O DRAMA DOS MIGRANTES NUMA EUROPA EM DECLÍNIO E CAPTURADA POR ERDOGAN E OBAMA – 10. ATENTADOS: PORQUÊ ANCARA? por MICHEL LHOMME – II

refugiados - I

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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Atentados: porquê Ancara?

atentados - I

Michel Lhomme, politólogo, Attentats: pourquoi Ankara?

Revista Metamag, 18 de Fevereiro de 2016

(conclusão)

Síria, início de ano 2016, a segunda batalha de Alepo entre ofensiva e contra ofensiva

No dispositivo aeronaval disposto em frente da Síria (o grupo aeronaval Charles-de-Gaulle), contam-se mais ou menos 2700 marinheiros que estão com efeito sob comando americano. Desde Janeiro de 2016, desde há um mês e meio, há uma forte pressão americana sobre as nossas forças no âmbito da “coordenação” da coligação. Se no Iraque Daesh recuou, realmente na Síria é sempre a destituição de Bachar El Assad que continua a ser o objectivo prioritário quase que a pactuarem com Al Nosra ou com os grupos de jihadistes muito móveis no terreno. É pelo menos claramente na Síria a posição de Washington, da Turquia, dos países árabes do Golfo e de Israel. Ora a destituição de Bachar el Assad deverá passar nas próximas semanas por uma confrontação directa sobre o terreno entre a Turquia e a Rússia. No dia 2 de Janeiro de 2016, aviões Rafale franceses armados de mísseis Scalp bombardearam um centro de produção e de armazenamento de armas a Nordeste de Alepo na Síria. Sobre o terreno, a Rússia não esqueceu e recorda-se ainda enquanto que na internacionalização do conflito, os Estados Unidos anunciam a abertura uma terceira frente contra Daesh na Líbia e que a França também se prepara.

Com efeito, desde o dia 31 de Janeiro de 2016, a segunda batalha de Alepo começou pela ofensiva lançada a norte por 10 000 homens do exército sírio, das forças de Defesa nacional e do Hezbollah libanês, das unidades do exército iraniano, com o apoio mais que fornecido da aviação russa. A 3 de Fevereiro, o exército sírio teve sucesso em cortar a estrada de abastecimento do rebeldes a norte de Alepo. Para o regime sírio, é um dos progressos militares e estratégicos mais importantes desde o início da batalha. O Irão reconheceu sobre o terreno a morte de 45 homens do Corpo dos Vigias da revolução islâmica dos quais um general e uma alta patente de Hezbollah. A ofensiva provocou a fuga de 70 000 habitantes, dos quais 20 000 em direcção da Turquia, estes refugiados dos quais os nossos media franceses se têm recentemente feito eco. Ao mesmo tempo, sobre o terreno e na fronteira Norte os Curdos puderam aproveitar do retrocesso dos rebeldes para passarem à ofensiva com os YPG. A 10 de Fevereiro, os Curdos tomaram assim a aldeia de Menagh e a grande parte da sua maior base aérea com o apoio da aviação russa. O 13 de Fevereiro, face a esta derrota dos rebeldes sírios anti Assad, a artilharia turca (sobre ordem de Washington?) interveio e bombardeou as posições curdas no distrito de Azaz. Assim, a 13 de Fevereiro de 2016, a Turquia que parece fazer jogo solitário pôs uma parte das suas ameaças em prática. Tendo designado unilateralmente o Partido da união democrática (PYD) curdo sírio como movimento “terrorista pelas relações que este teria com o PKK, Ancara começou a bombardear posições que as Unidades de protecção do povo (YPG), o braço armado do PYD, acabavam de conquistar “no corredor de Azaz” ao norte de Alepo. Ora, esta intervenção turca bem foi coordenada totalmente com a coligação. Está em vias de se modificar nesta segunda metade do mês de Fevereiro de 2016 os dados na situação de conflito: é a contra-ofensiva.

