EDITORIAL – IDEOLOGIAS

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No filme de Sérgio Tréfaut,  Treblinka, a certa altura, a sobrevivente do campo de concentração confessa não suportar ouvir falar de ideologias devido à experiência que sofreu. Exprime também dúvidas sobre a religião. No nosso parlamento é frequente ouvir-se deputados atacarem as tomadas de posição de oponentes afirmando que as assumem por ideologia. Desde a década de 1950 que se fala de apaziguamento ideológico, fim das ideologias ou de outras teorias afins.

Afirmações são proferidas no sentido de equiparar uma dada ideologia a outra, sobretudo quando se pretende desvalorizar uma delas, com que não se simpatiza. Terá sido o que pretendeu recentemente o astro televisivo e escritor de romances de grandes tiragens Rodrigues dos Santos, recentemente, equiparando o fascismo ao marxismo. Sobre este assunto propomos que cliquem nos dois links abaixo.

Mas é pertinente fazer uma pergunta: o que é uma ideologia? O que quer dizer a palavra ideologia? No Grande Dicionário de Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, lemos: “s. f. Estudo das ideias e da sua origem. Sistema filosófico que considera as ideias em si mesmas. ||Fig. E fam. Filosofia vaga e confusa que pretende atingir um ideal irrealizável.” Realmente a segunda acepção parece mais próxima do sentido com que normalmente a palavra ideologia é utilizada. Mas deve-se referir que o Aurélio, entre várias acepções, diz “…3. Pol. Sistema de ideias dogmaticamente organizado como um instrumento de luta política”. Esta última acepção, menos acintosa que a referida anteriormente, é ainda mais próxima do significado corrente.

O descrédito da acção política é muito grande em largas camadas da população. Por isso são compreensíveis as referências pejorativas muito frequentemente empregues por cidadãos em relação à acção política. Menos compreensíveis são as que partem dos próprios políticos, afinal os principais responsáveis pela acção política. Quando se referem aos oponentes empregando o termo ideologia de modo negativo, deveriam lembrar-se de que a sua própria actuação também é desenvolvida segundo uma dada ideologia, para usar a acepção do dicionário Aurélio.

As ideologias têm uma vida própria, na medida em que são seguidas por muita gente, frequentemente de uma forma acrítica. Os mentores do neoliberalismo negaram durante bastante tempo que a sua ideologia estivesse em vigor, procurando assim prevenir que as críticas à sua actuação fossem dirigidas a alvos mais precisos. Afirmando não existir um corpo integrado de ideias a defender a liberdade de acumular ilimitadamente riquezas, com primazia sobre outros direitos e liberdades, procuravam esconder-se dos seus inimigos, e sobretudo das vítimas da sua ganância. Contudo, com certeza que qualquer acção política, desenvolvida de uma forma consequente obedece a uma ideologia. Conhecê-la e perceber as suas implicações é um direito dos cidadãos.

https://www.publico.pt/politica/noticia/o-fascismo-tem-origem-no-marxismo-1733362

https://www.publico.pt/politica/noticia/fascismo-e-quando-um-homem-quiser-1733440

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