Um olhar sobre a Europa a partir da Áustria | (3/3) As lições da Áustria – o populismo deve abandonar o societalismo por Jacques Sapir

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Um olhar sobre a Europa a partir da Áustria

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Uma pequena série dedicada aos meus amigos Joachim Becker, de Viena, e Luis Peres que de Viena veio encantado

(3/3) As lições da Áustria – o populismo deve abandonar o societalismo

Jacques Sapir

O malogro final do candidato do FPÖ na Áustria ilustra um facto indubitável: os partidos populistas, sobretudo quando são procedentes da antiga extrema-direita, continuam a meter medo. Para surfar sobre a crise política europeia, o FPÖ ou a FN deveria abandonar o terreno empresarial para concentrar-se sobre a proteção do Estado social e a identidade ao qual a maioria dos eleitores fica unida.

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Heinz Christian Strache (FPÖ), Marine Le Pen (FN) et Matteo Salvini (Ligue du Nord). Sipa. Numéro de reportage : AP21850796_000010.

A vitória do candidato dos ‘Verdes’ na eleição presidencial na Áustria e a falha (por pouco) do candidato do FPÖ, com uma diferença de cerca de 30 000 votos em 4,5 milhões de eleitores (0,66%), poderia ser vista como anedótica. E é, de uma certa maneira. Mas esse cenário revela um problema recorrente para os partidos populistas, seja na Áustria, França ou noutros lugares. Dir-se-á que o progresso do candidato do FPÖ foi impressionante entre a primeira e a segunda volta. Mas ela não permitiu que este ganhasse. E, em certo sentido, isto sobrepõe-se à observação de que poderia ser feito por ocasião das eleições regionais na França, em Dezembro passado.

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A União dos contrários

Uma primeira observação deve ser dita: os partidos populistas, especialmente quando eles são da velha extrema-direita continuam a meter medo . Isto continua a ser verdade independentemente de onde eles vieram. Este facto pode ser explicado de várias maneiras: a primeira é o estigma de ‘extrema-direita’ que lhes continua colado, com ou sem razão . Este estigma é regularmente revivido pelas declarações de alguns membros desses partidos . Note-se também que declarações tão escandalosas podem ser feitas por representantes de outros partidos e não têm as mesmas consequências políticas [2]. A segunda razão vem do posicionamento de clivagem sobre temas ‘societais’. No entanto, uma parcela significativa da opinião é particularmente sensível a estes temas, não porque lhe atribuam um valor fundamental, mas simplesmente porque – estes temas são “marcadores” numa sociedade aberta. Assim, os temas societais nunca arrastarão um voto de adesão mas tudo o que poderia parecer como posições de intolerância inquietam suficientemente uma parte maioritária do eleitorado .

O problema para esses partidos populistas consiste pois em não transformar em adversários eleitores que, noutras circunstâncias provem ser sensíveis aos temas políticos que eles desenvolvem. Porque o paradoxo não é aqui senão aparente, é no terreno político que estes partidos ou movimentos registam os seus maiores sucessos. É com base em enormes perdas de credibilidade do discurso político tradicional, juntamente com uma necessidade de um novo discurso político que estes partidos prosperam. O que, diga-se a este respeito, implica que eles são um sintoma de uma crise da política, não do político. Na verdade, eles situam-se totalmente num espaço democrático no momento ou que certos partidos tradicionais abandonam este mesmo espaço, como pode ser visto na França.

 

A contradição do populismo

 O discurso “somos contra …” e qualquer que seja o assunto, mesmo se uma oposição é legítima e justificada, quer contra a UE, contra o euro ou contra a lei El Khomri,  não convence

Mas é também necessário fazer uma outra observação. O discurso “somos contra …” e qualquer que seja o assunto, mesmo se uma oposição é legítima e justificada, quer contra a UE, contra o euro ou contra a lei El Khomri, não convence . Ou, mais precisamente, esta mensagem de oposição, se convence uma parte da opinião assusta uma outra que ao medir os problemas de algumas instituições ou mesmo em forma de desaprovação, mostra-se cheia de medos sobre o desconhecido. Deste ponto de vista, o principal adversário dos partidos e dos movimentos populistas é o conservadorismo de uma parte da opinião pública. É impressionante ver como os políticos dos aparelhos tradicionais usam esse medo do desconhecido. Este é hoje o único argumento que eles têm.

Este conservadorismo não será desarmado, mas sim reforçado por uma “moderação” dos aspectos políticos do programa. Isto não é tanto pela direcção de uma assim chamada “moderação” que esses partidos podem esperar encontrar a solução face ao problema que enfrentam: os sucessos da primeira volta das eleições e o fracasso no final da segunda volta. Pelo contrário, é somente levantando o véu de incerteza sobre o que seria a sua política se eles foram capazes de aplicá-la que eles vão resolver este problema. Mas isso significa de não se situarem apenas no registo de denúncia. Ora, esta importância da denúncia é uma característica do populismo. Este é o lugea onde se situa a contradição.

A grande aliança?

 Mas um programa anunciado, estruturado  e coerente, mesmo que se possa  ter face a ele alguns pontos de desacordo é menos preocupante do que a perspectiva de um salto para o desconhecido

É, pois, necessário voltar aos fundamentos da situação. Quer seja na Áustria, na Grã-Bretanha ou na França, a situação insatisfatória e o fracasso de várias instituições, do Euro à UE passando pelo sistema fiscal, pelo sistema de ensino e pelas práticas e modos de governação, está em grande parte bem evidente para uma larga maioria da população. Mas esta última espera saber o que será colocado no seu lugar. Claro, as expectativas podem ser opostas ou contraditórias. Mas um programa anunciado, estruturado e coerente, mesmo que se possa ter face a ele alguns pontos de desacordo é menos preocupante do que a perspectiva de um salto para o desconhecido.

É na base de um tal programa que alianças podem ser desenvolvidas e realizada. Porque, na falta de um verdadeiro programa essas alianças seria contraproducentes para os partidos ou movimentos, embora possam permitir que alguns de seus membros venham a fazer uma carreira pessoal. No caso francês, o que esperam os eleitores é um programa que lhes garanta que a política económica vai realmente mudar e irá servir o maior número e não uma minoria, que é um programa feito para assegurar que o estado de bem-estar vai ser defendido, que é um programa estabelecido com o objectivo de assegurar também que a identidade francesa será preservada, que é um programa estabelecido com o objectivo também de assegurar que a política externa francesa irá recuperar a sua independência e o papel internacional da França.

 A questão  que é posta  pelo resultado da eleição presidencial austríaca é a de se saber  se os partidos e os movimentos populistas hoje na Europa vão  crescer  e se vão ultrapassar esse populismo e apresentar aos seus  eleitores um programa coerente, articulado, respondendo assim  às aspirações da maioria dos seus eleitores.

É com base num programa desse tipo que as alianças podem ser forjadas e que os preconceitos de uma parte do eleitorado poderão ser vencidos.

A questão que é posta pelo resultado da eleição presidencial austríaca é a de se saber se os partidos e os movimentos populistas hoje na Europa vão crescer e se vão ultrapassar esse populismo e apresentar aos seus eleitores um programa coerente, articulado, respondendo assim às aspirações da maioria dos seus eleitores. Aqueles que o conseguirem fazer irão definitivamente quebrar este “telhado de vidro”, sob o qual se pensa colocá-los, arrumá-los.

Jacques Sapir, Les leçons de l’Autriche -Le populisme doit abandonner le sociétalisme, Texto disponível em :

https://russeurope.hypotheses.org/4977

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