Para os Curdos sírios, o poder em exercício em Damasco e, sobretudo os Russos, é com efeito muito difícil responder aos tiros emitidos desde o território turco, por duas razões. A primeira é política, porque isso é considerado como uma agressão de um país-membro da NATO e isso poderia então provocar um compromisso da Aliança aos lados de Ancara, ainda que realmente sejam efectivamente os Turcos que primeiramente abriram o fogo no dia 13 de Fevereiro e o segundo é de ordem técnica: se a artilharia turca pode efectuar tiros a  longa distância (entre 20 e 30 quilómetros) graças aos seus obuses de 155 mm Firtina ou M-52T, os Curdos não têm nenhuma arma capaz de fornecer fogos de contrabaterias.

A coligação internacional agora espera pois muito da Turquia. Joga oficialmente o jogo “da loucura de Erdogan” ou da sua irresponsabilidade mas dirige-o clandestinamente e espera por conseguinte para ver o que vai fazer Ancara nos próximos dias.

Reconheceu-se, há alguns dias, que um acordo turco tinha sido concluído com Riade para colocar eventualmente tropas de terra na Síria para – sempre a mentira Al-Qaïda! – “combater Daech”. Já, os primeiros caças-bombardeiros sauditas teriam chegado à base aérea de Inçirlik onde estão estacionados os aviões Americanos que intervêm diariamente na Síria, no quadro da coligação internacional de que fazem parte a Arábia Saudita, a Turquia e a França. Ainda que a opção terrestre pareça actualmente estar a representar mais uma questão de retórica do que  ser uma realidade, a Turquia tem efectivamente os meios militares para desencadear uma operação de envergadura desde a sua fronteira para “libertar” “uma zona tampão” de cerca de trinta de quilómetros de profundidade que se estenderia de Azaz, a oeste, a Jarabulus a leste, ou mesmo se o coração lho ditar ir retomar Alepo. Vivos combates estoiraram realmente desde há alguns dias entre Curdos e rebeldes dentro de Alepo. Militarmente, o total dos efectivos militares turcos atingiria entre 15 000 e 20 000 homens e uma centena de carros de combate. Do seu lado, a participação saudita limitar-se-ia sem dúvida ao envio de algumas forças especiais dado que uma grande parte do seu exército está actualmente monopolizada pela guerra efectuada no Iémen e na protecção da sua fronteira com o Iraque. Que se seja bem claro: Erdogan não é louco, mas apesar do seu jogo duplo, obedece e segue os planos de resposta da NATO? Os Russos reagirão eles (o atentado de Ancara é sem dúvida uma advertência) como também será então forçada a fazê-lo muito rapidamente a comunidade internacional apanhada na engrenagem?

É verdade que a propósito da Síria, está-se ainda na França a falar “de guerra contra o terrorismo”, enquanto que se trata “de uma guerra aberta e quase declarada contra a Rússia”, os analistas franceses recusam-se sempre a analisar as resistências do inimigo nomeadamente designado, Bachar El Assad ou o falsamente instrumentalizado, o Estado Islâmico. Evocávamos no início do ano o grande momento decisivo estratégico que se perfilava em 2016 e os riscos de derrapagem. Aqui estamos de facto. Não esqueçamos que a guerra na Síria nunca não foi um conflito civil mas uma guerra regional na qual estão envolvidos mais de uma dúzia de países, que um cessar-fogo tal como é reclamado actualmente pelos países que apoiam activamente as forças da rebelião na Síria é absolutamente não aceitável tanto para Bachar El Asad como para a Rússia mas também para o Irão.

Enquanto que o Reino Unido encara a hipótese de sair da UE e que os diários populares britânicos apelam ao envio de soldados sobre Calais (um regimento britânico está já situado sobre o território francês), o Reino Unido vai enviar 1600 soldados da sua Majestade na Jordânia para “exercícios” e “operações militares”. A Arábia Saudita está também ela própria de reunir centenas de milhares de soldados para a fronteira síria. Então, a coligação prepara-se para a invasão da Síria ou seja prepara-se para passar ao terceiro acto do conflito? Ou muito simplesmente é um enorme bluff?

