Passei um destes dias pelo até agora conhecido Largo de S. Pedro, em Amarante. Anda em obras. Ali mesmo ao lado da sede da União de Freguesias. O que constitui um incómodo para quem tem de trabalhar lá diariamente. Entre as múltiplas pessoas que abordei pelas ruas da cidade, não encontrei uma única que estivesse de acordo com mais este atentado ao património, com um custo superior a cem mil euro. Se o objectivo era melhorar, o resultado é o seu contrário. Só piora. Para cúmulo, arruma, de uma assentada, com um razoável número de lugares de estacionamento de residentes nas redondezas. Manifestamente, aquele chão de granito superpolido por máquinas não é plantado ali a pensar no bem e no conforto das pessoas, tão pouco, nas suas necessidades. Aliás, para o cristianismo, as pessoas comuns não contam. São ninguém. Só contam os clérigos, sacerdotes, pastores. E os mitos. E as imagens. E os altares. E a ostentação. E a vaidade. E o quero-posso-e-mando dos párocos e dos bispos residenciais. Os mesmos que nomeiam e desnomeiam os párocos, funcionários das suas subempresas, as paróquias.
O caso em questão – ocorre em Amarante, mas acontece em muitos outros locais do mundo católico, com destaque máxima para a cidade de Roma e a sua basílica de S. Pedro – é ainda mais escabroso, pelo que fui lá encontrar e me leva a escrever esta crónica e a titulá-la em forma de pergunta, Largo de S. Pedro ou de Satanás? Devo confessar-lhes que o título se me impôs no próprio local. Não se escandalizem com ele, nem sequer com a segunda parte da pergunta. Leiam o texto até ao fim e comentem-no, com humor e sabedoria-simplicidade, em acaloradas ou serenas conversas de café e às mesas dos restaurantes. Debater, é preciso. Mutismo, não é preciso. A palavra ou é da rua, ou resvala logo para discurso do poder. E de discursos do poder estamos mais do que fartos. Não concordam comigo? Sou presbítero-jornalista e é assim que vejo as coisas. E digo-as onde for preciso. Sem que haja quem me desminta. Porque falo-escrevo bem fundamentado, não de acordo com as ideologias e as teologias do Poder, todas mentirosas.
Felizmente, sou, por missão e profissão, do imenso número dos que frequentam as ruas e os locais por onde andam as multidões de pessoas comuns. Não frequento mais os templos nem os altares, lugares exclusivos de clérigos, sacerdotes, não de seres humanos, mulheres, homens, jovens, crianças. Desses lugares ditos sagrados, sempre havemos de fugir. Não são lugares próprios dos seres humanos, só dos clérigos, seres que têm o mau gosto de viver à parte dos demais. Nem Deus que nunca ninguém viu, o de Jesus, frequenta tais lugares sagrados. Dá-se bem nos lugares que os clérigos sacerdotes chamam profanos. Dos lugares sagrados, só o Deus ídolo dos sacerdotes gosta. Mas esse é um Deus assassino e ladrão. Tal e qual. Basta olharmos para os maus frutos que produz.
Sabem que o Evangelho de Jesus, nas suas 4 versões canónicas, chamaria Largo de Satanás, ao Largo que a famigerada iconografia cristã chama Largo de S. Pedro, Praça de S. Pedro, Basílica de S. Pedro, etc, etc, etc? Vá lá, confessem que não sabem. Mas a culpa não é vossa. É dos clérigos e das catequeses que as paróquias e as universidades do cristianismo ensinam contra Jesus e o seu Evangelho. Já agora, fiquem a saber, também, que Jesus Nazaré, o filho de Maria, nunca conheceu S. Pedro! Conheceu, sim, um homem chamado Simão que, no início da sua missão política na Galileia, foi-lhe apresentado por André. Nesse então, Jesus olha-o de alto abaixo e cognomina-o, na hora, de “Pedra-Penedo”. Não é um louvor que lhe dá. É um alerta e uma fortíssima advertência que lhe faz e que ele não quis saber. Tanto, que com o passar do tempo, Pedro veio infelizmente a revelar-se pedra-penedo e que pedra-penedo!. Precisamente, “pedra de tropeço”, ou ocasião de escândalo para o próprio Jesus. O momento crucial chega, quando Jesus anuncia aos Doze, dos quais Pedro é o primeiro da lista e o chefe, que vai subir a Jerusalém onde acabará crucificado. Pedro, escandalizado com semelhante Evangelho, chama-o à parte e adverte-o de que Deus não permitirá tal coisa. E como reage Jesus? Assim: “Sai da minha frente, Satanás, porque os teus pensamentos não são de Deus mas do Poder” (Cf. Mc 8, 31-33; Mt, 16, 21-23; Lc 9, 21-22; Jo 6, 676-71).
Fica assim mais do que claro que toda essa perversa catequese cristã católica do chamado “poder das chaves de S. Pedro” resulta de uma perversa interpolação muito posterior no Evangelho original de Mateus 16. É posta lá, com o declarado objectivo de matar definitivamente Jesus e o seu Projecto político, e colocar, em seu lugar, o mito Cristo e o cristianismo de Pedro e Paulo, S. Pedro e S. Paulo. E, mais tarde, também e sobretudo de Constantino, imperador de Roma. No fundo, é ao próprio cristianismo e a cada papa de turno que Jesus, na pessoa de Pedro, chama Satanás. O poder das chaves é, afinal, o poder do império.
O mais chocante de tudo isto é que o novo pavimento do Largo de S. Pedro, frente à igreja do mesmo nome, em Amarante, ostenta, desenhado ao centro, as chaves, juntamente com o símbolo dos três poderes do império romano cristão, hoje o papado de Roma. À luz do que aqui lhes digo, na minha qualidade de presbítero jornalista da Igreja do Porto, é uma vergonha e uma afronta aos seres humanos e aos povos. Não só aos amarantinos. Daí a minha proposta, a concluir: Ao até aqui Largo de S. Pedro, passemos a chamar, a partir destas mais do que disparatadas obras, Largo de Satanás. O mesmo digo da Praça e da Basílica de S. Pedro em Roma. Assim, fica tudo muito mais em conformidade com o Evangelho de Jesus. Por isso, muito mais em conformidade com a realidade-verdade.