A queda da Europa – por Pierre Milloz

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

A queda da Europa

Pierre Milloz

*Agradecimentos ao autor Pierre Milloz e à publicação Metamag

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Alarico e Cristóvão Colombo

 

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La chute de l’Europe

Pierre Milloz, jurista e economista  ♦

A situação dos países europeus, incluindo a França, é mais facilmente compreendida quando é colocada numa perspectiva histórica.

Olhemos para a Europa com um forte recuo no tempo e retenhamos duas a três destas datas que simbolicamente marcam o movimento decisivo da história:

– 410 Alaric à cabeça dos visigodos capturou Roma e abre para um milénio a era da Idade Média;

– 1492, Colombo descobriu a América: é o início dos tempos modernos, primeiramente, com um período de séculos que viu os povos europeus, gradualmente, instalarem, como um eco do Império Romano, o seu controle sobre toda a planeta.

Este período que estamos a viver hoje é sem dúvida o fim do triunfo europeu: o grande evento assim como como a data simbólica que a vai marcar estão ainda para vir.

Colocada sob a tutela dos Estados Unidos, por agora profundamente debilitada por duas guerras mundiais que essencialmente se deram no seu território, a Europa já não desempenha um papel importante no mundo e algumas pessoas defendem que é em tentando reunir numa única entidade as diversas nações que a compõem que esta pode assumir uma influência digna de seu passado.

Mas muito mais grave do que esta retirada talvez provisória no cenário internacional, é um perigo grande e imediato que poderá em breve levar a Europa a uma queda fatal: uma submersão pela imigração do terceiro mundo vizinho da Europa, semelhante, mutatis mutandis, ao que precedeu e precipitou o colapso do Império romano – que, aliás, começa a acompanhar, também, os conflitos militares.

Mas a atitude da Europa face a esta ameaça aparece como semelhante ao suicídio. Inicialmente, e como a ameaça de migração estava apenas a começar a ganhar forma, a Europa apresentava-se como sofrendo de uma espécie de cegueira voluntária que a impediu de perceber os perigos que iria enfrentar. E depois, enquanto hoje a submersão se tornou, sem mesmo contar com o recente influxo de “refugiados”, uma realidade muitas vezes dolorosa, ela não lhe contrapõe senão uma resignação passiva, uma renúncia de si mesma que deixa o campo aberto para os enormes fluxos a entrarem. .

Após a Segunda Guerra Mundial, de facto, este problema praticamente nunca foi abordado com o cuidado que merecia.

No entanto, havia nas relações com o terceiro mundo um elemento muito importante a considerar: entre a África e a Europa em particular, um desequilíbrio demográfico que só poderia crescer com o tempo, como podemos verificar hoje. Essa desigualdade, que foi acompanhada também por uma acentuada desigualdade de desenvolvimento, era pesada em ameaças: era em si mesma um incentivo para emigrar para a Europa.

Enquanto era impossível poder reduzir rapidamente o desequilíbrio em questão, pelo menos poderíamos tentar mitigar a sua dimensão agindo sobre a demografia europeia na ideia de reduzir essas zonas de depressão demográfica que são como uma chamada à imigração em massa. A este respeito, é necessário saudar a política de nascimento inteligente e eficaz, que foi realizado na França sob a Quarta República, apesar de que as preocupações em grande parte transbordaram o tema que nos ocupa aqui. É lamentável que esta política tenha sido um pouco abandonada pela Quinta República, de 1959, sob a presidência do general De Gaulle, e nunca ter sido reconstruída no seu espírito e nos seus termos. Manter hoje no nosso território uma taxa de natalidade a permitir a renovação das gerações deve muito mais às populações imigrantes (resultado muito paradoxal) que à política diminuída e fragmentada de diversas maneiras sobre a “família”.

No entanto, inserindo-se no contexto do desequilíbrio aceite, novos acontecimentos poderiam chamar ainda mais a atenção no Terceiro Mundo. Sob a influência de ideias agitadas durante a Primeira Guerra Mundial, a natureza das relações entre as nações e os povos sob o domínio europeu foi profundamente alterada: estes últimos reclamavam com força a sua independência e a evolução das mentalidades exigiu que se deveria aceitar estas reivindicações. Além disso, pouco depois, a globalização passava a desenvolver-se e os dados da situação foram alterados. Assim, estados novos e vizinhos apareciam e, muito povoados, adquiriam a capacidade de liderar a política de migração da sua escolha num momento em que a globalização enfraqueceu as fronteiras e se multiplicaram as relações entre as nações. Mas esta evolução favorável à migração foi ainda mais estimulada pelo especial dinamismo demográfico reafirmado dos países da África Negra. Este dinamismo era tal que muitos economistas acreditam que tornava ilusório as suas perspectivas de desenvolvimento e que apenas um controle de natalidade permitiria o que eles consideram o progresso económico. Ou talvez este último resultaria ele também do fluxo de emigrantes?

