A procissão é anual, em Maio. Este ano foi no dia 8, domingo. Chama-se “Procissão dos Artilheiros”. O primeiro dos quais é, sem dúvida, o bispo das Forças Armadas e de Segurança, D. Manuel Rodrigues Linda, o mais desgraçado dos bispos titulares católicos portugueses. Foram dele a presidência e o discurso neste evento público. Desta vez, o evento contou também com a presença do próprio Comandante Supremo das Forças Armadas, Marcelo Rebelo de Sousa, católico publicamente assumido, e presidente da República, disfarçado de um devoto mais, entre os outros devotos e devotas daquela senhora de madeira ou de gesso, diga quem souber. A Procissão, também chamada de “nossa senhora da saúde”, é dos Artilheiros. Militares fardados a rigor. A farda dos momentos solenes, que não dos dias de combate. Existem oficialmente para defender com armas e aviões de combate a nação dos ataques dos inimigos, coisa que manifestamente não fazem. Como já há 400 anos não fizeram, quando a população de Lisboa era atacada por um dos piores inimigos de então, a peste. Os Artilheiros – já os havia?! – peritos em armas e em guerra, não sabiam para onde e contra quem disparar para acabarem com ela.
E que fazem? Não sabem? Vejam a resposta do bispo presidente da procissão: “Quando viram que, para defender da morte e do sofrimento o povo de Lisboa, mais não podiam fazer que não fosse pedir os favores divinos, erguem as mãos para o Céu, por intermédio de Nossa Senhora.” Somos do ano de 2016, início do Terceiro Milénio, e o bispo Linda não se inibe de dizer esta barbaridade antropológica-teológica, durante a sua alocução, no final da procissão. O espantoso é que ninguém dos seus ouvintes riu à gargalhada, como teria sucedido se, em lugar do bispo Linda, estivesse a presidir à procissão, vestido de bispo, o humorista de serviço, Ricardo Araújo Pereira. Mas não era o Ricardo Araújo, talentoso humorista da nossa praça; era o bispo das Forças Armadas e Segurança, fardado a rigor, não com a farda correspondente ao título militar que ostenta e ao salário mensal que aufere, mas com a farda litúrgica de bispo católico, por nomeação papal. Para mais, a sua afirmação foi proferida no interior da igreja de São Domingos e na presença do Presidente da República e dos mais altos comandantes dos ramos das Forças Armadas e de Segurança.
Tudo não passou de um teatro, comédia ou tragédia, falta saber. Mas como ninguém se riu com aquela saloia anedota religiosa e cristã contada pelo bispo presidente da liturgia, é porque o teatro teve tudo de tragédia, não de comédia. E tragédia foi, em toda a linha. Só podia ser. Porque causar tragédia, e da grande, é a grande especialidade do cristianismo, nomeadamente da hierarquia das igrejas cristãs e das religiões em geral. Todos os seus agentes históricos são peritos em causar tragédias. E em impor sofrimentos de toda a ordem. E sacrifícios. E jejuns. E clausuras. E autoflagelações. E cruzes. E cilícios. E posturas de mãos postas, joelhos em terra até sangrar. E repressão. E castração dos respectivos funcionários-mor. Tirem-lhes os templos e os altares e eles ficam aos papéis. Exijam-lhes que cresçam e apareçam lá onde está a acontecer a vida a sério, não apenas a vida faz de conta, e eles morrem de pânico. Porque foram preparados-formatados para presidir a actos faz de conta. Apenas. Fora dos templos e dos altares, não sabem como estar, nem o que dizer-fazer. São clérigos, não seres humanos. São funcionários do Ritual, não criativos presbíteros da Igreja de Jesus. Homens do poder religioso e eclesiástico, não presenças maiêuticas entre e com os demais.
