte anónima”.
Pode-se concluir que a Europa funciona mas que só funciona quando existe um patrão. Neste caso, ele tem um nome, chama-se império, e só funciona quando os interesses da metrópole e o das suas longínquas províncias convergem. Não é o caso em nenhum dos principais problemas do momento. Não há nenhuma razão para se pensar que depois da decadência (que no caso da “construção europeia”, começou logo após o seu nascimento) estamos já em vias de começar a viver a queda do império Europeu.
Enquanto alguns insistem em negar a existência de qualquer relação entre a crise migratória e o terrorismo é o imigrationismo que está no coração do sonho pró-europeu. Como o mostrou espantosamente Alain Finkielkraut, a Europa não existiria senão ao deixar de existir para receber, para acomodar. E como resistir à sedução das palavras “abertura”, “acolhimento”, “hospitalidade”? Devemos apressar-nos em salientar que a ligação entre os migrantes e os terroristas não é individual, mesmo que alguns futuros assassinos – que passariam de toda a maneira – se introduzam nos fluxos migratórios. O Jihadismo alimenta-se do salafismo que por seu lado se alimenta de um certo islamismo em ascensão na Europa, que se alimenta de uma imigração massiva e sentida que não conseguimos integrar, preferindo adoptar sub-repticiamente um multiculturalismo que consiste em não pedir nenhum esforço de adaptação aos “novos entrantes”. E vê-se mal como é que se poderia fazer melhor com um ritmo de chegadas que aumentou cerca de dez vezes com a guerra na Síria. “No Reino Unido, queixa-se copiosamente Leparmentier do Le Monde, os ataques de Bruxelas são recuperados pelos eurofóbicos de UKIP, que asseguram que ” as fronteiras abertas colocam as nossas vidas em perigo “. Os bastardos.
Certamente, não se deve, mesmo com isto, deixar de dar as boas-vindas, nem deixar de oferecer àqueles que nós acolhemos o “sonho europeu” – porque visto de outros lados, de outras paragens, a liberdade e a paz de que desfrutamos ainda é um sonho. Mas, como disse o investigador holandês Paul Scheffer (40-44 páginas), uma vez que damos muito (e não apenas o direito de ficar num campo de refugiados), nós só podemos dar aos poucos. É triste, mas é verdade. Em vez de andarem a querer dar lições de moral aos líderes da Europa Oriental, faríamos melhor em perguntar até que ponto podemos obrigar as nações ocidentais à “abertura” (sob todas as suas formas) sem ver as fracturas internas às sociedades a degradarem-se cada vez mais.
Há um ano ou dois, os bons espíritos, nunca nada avarentos no que diz respeito aos efeitos mediáticos, em cólera denunciavam a fortaleza Europa. Falamos de uma fortaleza, mas eles falavam de uma cidade aberta. Os regulamentos europeus proíbem, é assim que nos martelavam os ouvidos, toda e qualquer regulamentação dos fluxos migratórios. Alguns estados, como a Dinamarca, já se tinham libertado da obrigação de assegurar a qualquer residente uma “vida familiar normal”, sem estar a ser atacada pelas ira da imprensa. E Inglaterra, por sua vez, recebeu carta-branca.
Acima de tudo, os acordos de Schengen deveriam conseguir alcançar a liberdade de circulação na União, ao mesmo tempo que construiriam uma fronteira segura entre ela e o exterior. Claro, a segunda parte do programa foi abandonada e Schengen tornou-se sinónimo de espaço “aberto a todos os ventos” – especialmente aos maus ventos. A nossa sondagem mostra que, embora a esmagadora maioria dos franceses (e da redacção da revista Causeur …) não iria saltar a etapa da saída da União, uma pequena maioria votaria a favor da saída do espaço Schengen, ou seja, ao regresso das fronteiras nacionais.
Nesta paisagem sombria, há agora uma boa notícia, que é a de que, desde os atentados, todas as regras, de que nos diziam que estavam gravadas na pedra mármore como as regras orçamentais (o que significa que estavam pois dispostos a matar em suavidade) saltaram em estilhaços, desfeitas. . Vimos os funcionários aduaneiros nas estradas, vimos os controlos nos aeroportos. Ninharias, com certeza, mas talvez a mostrarem que os Estados devem assumir o controle das suas fronteiras. Em matéria de terrorismo, a boa e velha cooperação entre Estados soberanos, apesar de suas falhas, parece dar mais resultados do que as grandes negociatas em Bruxelas. Se a Europa é impotente, pelo menos que não impeça os outros de agir. As nações antigas talvez não tenham esquecido completamente do que é a história.
Elisabeth Lévy, Revista Causeur, Terrorisme, immigration, frontières. Texto disponível em : http://www.causeur.fr/europe-immigration-securite-brexit-37705.html#
1. Termo que tomo de Jean Birnbaum. ↩
2. De facto, estava presente o primeiro-ministro holandês mas possivelmente estaria como figura de decoração.




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