O Primeiro ministro da Rússia advertiu recentemente que um tal movimento de tropas no solo da Síria poderia desencadear uma nova guerra mundial. Moscovo alterou certamente o tratamento desde Setembro de 2015 mas apesar da sua força de ataques aéreos ela não conduz o barco na região porque para o fazer deverá passar pela confrontação directa sobre o terreno, a menos que um acordo secreto de partição da Síria com a Turquia seja negociado mas mesmo neste caso, vê-se muito mal como é que partes com interesses tão contraditórios (Arábia Saudita, Irão, Israel, Estados Unidos) possam aceitá-lo. Parece pois  que se esta no melhor caminho para uma derrapagem. Se houver então posicionamento de tropas ocidentais no solo, será necessário efectivamente que estas se movimentem com o objectivo errado de fazer frente à Daesh, única disposição credível que poderia eventualmente provocar o apoio da opinião pública. É também isso que explica a profecia macabra de Manuel Valls [1] (espécie de anúncio antecipada de uma falsa bandeira espectacular?

Que saiba e que se repita, uma intervenção em terra feita pela coligação ou alguns dos seus aliados na Síria teria por único objectivo a mudança de regime à Damasco e para a Turquia, seria o esmagamento das forças curdas mas arrastaria também de facto o envolvimento em terra do Irão e da Rússia em números que seriam então importantes. O segundo acto do conflito na Síria chega pois ao fim. O terceiro e último acto está, do nosso ponto de vista, em vias de começar.

A França está presente na Síria mas realmente está fora da jogada. Os nossos soldados no terreno compreenderam-no bem desde que aí estão . Se neste último acto, a marcha dos acontecimentos se arrisca a assumir, como o tememos, a dimensão perigosa e aventurosa de uma intervenção em terra com a Turquia na vanguarda , a França mais que nunca será então envolvida e será no entanto incapaz com a flacidez de um Jean-Marc Ayrault de reexaminar a sua política estrangeira porque esta desde 2011 se enganou ao mesmo tempo quanto ao ocidentalismo, à guerra de civilização, à ideologia humanitária, tendo como barulho de fundo o assobiar das balas e a descolagem dos aviões Rafale.

Michel Lhomme, politólogo, Revista Metamag, Attentats : pourquoi Ankara? Texto disponível em:

http://metamag.fr/2016/02/18/attentats-pourquoi-ankara/

[1] Em  Munique, Manuel Valls também lembrou que  Paris não é “não favorável”  à criação e aplicação de  um mecanismo de distribuição dos migrantes na União europeia, como é proposto pela chanceler  alemã Angela Merkel. Se Valls saúda  “a mobilização e a capacidade de acolhimento dos Alemães”, ironizou igualmente sobre a posição muito liberal da  chanceler  Merkel. “Há alguns  meses, os meios de comunicação social franceses perguntavam  “onde é que está a  Merkel francesa? ”ou queriam dar o Prémio  Nobel à chanceler . Hoje, vêem-se os resultados… ”. afirmou ele num encontro com a imprensa francesa.

Para o primeiro-ministro, as soluções só podem ser extra europeias: “As soluções estão no Levante, na Turquia, na Jordânia, no  Mar Mediterrâneo.” Sarkozy não seria sem dúvida capaz de  tanto, Marine Le Pen não seria capaz de dizer metade  e uma parte  da direita é seduzida por este realismo.

Mas há o inverso da medalha.   Manuel Valls   parece igualmente  febril e de forma  permanente parece estar  à beira de um ataque de nervos.  Não deixa de andar a  agitar a hipótese do pior. É atingido do síndrome Aznar, levada por um atentado não previsto e mal assumido. Anuncia por conseguinte regularmente que vai haver ataques terroristas mortíferos e inevitáveis, com perspectiva de utilização de  armas químicas.

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Ler o original em:

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Para ler a parte I deste artigo de Michel Lhomme, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, clique em:

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