O andor com a senhora de madeira ou de gesso, denominada senhora da saúde, foi levado a passear-mostrar-se pelas ruas da Baixa de Lisboa. Carregado aos ombros por artilheiros. Ufanos nos seus passos de marcha, que a banda militar marcava. Tudo como numa parada. Ou numa guerra faz de conta. Que a peste de há 400 anos, como muitos outros males de saúde semelhantes a ela, é hoje combatida pelos médicos e enfermeiros. Não pelos artilheiros e suas armas de matar inimigos, familiares que sejam. E, antes destes, pelos cientistas que queimam as pestanas na investigação das causas, dos processos e dos meios de as atacar. Se em vez disso, passassem a vida de mãos levantadas ao céu, nunca a peste e as doenças que matam seriam combatidas e debeladas. Aliás, os próprios bispos e os crentes religiosos, católicos ou protestantes, é aos médicos e aos hospitais que recorrem, quando as doenças atacam. Não ficam, dias e noites, de mãos levantadas ao céu à espera do socorro divino. Morreriam como tordos, se o fizessem. Ensinam uma coisa e fazem outra, como os fariseus hipócritas do tempo e país de Jesus Nazaré. Não se entende, por isso, como é que as igrejas cristãs e as religiões insistem nestes teatros litúrgicos, com os fiéis a erguer as mãos para o céu, quando hoje se sabe que o céu é parte do universo, tal como a terra. Menos se entende como é que ainda há gente que alinha nesse tipo de teatro religioso e litúrgico, presidido por funcionários com formação académica, ilustrada que se revela refinada perversão. Vê-se que estão programados para incutir e cultivar o Medo nas mentes das populações que ainda os frequentam, porque assim têm-nas cativas, submissas, resignadas, tristes, maceradas, oprimidas, desamparadas. E o poder político de turno fica-lhes agradecido. E o financeiro muito mais!
È, de resto, esse o principal papel das fés religiosas e cristãs: Alimentar o Medo nas populações. Contam, para tanto e como se vê por esta procissão dos artilheiros de Lisboa, com todos os altos quadros institucionais de cada nação. Em Portugal, tem sido assim desde a fundação da nacionalidade. Como se deus fosse amigo dos portugueses e inimigo dos castelhanos-espanhóis, dos árabes ou mouros, e dos povos que, no sangrento período das descobertas e conquistas, roubamos, matamos, destruímos, cristianizamos. Mas que absurdo e que obscenidade são as fés religiosas e cristãs! E não é que até os altos comandantes dos três ramos das Forças Armadas e de Segurança, mai-lo seu Chefe Supremo, o presidente da República, alinham nestes teatros? É com posturas e práticas como estas que mostram à saciedade que é para isso que existem, que estudaram e que se apresentam fardados a rigor e com títulos a condizer. Eles sabem que, com as fardas e os títulos de poder, deixam de ser filhos de mulher. Deixam de ser seres humanos. Sabem também que só assim, fardados a rigor e com toda essa parafernália de títulos de poder, são religiosa e politicamente olhados pelas populações, suas súbditas, como seres divinos, não como seres humanos. Por isso, obedecidos, respeitados, aplaudidos. Apesar da peste, hoje, financeira, por isso, muito mais assassina do que há 40 anos, continuar aí a roubar, matar e destruir.
Aqui reside a tragédia. Mais do que tragédia, crime. O crime institucionalizado que as fés religiosas e cristãs são e espalham sobre a terra. Impunemente. Com o apoio dos outros institucionais de poder, laicos que se digam. Todas elas valorizam o divino em detrimento do humano. Parecem desconhecer que, todas as vezes que invocamos o divino, negamos o humano. E isso é crime de lesa-Humanidade, de lesa-Criação. Divino e humano são incompatíveis, contraditórios. Nenhuma universidade do mundo o diz, nem mesmo as laicas, agnósticas. Todas acham que são duas dimensões distintas que se complementam. É uma descarada mentira. São sim duas dimensões incompatíveis, contraditórias entre si. Ou humano, ou divino. Afirmar o divino é negar o humano. Afirmar o humano é negar o divino.
Este é o cerne da revolução antropológica-teológica de Jesus Nazaré, o filho de Maria, o filho do ser humano, contra a qual foi criado o cristianismo e as igrejas cristãs. Quando, no século IV, o império romano reconhece o cristianismo e o impõe a ferro e fogo, é porque viu que o cristianismo, ao contrário de Jesus Nazaré que ele crucificou, no tempo do imperador Tibério, afirma o divino e nega o humano. E divino era César de Roma,o divino César Augusto! Todos os mais eram seus súbditos, não-seres humanos. O Livro JESUS SEGUNDO JOÃO, Seda Publicações 2013, é o que nos revela. Sublinha que a Deus nunca ninguém o viu. Vemos seres humanos. E só nos seres humanos, a começar pelos dos porões da humanidade e os das valas comuns, dos tugúrios e dos subúrbios das grandes cidades, é que Deus que nunca ninguém viu se dá a conhecer. Como Humano. Não como divino. Quando acordamos e mudamos de ser e de Deus? Quando passamos das fés religiosas-cristãs e das teologias religiosas-cristãs para a Fé e a Teologia de Jesus? Quando nascemos de novo, da Ruah-Sopro maiêutico de Jesus, o ser humano pleno e integral?!