Assim, poder-se-iam temer movimentos populacionais enormes capazes de levar a que os Estados europeus se preocupassem. Mas mais do que estes, são organizações como o Banco Mundial e a Agência dos Estados Unidos para o desenvolvimento que estavam a fazer pressão para uma política populacional restritiva (também por razões em que o problema migratório não era a maior das preocupações) . A principal razão para este apagamento relativo da Europa estava na ligação dos seus líderes a um pensamento político muito clássico, a uma visão herdada do século XIX e da primeira metade do século XX, segundo os quais a política externa e as preocupações de independência, segurança e de influência só tinham que ser consideradas quando relacionadas com as forças instaladas: é claro que foram sobretudo as duas principais, os Estados Unidos e a União Soviética, sobre os quais a Guerra fria atraia todos os olhares, todas as atenções.

Nesta perspectiva os povos do terceiro mundo tiveram apenas um papel marginal a desempenhar e estes não deviam deixar de agir senão num campo secundário: fora da Europa. A possibilidade de que eles possam no futuro próximo impor aos estados europeus grandes preocupações pela emigração não foi debatida. Além disso, o acesso à independência poderia ser considerada como benéfico: este acesso não só não iria perturbar significativamente o equilíbrio entre as grandes potências, mas também libertou os países europeus colonizadores de um fardo por vezes muito visto e sentido como embaraçoso e dava asas à sua diplomacia. Uma demissão neste domínio, juntamente com algumas compensações de prestígio e outras poderia, portanto, proporcionar uma satisfação imediata.

Infelizmente houve um caso mais complexo: o das “colónias” (caso de Angola e da Argélia em particular) onde estavam implantados numerosos nacionais da respectiva potência colonial e em que a oposição à reivindicação de independência provocou uma guerra civil e a intervenção dos exércitos português e francês. Por isso, não parecia, pelo menos no início, que este caso poderia ser tratado com o mesmo espírito de serenidade optimista que os outros. De facto, além da dificuldade constituída pelos portugueses e franceses presentes no local, decididos e numerosos, a violência armada e organizada de uma grande parte dos nativos desses países era de natureza a causar grandes preocupações: ela poderia de facto levar ao nascimento de novos poderes políticos, não só capazes de alimentar um fluxo de migração, mas também capazes de hostilidades.

Nesta ordem de ideias, precisamente, vale aqui lembrar que o que se chamou de guerra da Argélia não era nenhuma novidade em termos da história longa: desde a antiguidade e desde a luta entre Cartago e Roma, os povos do Norte e sul nas margens do Mediterrâneo ocidental opuseram-se periodicamente seja numa margem seja na outra alternadamente, em conflitos armados. Talvez o período contemporâneo venha adicionar confrontos ligados à migração: é sem dúvida o que Houari Boumedienne quereria expressar no seu discurso, tornado célebre, de 1974 na Organização da Nações Unidas.

Em última análise, é preferível não se estar limitado aos benefícios imediatos de uma abdicação. Mais vale avaliar as consequências a longo prazo e tentar salvar as vantagens de que se estava a dispor. Nem a França nem Portugal tiveram essa visão de longo prazo e ambos cederam à tentação do alívio a curto prazo.

A França, em particular, por não exigir na Argélia, enquanto a situação militar o permitia, a implementação dos acordos assinados em Evian e ao conceder uma capitulação incondicional, privou-se destas futuras fontes de influência e deste ponto de apoio que lhe poderia dar a presença local importante dos seus nacionais.

Um segundo aspecto do tema é também surpreendente

É a resignação das populações europeias face à maré migratória que ameaça submergir a Europa. Como é que isso aconteceu? A ideologia favorável aos imigrantes tem tido um papel importante, a sua eficácia foi decisiva porque, entre outras razões, esta apresenta-se protegida pelas mais altas virtudes morais. Os seus bajuladores, de facto, apropriaram-se de alguns dos valores fundamentais do cristianismo, (o altruísmo, o amor ao próximo, o amor, o universalismo …) adaptando-os aos seus desejos, tendo-os transposto nos domínios de César e disso fizeram um instrumento de combate político exercido em favor de uma recepção generosa e ilimitada dos imigrantes e, pelo menos implicitamente, enquanto se afirma como sendo suficientemente nobre para encarnar o Bem.

Este instrumento de combate encontrou outras fontes na filosofia dos Direitos do Homem, também ela adaptada às necessidades de propaganda imigracionista e ela também pronta a assumir-se como fonte do Bem político. Como tal, o foco é sobre a unicidade da espécie humana, uma ideia levada até à negação da existência de raças e de onde, portanto, podem ser tiradas várias disposições positivas: proibição de dar, em qualquer campo que seja, preferência aos nacionais; a criação de um crime de racismo; imperativo da não discriminação; imperativo da não-dominação, etc. O valor “igualdade” aparece como decorrente da ideia de unicidade da espécie e exige uma solidariedade com a humanidade em perigo.

