Panamá Papers – um reflexo do modelo neoliberal | 11. Como Ganhar Milhões a Vender a Guerra – por Ken Silverstein II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Panamá Papers – um reflexo do modelo neoliberal

 

11. Como Ganhar Milhões a Vender a Guerra

Ken Silverstein

 

(conclusão)

As organizações sem fins lucrativos também servem, aparentemente, como forma de se fazerem algumas poupanças pessoais. A PTD numa só vez pagou-lhe em salários cerca de 150 000 USD e, numa outra ocasião, disponibilizou-lhe um empréstimo de 70 000 USD sem juros. Em 2008, We Remember emprestou-lhe US $ 25.000 para “obras no escritório da sua casa” na sua propriedade em Washington e em 2006, PTD assinou um contrato de arrendamento em que pagaram a Jackson $ 36.000 anualmente para alugar o espaço com dinheiro isento de impostos. O PTD também aceitou tomar a seu cargo 38 por cento das despesas com serviços prestados à família Jackson, seguro, serviço de limpeza, impostos sobre a propriedade, segurança e manutenção.

A esposa de Jackson recebeu cerca de US $ 130.000 em salários pelo seu papel como Presidente de We Remember e quando o grupo se dissolveu como um 501c (3), em 2009, transferiram US $ 146.000 de activos que restavam para a PTD. Mas We Remember não ignorou completamente as vítimas da repressão do governo na Belarussia: durante a sua existência fizeram três donativos que totalizaram cerca de US $ 5,000 – ou seja, 1 por cento dos US $ 500.000 que haviam angariado – para as “ famílias de presos políticos e para aqueles que desapareceram.”

Quando descrevi ao professor Lloyd Hitoshi Mayer, professor de direito e decano associado da Notre Dame Law School, a forma como estas organizações sem fins lucrativos operavam, este disse-me: “O que está a descrever não é nada fora do comum. Está-se perante uma pessoa influente que fundou uma organização sem fins lucrativos e alinha com os amigos, e tratam as organizações sem fins lucrativos como um fundo comum de despesas. Eles pagam-se a si mesmos um bom salário e muitas viagens. Mas é suposto que o objetivo é ser uma instituição de caridade, e o governo tem um interesse em saber como é que estas entidades sem fins lucrativos são geridas. Não pode haver aqui uma qualquer bandeira vermelha, mas há seguramente aqui um problema de percepção. Há aqui pelo menos bandeiras amarelas e talvez mais, e tudo depende da obtenção de informações completas. E mesmo que isso não viole a lei fiscal, isso não significa que os poderes públicos não devam preocupar-se com este tipo de coisas “.

As organizações sem fins lucrativos não têm que divulgar a lista dos seus doadores, mas We Remember ao preencher a sua documentação de IRS de 2005 incluiu acidentalmente uma lista de doadores, que se tornou assim pública. De longe o maior doador de We Remember, que tinha começado o ano com US $ 358,97 em dinheiro, era uma empresa controlada pelo oligarca ucraniano Rinat Akhmetov que ofereceu US $ 300.000. Akhmetov que tem uma fortuna estimada em US $ 7,6 milhares de milhões, “tem a fama de ter surgido depois de uma luta de poder sangrenta entre grupos do crime organizado na década de 1990 que procurava controlar os poderosos activos do carvão e do aço da União Soviética”, segundo informa o New York Times.

Durante décadas, Akhmetov apoiou o fabulosamente corrupto Viktor Yanukovych, duas vezes primeiro-ministro ucraniano e que foi eleito presidente em 2010. Yanukovych foi deposto a partir dos protestos populares em Fevereiro do ano passado (2014), que desencadearam depois uma guerra civil na Ucrânia e um confronto, ainda em curso, com a Rússia. Imediatamente a seguir, e num movimento contrário obviamente exigido pelas novas realidades políticas, Akhmetov rompeu com o seu antigo beneficiário.

Jackson tem sido periodicamente identificado na imprensa americana e ucraniana como um conselheiro de Akhmetov, Yanukovych e do partido político de ambos. Em 2007, Jackson e Paul Manafort (um lobista cujos outros clientes incluíam dois dos governantes mais corruptos dos tempos modernos, Mobutu Sese Seko do Zaire e o presidente filipino Ferdinand Marcos) organizaram reuniões para Yanukovych em Wasshington com altos funcionários do governo americano, incluindo o então vice-presidente Cheney. Há dois anos atrás, depois da eleição de Yanukovych como presidente, Jackson organizou encontros em Washington para o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, que ” nas conversações interrompia toda a gente ” no decorrer das reuniões com a secretária de Estado Hillary Clinton. (Devemos acrescentar que os adversários de Yanukovych são declaradamente tão corruptos quanto ele o é e pagaram milhões ao longo dos anos para os seus próprios lobistas americanos.)

Um exemplar dessa gente corrupta:

s1

 

Um detalhe, uma equipa.

O seguinte trabalho de Robert Schlesinger de US NEWS dá-nos conta de alguns nomes, e para evitar dúvidas deixemos o texto no original:

Ukraine’s American Imports

American political consultants and lobbyists have been working on all sides of the tempestuous Ukrainian situation.

Manafort isn’t alone in plying his trade in the former Soviet republic; as the Times noted in 2007, former Bill Clinton pollster Stan Greenberg was working for Ukraine’s then-president, Viktor Yushchenko, as were GOP operatives Steve Schmidt and Neil Newhouse. By the 2010 presidential campaign, the Times reported, Yuschenko had retained another former Clinton strategist, Mark Penn, while then-Prime Minister Yulia Tymoshenko had hired David Axelrod’s old firm, AKPD Media. (It’s a small world after all: Schmidt would go on to manage John McCain’s 2008 presidential campaign against AKPD client Barack Obama; Newhouse would in 2012 poll for long-time client Mitt Romney in his presidential bid.)

