EDITORIAL – Fernando de Bulhões

logo editorialHoje é o dia de Santo António. Fernando Martins, nascido cerca de 1190 em Alfama (a data tradicionalmente aceite é a de 15 de Agosto de 1195), nas imediações da Sé em cuja escola catedralícia  terá feito os primeiros estudos. A míngua de documentação credível sobre a sua pessoa, abre caminho a lendas e a suposições, incluindo a de que descendia de Godofredo de Bulhões, o cruzado. Não existem dúvidas quanto à sua condição de alfacinha e de vizinho de Alfama, mas a sua biografia está naquele campo nebuloso em que realidade e lenda se misturam. É chamado Santo António de Lisboa pelos lisboetas e por Santo António de Pádua no resto do mundo.

Os países  pequenos territorialmente, como é o caso de Portugal, acrescentam a razões que sempre se encontram para depreciar seja que nação for, a pequenez física. Le petit Portugal teve, no entanto, um papel decisivo na construção do mundo moderno . papel que la grande France, por exemplo, nunca teve, enredada como sempre tem estado na sua competição com Inglaterra – esses países centro-europeus concentraram contributos culturais que gente vinda da periferia foi dando ao longo dos séculos. Não somos patrioteiros, mas não suportamos o masoquismo que leva portugueses a dizer, mal eclode qualquer aleijão – tipo greve dos controladores aéreos do Aeroporto (Humberto Delgado), com os atrasos em chegadas e em cancelamentos de voos . «Isto só em Portugal!». De facto, temos tido chefes de Estado inacreditáveis – Américo Tomás ou Cavaco  Silva, são exemplos elucidativos . Mas será que Berlusconi, Sarkozy, toda a pirosa família real espanhola, o conjunto de personagens que tem transformado Buckingham num bordel, dão o direito a súbditos desses países importantes de nos ridicularizar. Porque tudo depende da forma e do ângulo  por que se fazem essas análises. A glória de França advém-lhe sobretudo dos seus escritores, pintores, filósofos… muitos deles oriundos das periferias. As lendas dos heroísmos militares só existem nas mentes gaulesas  e não fora um corso baixote… A «grande Alemanha» também pode ser a pátria de Karl Marx ou de Bertolt Brecht. como o covil de um louco austríaco….

E aqui bate o ponto: somos o País que se deixou dominar quase meio-século por um ditador manhoso e que depois, em democracia, elegeu um provinciano com passado politico duvidoso, o país que manteve uma guerra colonial para conservar os interesses de grandes famílias,  país que tem cinco milhões de emigrantes espalhados pelo mundo, ou somos o povo que construiu naves tecnologicamente avançadas e desenvolveu a cartografia? Somos ambas as coisas. Tal como os ingleses contam com génios como Shakespeare e com imbecis que se levantam de madrugada para ver passar o bebé real. Temos idiotas cujo cérebro está directamente ligado ao futebol e temos engenheiros que criam uma tecnologia de transístores feitos de papel que poderão revolucionar a comunicação social.

Fernando Martins (de Bulhões?) é um intelectual que conhece e cita os grandes clássicos, que estuda em Santa Cruz, em Coimbra, e se forma em Teologia na Universidade de Toulouse no ano de 1231, vindo s ser ali professor e depois em Montpellier, fixando-se em Pádua, onde também foi professor. O franciscano António-canonizado na catedral de Spoleto logo em 1232, transformou-se num santo popular que faz milagres corriqueiros, tais como o de ajudar a encontrar objectos perdidos e a reparar bilhas quebradas. Quando morreu, teria no máximo 41 anos, idade em, que quase oitocentos anos depois, há médicos a pedir bolsas para jovens, Fique Pádua com o frade milagreiro e deixe-nos este vizinho de Alfama  que tratava por tu os grandes filósofos da Antiguidade.

 

 

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