AO REDOR DO LAROUCO (11) – O ENIGMA, por Rui Rosado Vieira

O ENIGMA

 

As noites eram longas e gélidas para as gentes da Aldeia dos Pássaros, situada em uma das abas da Serra do Larouco. Naqueles primeiros meses do ano, os trabalhos agrícolas, que no resto do ano ocupavam grande parte dos braços úteis da população, estavam paralisados.

A ausência de afazeres e o frio obrigavam as gentes a manter-se quase permanentemente no interior das habitações onde, só à custa de muita e boa lenha, conseguiam combater as baixas temperaturas existentes nas suas desabrigadas casas de granito.

Eram tempos de convívio intenso entre familiares e vizinhos, de demoradas conversas junto à lareira, de estórias de maus-olhados, de curas milagrosas, de bruxedos, de almas penadas deambulando no escuro da noite pelas ruas tortuosas da aldeia. Narrativas que para prender a atenção dos ouvintes necessitavam de, cada vez, conter mais mistério e fantasia.

Os dias decorriam e nem do pequeno café do largo do povoado, onde a cavaqueira e o jogo de cartas predominavam, chegavam novas que quebrassem a monotonia do quotidiano.

Mas eis que, de súbito, ocorreu algo de incomum, um daqueles acontecimentos em que a realidade supera a ficção.

Em um daquelas manhãs cinzentas e tristes, a ameaçar nevada, um jovem vindo da vizinha Galiza, entrou na zona florestal do Larouco e, sem que houvesse quaisquer motivos, ao cruzar-se com o guarda-florestal e sua mulher, matou ambos com tiros de espingarda.

Perturbado, o criminoso fugiu do local do crime, calcorreando, meio perdido, durante vários dias, os caminhos pedregosos da serra.

Após cinco dias de fuga, cansado, mal dormido e mal alimentado, decidiu procurar lugar onde pudesse prover-se de alimentos com que aliviar a fome.

Já exausto e desesperado, ao acercar-se de um ponto elevado do terreno, vislumbrou, ao longe, o casario cor de chumbo, constituído por pequenas habitações graníticas.

Tão rápido quanto as forças o permitiam, percorreu a distância que o separava da aldeia. Ali, ao abeirar-se das primeiras casas, logo se apercebeu que uma delas servia de mercearia e taberna. Sem hesitar entrou e, já encostado ao balcão, manifestou ao jovem que o atendeu, o desejo de adquirir algo para comer.

Larouco - Rui Vieira - I

Informado sobre os comestíveis à venda, optou por comprar um pão e meia dúzia de latas de atum.

Mal acabara de desenrolar a bolsa de pano em que havia de guardar as provisões, reparou que uma mulher, vinda do interior da loja, se aproximava, certamente, com o intuito de melhor o atender.

O jovem homicida, ao fixar o rosto da recém-chegada, não acreditava no que via. Aquela mulher não podia estar ali, como se nada lhe tivesse acontecido, uma vez que a matara, juntamente com o marido, cinco dias antes, lá no alto da floresta do Larouco.

Alucinado, renunciou ao que vinha, saindo da taberna a correr em direção às montanhas da vizinhança.

Protegido pelo denso arvoredo da serra procurou esconderijo onde descansar e se recompor da surpreendente visão que tivera.

Ali, escondido no interior de uma pequena gruta rochosa, tenta encontrar explicação para o misterioso fenómeno de, estar viva, a mulher que matara dias antes.

De olhos fechados, tentava recordar o momento imediato ao que, de arma em punho, quase à queima-roupa, disparara, primeiro sobre o guarda da floresta e logo de seguida sobre a mulher, e não vislumbrava quaisquer sinais de algum deles poder ter sobrevivido.

Após considerar as mais diferentes hipóteses, confuso e sem enxergar razões claras para tão estranho acontecimento, admitiu que, por motivos ignorados, talvez os cartuchos da espingarda fossem falsos e só contivessem pólvora, e como tal, provavelmente, ambos os membros do casal se conservassem vivos.

Este pensamento aliviava-lhe o enorme cansaço e o sentimento de culpa que dele se apoderara. Assim poderia terminar com os longos dias fome e frio, escondido como animal acossado entre fragas e matagais, entregando-se às autoridades, uma vez que não tinha assassinado ninguém. Exausto e determinado a acabar com tanto sofrimento, desceu à aldeia mais próxima e rendeu-se às forças da ordem.

Conduzido, pela G.N.R., à sede do concelho, foi entregue a agentes da polícia judiciária que para o efeito tinham vindo do Porto.

Iniciado o interrogatório, o suspeito foi inquirido no sentido de revelar os motivos que o tinham levado a disparar sobre o guarda-florestal e sua mulher. Respondeu declarando que não pretendera provocar danos sérios ao casal. Porém, por que tinha graves ofensas suas resolvera simplesmente assustá-los. Para tal utilizara cartuchos carregados com pólvora, mas desprovidos de projétil.

Os agentes da judiciária não percebiam o sentido daquela estranha confissão. Face ao absurdo da versão, comunicaram-lhe que o casal alvo dos disparos, não só tinha sido encontrado sem vida, como então, passada quase uma semana, já tinha sido sepultado.

O preso perturbado, não acreditava no que os polícias lhe diziam, continuando a afirmar que não matara nenhum dos membros do casal, acrescentando que podia comprovar ser verdadeiro o que confessara. Para tal bastava que o acompanhassem a certa aldeia do concelho, cujo nome indicou.

Larouco - Rui Vieira - II

Algemado, entrou num automóvel, acompanhado de dois agentes da judiciária, os quais, seguindo as indicações fornecidas pelas placas da estrada, em breve alcançaram o povoado indicado pelo incriminado.

Orientados pelo presumível criminoso, dirigiram-se à taberna-mercearia onde dias antes ele estivera para comprar alimentos.

Ainda na umbreira da porta, logo vislumbraram, em pé, no interior do balcão alguém para quem o suspeito exaltado apontou: vejam, aquela é a mulher que sou acusado de ter morto. Como podem ver está aí bem viva!

Enquanto um dos polícias se manteve fora da loja junto do acusado, o outro penetrou no interior da venda donde, após curta conversa com a mulher indicada pelo recluso, saiu calado e andar descontraído.

Já na rua, junto do colega e do preso, em voz alta, para que ambos ouvissem, disse: Está tudo esclarecido. Aquela mulher é irmã gémea da morta.

Larouco - Rui Vieira - III

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