
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

A Europa, homem doente da Turquia – o seu objectivo é enfraquecer a UE, quer ela queira quer não
Gil Mihaely, historiador e director da Revista Causeur, L’Europe, homme malade de la Turquie – Son but est d’affaiblir l’UE, qu’elle y adhère ou pas
Revista Causeur.fr, 26 de Abril de 2016

As pontes sobre o Bósforo constituem a melhor metáfora da relação ambígua que mantêm a Turquia e a Europa. Foi somente em 1973 que Istambul se dota de uma primeira ponte chamada muito logicamente… “a primeira ponte do Bósforo”. Foi seguida em 1988 pela ponte Fatih Sultan Mehmet, o vencedor de 1453. No dia 29 de Maio de 2013 (aniversário da queda de Constantinopla!), lançam-se os trabalhos de uma terceira, a ponte Sultan Selim, que honra o primeiro califa, conquistador do Médio Oriente. Se acrescentarmos os dois túneis sob o mar, conclui-se que a Turquia procura claramente aderir a Europa. Ao mesmo tempo, os nomes dados a estas obras enviam-nos uma mensagem estranha, corroborada pela política dos conservadores islamita e do seu líder Recep Tayyip Erdogan: apesar das aparências e das obras de betão, as duas margens do Bósforo parecem afastar-se dia após dia cada vez mais.
No entanto, desde a segunda guerra mundial, Turcos e Europeus praticam uma dança de sedução e de repulsa. Desde há muito tempo, os Turcos desempenham o papel de candidatos zelosos em face dos europeus que sopravam o quente e o frio. Contudo, desde há uma boa década, a situação mudou-se radicalmente, e a esta assimetria hipócrita e humilhando sucedeu-se depois um novo jogo de trouxas.
Ao sair de uma guerra em que tomaram parte apenas desde Fevereiro de 1945, a Turquia e as suas elites dirigentes tinham consciência do seu relativo atraso. Temendo mais do que tudo a URSS de Estaline, Ancara abandona a sua neutralidade para se encostar ao campo americano. Sob pressão dos Estados Unidos, o regime de partido único aceita abrir o sistema político. Resultado: quatro anos mais tarde, em 1950, o partido no poder desde a independência (o CHP kémaliste) perde as eleições. Ora, o Partido democrático (DP) vencedor destas legislativas tem um projecto político radicalmente diferente do programa kemalista: ao estatismo “gaulista ” dos herdeiros de Atatürk, o liberal-populista DP opõe uma versão local do famoso “enriquecei-vos ” de Guizot: “Um milionário em cada cantão! ” Para Adnan Menderes, chefe do DP, é necessário tomar consciência da fraqueza económica da Turquia para erradicar a pobreza e o analfabetismo, criar uma classe média educada e construir infraestruturas modernas. Para o conseguir, é necessário confiar a segurança externa a uma potência estrangeira. Demasiado pobre, a Turquia não pode desenvolver-se e ao mesmo tempo proteger-se dos seus vizinhos, sobretudo dos Soviéticos. É assim que o país adere à NATO em 1952. Contudo, por detrás deste cálculo frio, há também outra dimensão: para os Turcos, esta adesão significa que são, de certa maneira, ocidentais também. Ora, na realidade e no melhor dos casos, são apenas tolerados.
Depois, a mesma lógica guiou a política estrangeira turca. Para se fazer aceitar no Ocidente, a Turquia apresenta em 1959 a candidatura de Ancara à CEE (Comunidade Económica Europeia). Os mesmos argumentos (a geografia, a história e a religião votam contra a Turquia, dizia-se), as mesmas hesitações (a CEE assim como a NATO tinham necessidade de aliados em frente do bloco soviético) e os mesmos equívocos que os que nós agora conhecemos soldavam-se pela assinatura em Setembro de 1963 em Ancara do acordo da associação da Turquia à CEE.
