
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

A Turquia está por todo o lado!
Michel Lhomme, politólogo, La Turquie est partout!
Revista Metamag, 11 de Abril de 2016

Tanto para os atentados de Bruxelas como para os de Paris, a proximidade entre os suspeitos e a Turquia aparece como um elemento chave do processo.
Para além da Turquia, são as relações com o wahabismo saudita ou pelo menos com alguns dos seus serviços que se perfilam mas, ao que parece ser cada vez mais claro, é cada vez mais a pista que nos leva à Turquia. É de resto a tese defendida asperamente pela rede Voltaire frequentemente bem informada.
Assim, o Audi S4 preto, que serviu para transportar os autores dos atentados de Bruxelas e pertencendo a um jovem turco de vinte e dois anos, identificado pelos serviços de informação belgas por ter feito, em 2015, uma viagem à Arábia Saudita com motivações pouco claras, leva-nos uma vez mais, pelos inquéritos e pelas fugas policiais, não aos fanáticos de subúrbio em roda livre mas antes a uma intensa actividade militarizada entre de um lado os executores dos crimes praticados e que estão instalados na Bélgica e o outro lado, o dos organizadores que frequentemente passaram pela Turquia via Arábia Saudita para se juntarem ao Estado Islâmico ou para dele regressarem.
O inquérito destes últimos dias mostra efectivamente desta vez que os serviços de informação se interessam pelas idas e vindas entre a Europa e a Arábia Saudita, país este que continua a ser, no entanto, um dos principais parceiros militares da França na desestabilização programada da Síria desde 2011.
É mesmo muito curioso que, de repente, as estradas da Europa se encontrem a serem percorridas por uma multidão de suspeitos que tomam sempre a rota do Danúbio para retornar à fronteira turca enquanto que ao mesmo tempo a Rússia leva a sério as ameaças de encerramento do Bósforo por Istambul.
Torna-se cada vez mais impressionante que a versão oficial dos atentados que limitava a organização destes a 8 pessoas não se sustenta de pé. Realmente, redes estruturadas, importantes, dotadas de meios estrangeiros, estão em actividade. É agora evidente que os serviços secretos estrangeiros (Turquia?) manipulam ou tentam manipular os acontecimentos.
Mas por esta frente ocidental turca, seremos levados a uma frente oriental turca onde os combates mortíferos que retomaram entre a Arménia e o Azerbaijão na região do Alto Karabakh fizeram mais de trinta mortes. O conflito entre a Arménia e o Azerbaijão que incubava desde 1994 retomou nestes últimos dias (“ com uma amplitude inédita” de acordo com o Alto Representante do Karabagh em França) no Alto Karabakh , em que quer o Azerbaijão quer a Arménia rejeitam a responsabilidade de se terem quebrado as tréguas e de se terem retomado as hostilidades.
Mas não é então a abertura de uma enésima guerra por procuração e uma vez mais entre a Rússia e a Turquia sobre o fundo de guerra na Síria? Com efeito, a Rússia apoia a Arménia numa aliança na Organização do Tratado de Segurança Colectiva, a Turquia apoia o Azerbaijão para tomar derrotar a Arménia com quem tem um conflito histórico-memorial.

De facto, esta semana, o presidente Vladimir Putin apelou “a um cessar fogo imediato”, enquanto que o presidente Recep Tayyip Erdogan disse defender “ até ao fim” o seu aliado, o Azerbeijão. A esta “nova” rivalidade russo-turca no fogo dos acontecimentos acrescenta-se no conflito do Alto Karabagh, o papel do Irão.
Com efeito, o Irão é povoado como o Azerbaijão de chiitas, mas por razões geoestratégicas (em especial o traçado dos gasodutos e dos oleodutos), Teerão é diplomaticamente próximo da Arménia. Ora, dividir o povo chiita é também uma bela opção no cenário de caos actual do campo de batalha sírio.
Ah, mas como é complicado o Oriente!
Michel Lhomme, politólogo, Revista Metamag, La Turquie est partout!. Texto disponível em:
http://metamag.fr/2016/04/11/la-turquie-est-partout/
