CRÓNICA DE DOMINGO – SOCIALISMO OU BARBÁRIE, por Carlos Loures

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Há dias, falei aqui da expressão «socialismo ou barbárie» que teve origem numa frase de Rosa Luxemburgo num ensaio de 1916, The Junius Pamphlete. Rosa Luxemburgo, uma alemã de origem polaca, foi a fundadora, com Karl Liebknecht, da Liga Spartaquista. Em Janeiro de 1919, na sequência de um levantamento spartaquista que Liebknecht e centenas de militantes da Liga desencadearam em Berlim uma insurreição de que Rosa discordou frontalmente. Presos, centenas de spartaquistas foram torturados e executados sem julgamento. Karl e Rosa entre eles.

A frase de Rosa Luxemburgo daria o nome a um movimento político. Socialismo ou Barbárie, foi um grupo socialista libertário radical francês do período pós-guerra. O seu fundador e principal figura, foi Castoriadis. Cornelius Castoriadis nasceu em Istambul em 11 de Março de 1922 e morreu em Paris em 26 de Dezembro de 1997. Era, pois, um filósofo grego radicado em França, vindo a ser considerado um dos maiores expoentes da filosofia francesa do século XX. Autor de uma vasta obra de filosofia política, na linha de Pannekoek, foi o grande filósofo da autonomia. Na sua obra, destacam-se: Instituição Imaginária da Sociedade, Encruzilhadas do Labirinto e Socialismo ou Barbárie.

 O grupo existiu entre 1948 e 1965. A personalidade nuclear do movimento era Castoriadis, como disse, também conhecido como Pierre Chaulieu ou Paul Cardan. Oriundo da Quarta Internacional (trotskista), onde Castoriadis e Claude Lefort constituíram uma tendência do Partido Comunista Internacionalista francês, em 1946.

Em 1948, abandonaram o trotskismo e formaram o Socialisme ou Barbarie, cujo jornal começou a aparecer em Março de 1949. Castoriadis mais tarde disse a respeito desse período “… a principal audiência do grupo e do jornal era formada por grupos da antiga esquerda radical: Bordigistas – seguidores de Amadeo Bordiga (1889-1970) destacado socialista italiano – comunistas de conselho, alguns anarquistas e alguns órfãos da “esquerda” alemã dos anos 1920″. Foram assimilados pela Tendência Johnson-Forest, que se desenvolveu como um corpo de ideias dentro das organizações trotskistas americanas. Uma facção desse grupo formou mais tarde o grupo Facing Reality. Os primeiros tempos trouxeram os tais debates com Anton Pannekoek e um influxo de ex-Bordigistas para o grupo.

Os primeiros tempos trouxeram os tais debates com Anton Pannekoek e um influxo de ex-Bordigistas para o grupo, grupo que era composto por intelectuais e trabalhadores, defensores da tese de que os principais inimigos da sociedade eram as estruturas burocráticas que governavam o capitalismo moderno. Analisaram a luta contra a burocracia no seu jornal. Seguindo a crença de que o que a classe trabalhadora encarava na luta diária era o conteúdo real do socialismo, os intelectuais encorajavam os trabalhadores no grupo a relatarem o seu dia a dia laboral. Socialisme ou Barbarie divergia do leninismo, rejeitando o «centralismo democrático» de um partido revolucionário e defendendo a criação de “conselhos de trabalhadores”. Alguns partiram para formar outros grupos, mas os que ficaram tornaram-se cada vez mais críticos do marxismo. Segundo recorda Jean Laplanche, um dos membros-fundadores: «a atmosfera depressa se tornou impossível».

Além de escrever os artigos de fundo, Castoriadis liderava o jornal, impondo a sua tese recorrente na época de que era inevitável uma terceira guerra mundial, coisa difícil para outros elementos suportarem: «continuar as nossas vidas, pensando ao mesmo tempo que o mundo seria destruído por uma explosão atómica dentro de poucos anos. Era uma visão apocalíptica». A Revolução Húngara de 1956 e outros acontecimentos da década de 1950 levou à chegada de mais membros ao grupo. Propunham um ponto central: …«a necessidade do capitalismo de, por um lado reduzir, os trabalhadores a simples executores de tarefas e, por outro, a sua impossibilidade de continuar funcionando se for bem sucedido nesse ínterim. O capitalismo precisa de atingir objectivos mutuamente incompatíveis: a participação e a exclusão do trabalhador na produção».

Isso ficou caracterizado como a distinção entre o dirigente e o executante.

Essa perspectiva permitiu que o grupo expandisse seu entendimento às novas formas de conflito social que emergiam fora da esfera da produção.

Em 1958 desentendimentos quanto ao papel político do grupo levou à saída de membros importantes. Claude Lefort e Henri Simon saíram, formando o Informations et Liaison Ouvrières. Em 1960, o grupo tinha crescido para cerca de 100 membros e tinha desenvolvido novas ligações internacionais, primariamente na emergência de uma organização irmã na Grã-Bretanha chamada Solidarity. No começo dos anos 60, disputas dentro do grupo sobre a crescente rejeição do marxismo por Castoriadis levou ao abandono e à criação do jornal Pouvoir Ouvrier. O Socialisme ou Barbarie continuou a ser publicado até a edição final em 1965, depois do que o grupo permaneceu inactivo e foi então dissolvido. Uma tentativa de Castoriadis para relançar o grupo durante o Maio de 68, fracassou. A Internacional Situacionista foi associada ao grupo e influenciada através de Guy Debord, que era membro de ambos. O movimento social italiano Autonomia também foi influenciado, mas menos directamente.

A questão que queria hoje colocar é a que nos é levantada pelo título do jornal de Castoriadis e do seu grupo – “Socialismo ou Barbárie”. Por aquilo que nos é permitido saber, a alternativa ao Socialismo é a barbárie – e não estou a falar do «socialismo real», nem do «socialismo em liberdade» ou «de face humana». Estou a referir-me à jamais cumprida utopia socialista, sem os centralismos democráticos de Lenine ou do neo-liberalismo que Soares, com alguns ouropéis formais, introduziu em Portugal e anda por aí à solta.

A barbárie, por assim dizer.

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