FRATERNIZAR – Maternidade de substituição – Que dizemos ao veto do PR Marcelo? – por MÁRIO DE OLIVEIRA

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As perguntas são de uma jornalista. As respostas são minhas. A entrevista acabou por não sair. Fica aqui, agora, como Texto FRATERNIZAR:

 

1- O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, vetou recentemente o diploma sobre a maternidade de substituição. Qual é a sua posição relativamente a esta decisão?

Discordo em toda a linha. Como discordo em toda a linha com o catecismo moralista que ele segue, na peugada do cardeal de Lisboa, Manuel Clemente. Um catecismo concebido por elites clericais ricas e poderosas, destinado a manter as populações empobrecidas e os povos empobrecidos politicamente submissos, sequestrados, incapazes de fecundas e saudáveis rebeliões-conspirações políticas desarmadas transformadoras da realidade social e económico-financeira. Trata-se de um moralismo imoral decorrente de uma fé religiosa e de uma teologia com tudo de idolatria, uma vez que faz referência a deus falso, mascarado de religião ou de ateísmo, conforme os gostos e as tendências, criado-cultuado para justificar este tipo de mundo do grande Poder financeiro. Onde a vida humana de qualidade para todos é impossível, porque só uma minoria tem acesso a ela, enquanto a esmagora maioria se vê condenada a um viver vale de lágrimas, sobretudo, nos continentes da fome e da pobreza estrutural em massa.

2- De acordo com o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, o contrato subjacente à “gestação de substituição” causa preocupação e não salvaguarda os direitos da criança e da mulher gestante. Concorda?

Por trás do chavão, “Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida” quem é que está? Não, não estão as mulheres que aspiram a ser mães e se vêem incapacitadas para tal, ou porque já nasceram assim do útero das suas mães, ou porque graves acidentes de percurso a isso as condenaram. Está, sim, uma elite cujo conceito de Ética não inclui as mulheres, muito menos as mulheres portadoras de graves deficiências. É uma Ética elitista, por isso, só para quem está bem na vida e que, perante dificuldades legais do nosso país, pode sempre viajar até outros países e resolver lá fora o que lhe é negado cá dentro. A lei aprovada no Parlamento e vetada pelo PR Marcelo, até com bastantes votos de deputados do seu próprio partido, é uma lei bem pensada, bem fundamentada, bem estruturada, eticamente saudável. Saúdo vivamente quantas, quantos a ajudaram a vir à luz. Reprovo quantas, quantos tentam boicotá-la. Em vão. Porque, felizmente, a última palavra, neste caso, cabe ao Parlamento, não ao PR Marcelo que mais parece um bobo da corte, com uma necessidade incontrolável de aparecer todos os dias nos telejornais do país. O comentador semanal que foi durante anos e anos não só não morreu, como até se vê agora reforçado, porque é o comentador-mor do reino, hora a hora, não apenas dia a dia, muito menos, semana a semana.

3- Depois do veto do Presidente da República, quais serão os próximos desenvolvimentos?

É mais do que sabido. A lei regressa ao Parlamento e os deputados poderão ter ou não em conta os reparos do PR Marcelo, fundamentar ainda mais e melhor os direitos das mulheres que aspiram a ser mães e só lhes resta recorrer a meios que esta Lei em boa hora aprovada no Parlamento, mas ainda não publicada e em vigor, lhes oferece. Não há – não pode haver! – cedências por parte do Parlamento ao moralismo imoral do PR Marcelo, do cardeal de Lisboa, Manuel Clemente, da Conferência Episcopal Portuguesa, da Comissão de Ética, muito pelo contrário. A união dos deputados será ainda maior e ao PR Marcelo não resta alternativa que não seja assinar e fazer publicar a Lei. Saúdo desde já esse dia. E congratulo-me com as mulheres beneficiadas por ela e também com as mulheres que, generosa e gratuitamente, venham a aceitar o serviço de maternidade de substituição, para que outras mulheres impedidas por grave deficiência de gerar e dar à luz filhas, filhos, possam ser, por intermédio delas, verdadeiras mães.

4- A posição da Igreja é absolutamente conhecida. “É uma prática desonesta”. O que tem a dizer?

A igreja católica, da qual sou presbítero-jornalista, não sabe nada da vida e do seu denso e desafiador Mistério. Não é Igreja-povo-de-Deus, como quis o Concílio Vaticano II, no início da segunda metade do século XX. É absurdamente hierarquia ou poder sagrado, celibatária à força, sexualmente castrada, constituída exclusivamente por homens-sem-mulher-e-sem-família, mais ou menos misóginos, de todo incapazes de perceber o feminino e Deus Abba-Mãe que nunca ninguém viu e que se nos dá a conhecer em Jesus Nazaré, o filho de Maria. As suas posturas em matéria de sexualidade humana são um desastre completo. Melhor fora que nunca tivessem nascido para serem o que acabaram por ser. Deixaram de ser filhos de mulher, para serem filhos do poder, eles próprios o poder sagrado. Seguem, ou fingem seguir, um imaginário deus macho, autoritário, distante, omnipotente, omnisciente, omnipresente, absolutamente incapaz de afectos, especialista em tortura, como é a cruz que lhes serve de identificação e ao cristianismo que professam. Nem eles sabem que a cruz é o principal instrumento de tortura do império romano, o mesmo que, no início do século IV, fez do cristianismo e da cruz a sua religião oficial e única. Exactamente, a mesma cruz, na qual ele, em Abril do ano 30, quando então ocupava militarmente a Palestina, nomeadamente, a Judeia e Jerusalém, crucificou Jesus Nazaré, o filho de Maria, e, desse modo, fez dele o maldito para sempre, segundo a Escritura, ou Bíblia Sagrada!

5- Que mensagem lhe apraz deixar a todos os casais a quem lhes foi retirada esta nova esperança?

Aos casais que se vêem violentamente atingidos por este veto presidencial e eclesiástico católico, digo que não deixem tudo nas mãos dos deputados. Movimentem-se de forma organizada, para que os seus direitos a ser mães, pais sejam respeitados. E sê-lo-ão, tenho a certeza. Há um compasso de espera, mas a almejada Lei será publicada. Quanto à hierarquia católica e ao PR Marcelo, católico de sacristia e por conveniência pessoal, não hesitem em reconhecer que não estão com eles, muito menos com as suas legítimas aspirações a serem mães e pais de verdade. A partir de agora, sabem de que lado eles estão. Defendam-se deles e das suas catequeses-doutrinas moralistas, um veneno escondido sob o rótulo de doutrina cristã. Saibam que o cristianismo e respectivas igrejas não são amigas dos seres humanos e dos povos, muito pelo contrário. O mais aonde chegam é à caridadezinha e aos bancos alimentares contra a fome. Mas são elas que abençoam os grandes grupos financeiros que produzem os pobres, a fome e a maior parte das doenças que hoje nos afligem. Acaba de ser feita mais uma prova real. O resultado final é um inequívoco chumbo. Autonomizem-se, quanto antes, das paróquias e das suas catequeses moralistas. E defendam com todas as forças as vossas filhas, os vossos filhos de tais doutrinas e de tais ambientes.

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