Eu gosto do “Pereira”. Do Café Pereira, que é um dos mais antigos da “Invicta”. O “Pereira” já conheceu vários donos. Modernizou-se mas nunca perdeu a sua identidade de café familiar e popular.
Por isso continua ali, na Praça do Marquês de Pombal, que foi Largo da Aguardente até 1882. O largo funcionava então como fronteira da cidade e ali eram cobrados impostos sobre todas as mercadorias que entravam no Porto.
O “Pereira” tem como vizinhos três instituições com significativa importância na história da cidade:
– A casa-atelier de José Marques da Silva, hoje sede da Fundação Instituto Marques da Silva gerida pela Universidade do Porto. José Marques da Silva foi o arquitecto que moldou a fisionomia da cidade. Ao seu talento a cidade ficou a dever algum do seu mais importante património artístico: Estação de S. Bento; Teatro Nacional de São João; Avenida dos Aliados; Palácio do Conde Vizela; e escolas secundárias “Alexandre Herculano” e “Rodrigues de Freitas”;
– O “Asilo do Terço”, instituição que acolhe crianças e jovens desprotegidos desde 1891 e que foi fundada por dois homens bons da cidade – o juiz Silva Leal e o abastado comerciante Delfim Lima;
– A Igreja de Nossa Senhora da Conceição, popularmente conhecida como igreja do Marquês. A igreja foi construída entre 1938 e 1942, sob projecto do monge beneditino Paul Bellot, alterado pelo arquitecto Rogério de Azevedo. A sua esbelta torre, a lembrar os templos góticos, é o seu elemento mais marcante;
Apesar de tal vizinhança, o “Pereira” nunca foi poiso de artistas e intelectuais, que sempre preferiram os cafés da “Baixa”. Como o há muito extinto “Rialto”, que serviu para António Rebordão Navarro, Daniel Filipe, Egito Gonçalves Ernâni Melo Viana, Luís Veiga Leitão e Papiniano Carlos nos darem “Notícias do Bloqueio” e de um ditador que até o amor vigiava.
Não, o “Pereira” foi sempre café familiar e de gente pouco dada a inquietações. Tal qual acontece hoje, que é frequentado por reformados, durante o período da manhã; e por jovens alunos de colégios privados vizinhos que ali fazem as suas refeições diárias e que, entre a uma e as três da tarde, lhe dão um colorido e uma vivacidade verdadeiramente notáveis.
Eu gosto do “Pereira”, deste “Pereira”, que me faz regressar ao futuro. Tanto que, sempre que vou ao Porto, por ali fico algumas horas. Apreciando Sérgio, o empregado que serve as refeições às meninas e aos meninos e a todos os outros com a simpatia de quem tem em cada cliente um amigo.
Além de mais, o “Pereira” serve o melhor “prego” da cidade. Um “prego” que tão grande e justa fama deu a este velho resistente que se chama “Pereira”. Café Pereira.