Entretanto, a política do DP minou irremediavelmente o primeiro pilar da ordem kemalista: uma laicidade arrogante e hostil ao Islão. Menderes não era no entanto um devoto mas tinha compreendido que a grande maioria de Turcos permanecia unida ao Islão tradicional e permitiu o regresso do Islão à política turca. Executado em 1961 depois de um golpe de Estado no ano anterior, Menderes deixou uma herança política que consiste em: a abertura para o Islão, a mobilização das classes populares, dos provinciais[1] e dos camponeses, um liberalismo económico que favorece os artesões e os comerciantes, mas também uma política estrangeira francamente anticomunista e alinhamento sobre o Ocidente. Se Menderes perdeu primeiro o poder e depois a vida, é porque as elites kemalistas e certos círculos de oficiais acreditavam que o amigo das pessoas de pequenas posses desfazia o projecto de Atatürk. Tinham razão. O génio do populismo islamoconservador tinha saltado da lâmpada: as escolas, as associações e as instituições religiosas puderam desenvolver-se e efectuar a contra-revolução. Mas nos anos 1960-1970, o anticomunismo podia ainda servir de cimento entre os diferentes campos: para os militares, vigias da revolução kemalista, um jovem que vai à mesquita parecia menos perigoso que um jovem esquerdista laico e “anti-imperialista”. Em plena guerra fria, a bandeira anticomunista era um traço de união entre o país legal e o país real. Uma geração mais tarde, a subida em força da nova Turquia alterou os dados da situação.
Necmettin Erbakan, o líder do Islão político turco dos anos 1970-1990, não escondia a sua hostilidade à adesão do seu país à UE e a sua desconfiança no que diz respeito aos Estados Unidos. Primeiro-ministro no fim dos anos de 1990, moderou o seu discurso – em vão – apenas para acalmar o exército e evitar um golpe de Estado, que acabará por ocorrer em Fevereiro de 1997. Erdogan, que tomou por sua vez o poder em 2002, impôs-se no seu campo e a sociedade turca após aparentemente ter renunciado ao Islão político e ao seu objectivo – um Estado governado pela charia – em proveito de uma orientação economicamente liberal, conservadora e populista preconizando a compatibilidade dos valores muçulmanos com o mundo moderno. Tornar-se abertamente “pro adesão” fazia parte desta “mudança”, uma fiança para os kemalistas.
Quinze anos depois, é claro que o processo de adesão era o instrumento que permitiu a Erdogan eliminar os seus adversários políticos. Com um discurso e medidas liberais exigidas pela UE, pôde mobilizar intelectuais e jornalistas, e sobretudo neutralizar o exército: um golpe de Estado como os de 1960, 1971, 1981 e 1997 não é doravante mais possível na Turquia. Ora, por volta de 2010, uma vez o exército retornado às suas casernas, Erdogan voltou-se contra os seus aliados de ontem na luta pela democracia – a polícia, a justiça, a imprensa – e tem transformado um regime outrora sob tutela militar numa ditadura da maioria. Quanto à própria adesão, a Turquia de Erdogan não tem a mais pequena intenção de sacrificar nenhuma parte da sua soberania, sacrifício incompatível com a sua vontade de recuperar uma identidade neo-otomana. Se o AKP continua a pretender o contrário e exigir a redinamização do processo da adesão à UE é essencialmente por duas razões. Primeiro, compreendendo perfeitamente o embaraço dos Europeus que não desejam esta adesão mas que não ousam dizê-lo (o que significaria confirmar o caracter cristão da Europa), Ancara aproveita-se para extorquir vantagens. E, depois, renunciar publicamente implicaria um preço a pagar no interior da sociedade turca onde uma larga minoria está mais do que nunca agarrada a esta esperança.
Resignada de momento ao status de Estado como os outros, a Turquia pode desejar integrar a Europa económica e política. O post-kemalista, orgulhoso, desenvolvido e profundamente muçulmano, a Turquia de Erdogan vê-se como potência reencontrando uma vocação durante um tempo esquecida. Ancara está em mudança. É em Istambul não em Bruxelas.
Gil Mihaely, Revista Causeur, L’Europe, homme malade de la Turquie – Son but est d’affaiblir l’UE, qu’elle y adhère ou pas. Texto disponível em :
http://www.causeur.fr/turquie-europe-erdogan-islam-37941.html#
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