Consequentemente, apenas apresentados com insistência e má-fé como particularmente expostos às misérias do mundo, sempre supostas vítimas da vontade de dominar dos europeus, forçadas a deixar as suas casas pela pobreza, exilados e privados de recursos, os imigrantes, todos os imigrantes, devem ser acolhidos como irmãos em humanidade, e nesta base devem ser ajudados sem qualquer reticência a viverem no país que escolheram, mesmo à custa, se necessário, dos autóctones . “O que é bom para a Alemanha (…) é mostrar a nossa humanidade”, disse Merkel …

Quanto a todos aqueles que se manifestam contra esta visão das coisas onde eles não vêem senão uma perigosa utopia, que protestam contra a “catástrofe” infligida às nações europeias pela imigração em massa, que argumentam que os preceitos evangélicos são destinados às relações entre os homens e não aos governo dos diferentes Estados, que recordam que o próprio Jesus marcou expressamente a diferença entre estes dois campos, que sentem que esta referência a Jesus ultrapassa a ideia contrária do Santo Padre, que argumentam que um Estado se comporta com calma e não sob a influência das emoções, todos estes adversários são denunciados como reaccionários ou até mesmo como hitlerianos ou acusados de egoisticamente faltarem ao dever de solidariedade para com os seus irmãos.

Esta ideologia, desde há mais de 45 anos, tem beneficiado do apoio decisivo do sistema de meios de comunicação, por unanimidade e insistente na forma de uma propaganda totalitária. Sublinhar-se-á que segundo o referido sistema mediático, imprensa escrita e, sobretudo, televisão, estão inteiramente na mão seja dos governos ou seja dos grandes interesses económicos nacionais e internacionais. Mas estes são, como sabemos, os defensores da globalização, da abolição das fronteiras e são favoráveis aos fluxos migratórios.

No entanto, todas estas considerações não são suficientes para explicar a cegueira e a renúncia resignada dos povos europeus face a esta instalação de submersão praticada por estrangeiros em face dos costumes e crenças radicalmente diferentes entre povos. Há um fenómeno excepcional que provavelmente não terá muitos outros precedentes a não ser o da instalação dos Bárbaros no Império Romano. Ora, em ambos os casos há um ponto comum que poderia ser fundamental: o declínio demográfico do império e da Europa de hoje. Sabe-se bem que o envelhecimento da população enfraquece o seu dinamismo, o seu espírito de luta, a sua capacidade de se projectar para o exterior e, inversamente, torna-a menos preocupada em afirmar-se na adversidade, mais inclinada a soluções meramente temporárias, mais inclinada a comprometer-se na esperança de ganhar em tranquilidade: a ideologia actual, feita de renúncia e vestida de nobreza não seria a doutrina de que o corpo social tem necessidade para justificar aos seus olhos a sua própria abdicação?

Será necessário, para isso, concluir que a causa é desesperada? As últimas posições tomadas sobre o assunto pela potência económica Europa, nomeadamente pela Alemanha, falando através da voz de Merkel incentivaria na verdade ao desencorajamento. No entanto, um novo evento acaba de ocorrer que é susceptível de inverter o rumo dos acontecimentos. O afluxo repentino e massivo de “refugiados” que se aglomeram nos últimos tempos junto às portas orientais da Europa está preparado para ser bem sucedido pela sua dimensão espectacular e pela sua concentração em poucas semanas, o que não tinham sido capazes de fazer as chegadas de imigrantes feitas ao longo do tempo, separadamente, e acumulando-se ao longo de décadas: uma reacção saudável e instintiva de defesa está a ser desenvolvida em toda a Europa. Disso são testemunho o encerramento de fronteiras em vários países, a atitude da Grã-Bretanha, o isolamento de Merkel pregando a hospitalidade ilimitada, as críticas de que ela é alvo na própria Alemanha, a hiperactividade ou pelo menos a presença constante dos políticos nos media, o questionamento de Schengen …Nunca se tinha visto nada assim desde há muitos e muitos anos .

Na verdade, esta chegada de “refugiados” é crucial: pondo em relevo realidades politicamente incorrectas, é susceptível de conseguir contrapor-se à influência deletéria dos meios de comunicação e a aumentar ainda mais a eficácia dos que já estão a trabalhar neste sentido. Assim, com uma opinião pública que começa agora a reencontrar a visão da realidade , uma política lúcida relativamente à imigração poderá enfim ser alcançada .

Pierre Milloz, Revista Metamag, La chute de l’Europe. Texto disponível em:

http://metamag.fr/2016/04/05/la-chute-de-leurope/

Alaric 1er, detalhe de uma fotogravura datando de 1894, segundo um retrato de Ludwig Thiersch.

Retrato presumido de Cristóvão Colombro atribuido a Ridolfo del Ghirlandaio

PIERRE MILLOZ EST L’AUTEUR DU FAMEUX RAPPORT SUR LE COÛT DE L’IMMIGRATION.

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