O LARGO DA VENDA
Tia Vicência era mulher castigada por uma longa vida de canseiras no amanho das pequenas parcelas de terra que herdara de seus pais. Delas retirava as batatas, cenouras, couves e outros legumes que constituíam a base da sua alimentação diária.
Era pessoa de hábitos simples e princípios rígidos.
As suas três ou quatro refeições diárias eram invariavelmente constituídas por uma caneca de vinho tinto, pequeno pedaço de carne de porco, duas ou três batatas e pequenas porções de diversas espécies de hortaliça que, em pote de ferro e em lume de lenha no chão, cozia durante horas, pacientemente.
Presava muito a limpeza, as gentes, e a paz do Largo em que residia, de cuja reputação se considerava, e gostava que a considerassem, guardiã.
Não só era a criatura com mais idade, como também a que há mais anos vivia naquela artéria da aldeia. Por isso, arrogava-se o direito de vigiar e criticar tudo o que pudesse alterar a tranquilidade e os costumes existentes há largas décadas naquele seu pequeno mundo.
O lugarejo, pobre e cinzento, erguido na encosta da serra, era habitado maioritariamente por pessoas de idade avançada. Os novos tinham emigrado para outras paragens à procura de melhor vida. Por tal razão, mais de metade das casas da povoação encontravam-se desabitadas.
O Largo da Venda, com os seus doze toscos edifícios de granito, dos quais só cinco se encontravam habitados, era bem o exemplo de desertificação que atingira o povoado.
As casas que bordejavam o terreiro, algumas de dois pisos, tinham, por regra, duas entradas. Uma, a principal, por vezes provida de “escaleira”, estava virada para o Largo; a outra, de entrada do carro de bois e do gado para a “corte”, encontrava-se nas traseiras, em contato direto com os campos vizinhos.
A venda de Tio Norberto – local de aquisição de mercearias e outros artigos de primeira necessidade – e, em especial, as “escaleras” de uma casa contígua, pertença de um casal emigrante em França, constituíam, respetivamente, ponto de passagem e de encontro das mulheres do Largo e das ruas mais próximas.
Era nas escadas daquela casa desabitada que, em dias de sol, sentado nos degraus de granito, o elemento feminino se aquecia e punha a conversa em dia.
Da residência de Tia Vicência, por ter dois pisos e se situar em local mais elevado, avistava-se não só o casario à volta da praceta, como os terrenos agrícolas circunvizinhos.
Cerca de uma dezena de metros mais à frente de sua casa, em espaço descendente, residia, com o respetivo marido, a sua melhor amiga – Joana, de seu nome.
O casal vizinho, ambos bem mais novos que Tia Vicência, também não tinha descendentes. Ali viviam, desde o casamento, há perto de duas dezenas de anos, felizes e sem grandes dificuldades económicas.

Joana ocupava-se das lidas da casa. Felizardo, assim se chamava o chefe da reduzida família, cultivava a meia dúzia de leiras e lameiros de que era proprietário, donde retirava as hortaliças e tubérculos necessários à alimentação de ambos. Os excedentes, e eram muitos, serviam de alimento ao burro, que o ajudava nas suas deslocações para fora da aldeia, e para sevar dois porcos que, na altura própria, abateria e transformaria em enchidos e em carne para cozinhar, de que se alimentariam ao longo do ano. Além disso, também era dono um pequeno rebanho de ovelhas que, diariamente, pastoreava nas pastagens verdes do sopé da serra.
Tia Vicência não tivera filhos, e vivia só, em sua casa, desde a morte do marido há cerca de vinte anos, onde, depois dele, mais nenhum homem entrara.
Uma das virtudes que mais apreciava era a fidelidade aos maridos, enquanto vivos, e o respeito pela sua memória, depois de partirem deste mundo. Opinião que, sempre que o assunto vinha à conversa, era fervorosamente perfilhada pelas suas colegas de paleio.
Entretanto, a Primavera assentara arraiais, as plantas reverdeciam e o chilrear alegre da passarada fazia-se ouvir um pouco por todo o lado.
O calor e o número de horas de sol cresciam de intensidade, bem como a animação das conversas das mulheres que se reuniam nas “escaleras” existentes nas cercanias da venda de Tio Norberto.