The U.S.-Ukraine political nexus hasn’t just involved campaign work. As Reuters’ Mark Hosenball and Warren Strobel reported last December, the European Centre for a Modern Ukraine, “a Brussels-based organization sympathetic to [Yanukovych] and his political party” had paid nearly $1.5 million over the preceding two years to the firms of lobbying heavyweights like Republican former Reps. Vin Weber and Billy Tauzin and Democrat Anthony Podesta (whose brother John is a senior counselor in the White House). Where the Centre gets its funding is unclear, Reuters reported: “In a filing with the European Union, the group listed its budget for the financial year ending in November as 10,000 euros, or about $14,000 – a fraction of the $1.46 million it paid the Washington lobbyists.”

Meanwhile Tymoshenko has been represented in D.C. by Democratic former Rep. Jim Slattery, whose law firm got paid $810,000 by the former prime minister’s husband, Oleksandr. The former prime minister herself was serving a seven-year prison sentence for alleged abuses of power, though the Ukrainian parliament this week voted to decriminalize the charges against her, releasing her from jail.

Nessa altura, uma fonte fiável disse-me que, Jackson mantinha a sua corte num clube privado em Washington e que em voz alta se vangloriava, enquanto bebia uísque e fumava um charuto, que ele e Manafort estavam a trabalhar juntos nas iniciativas do presidente Yanukovych, mas que era o próprio Jackson o verdadeiro cérebro que estava por detrás da operação.

Tudo isto pode explicar como é que as posições de Jackson sobre a Ucrânia foram mudando ao longo dos anos.

Em 2002, a Associated Press relatou que Jackson, que era identificado como “um conselheiro político sediado em Washington,” se tinha encontrado recentemente com um líder da oposição pró-ocidental e criticado o primeiro governo Yanukovych. Três anos mais tarde, ao longo do mês de Fevereiro de 2005 no testemunho perante o Comité de Relações Exteriores do Senado, Jackson disse que a Rússia tinha gasto $ 300 milhões “para basicamente falsear o resultado” da eleição em que Yanukovych saiu vencedor no ano anterior e saudou a “Revolução Laranja” que varreu o “ seu regime autocrático.”

A declaração de IRS de We Remember de 2005 não fornece dados quanto à contribuição de Akhmetov, mas no ano seguinte Jackson apresentava Yanucovych a Cheney e a outros VIPs de Washington, e nunca, tanto quanto o saibamos, teve uma posição crítica contra ele desde então.

Num discurso proferido em Março de 2010 para a Ucrânia-U.S. Business Council, Jackson disse que a Administração Obama deve “emprenhar-se sinceramente” com Yanukovych, que tinha tomado posse como Presidente no mês anterior. Enquanto que em 2005 Jackson tinha incitado o Senado a distanciar-se dos aliados de Yanukovych nos negócios corruptos, agora declarava que esse empenho tinha de incluir” os chamados oligarcas”.

s2

Combatentes do Estado Islâmico estão por todo o lado no Iraque e na Síria . Foto por cortesia de VICE News

Uma história relatada no ano seguinte num jornal pró-governo ucraniano disse que Jackson, descrito como um “especialista americano de nomeada” – considerava Yanukovych como sendo um reformador determinado que estava “realmente atormentado com a corrupção que está a matar o seu país.” Jackson disse que as pessoas a trabalhar na administração de Yanukovych “não são realmente pessoas más … elas não são nenhuns assassinos”.

Jackson estava ainda do lado de Yanukovych no início do ano passado, depois do seu governo ter morto dezenas de manifestantes e de ter fugido para a Rússia. “O que o preocupa, disse Jackson, é o facto do novo governo estar demasiadamente em dívida para com o movimento popular da praça Maidan”, informava o New York Times em Março de 2014.

Apesar de tudo, Jackson continuou a vir ao seu castelo francês. “Nós actuámos muito bem; todas estas árvores são de Bordéus ” disse ele aos seus hóspedes à medida que os conduzia através dos seus vinhedos. “Nós … voltámos às coisas nativas.” Ele sonha mesmo que a sua propriedade, o seu domínio, possa eventualmente vir a ser o lugar de uma declaração internacional famosa. “Isto pode ser um pouco pretensioso, mas qualquer dia escreveremos aqui um tratado sobre alguma coisa “, disse ele. “E, na verdade, um título como o “Tratado de Les Conseillants” seria para ele um título bem atraente. “

Quando telefonei a Jackson para um comentário sobre as organizações sem fins lucrativos em Fevereiro, ele recusou a dizer fosse o que fosse sobre o assunto, para além de dizer que estava em vias de dar por terminado o Projeto sobre as Democracias Transnacionais.

“Nós não recebemos nenhuma subvenção desde há dois anos “, disse-me Jackson antes de desligar. Numa conversa por email no final de Abril, disse-me que a organização sem fins lucrativos já tinha sido dissolvida.

“Não tinha recebido quaisquer contribuições desde pelo menos há dois anos e não pagou salários desde o início da década passada”, escreveu-me Jackson.

E a propósito, um aviso sobre o vinho que Jackson produz: É uma boa merda, disse-me uma pessoa que o provou e seja o que pensem sobre a guerra do Iraque, não o comprem ou qualquer outra coisa que ele esteja a vender no futuro.

Ken Silverstein, How to Make Millions by Selling War.Texto disponível em :  http://www.vice.com/read/how-to-make-millions-by-selling-war-917

Panamá Papers – um reflexo do modelo neoliberal | 11. Como Ganhar Milhões a Vender a Guerra – por Ken Silverstein I

Leave a Reply