A LONGA VIAGEM PARA A AMÉRICA, conto por LEONARDO SCIASCIA – tradução de MANUEL SIMÕES

contos2 (2)

Leonardo_Sciascia2

[Leonardo Sciascia (1921 – 1989) foi um escritor italiano que elegeu a Sicília como tema privilegiado da sua notável obra literária:  “Gli zii di Sicilia”, contos (Os Tios da Sicília, 1958); “Il giorno della civetta” (O dia da coruja, 1961); “Il Consiglio d’Egitto” (O Conselho do Egipto, 1963); “A ciascuno il suo” ( A cada um o que lhe pertence, 1966); “Il contesto” (O contexto, 1971); “Il mare colore del vino” (O mar cor do vinho, 1973); e “Todo Modo” (1974)]

A Longa Viagem para a América

Estava uma noite que parecia feita de propósito, uma obscuridade  coalhada que, movendo-se, quase se lhe sentia o peso. E metia medo o respirar daquela  besta que era o mundo, o som do mar, um respirar que vinha morrer aos seus pés.

Com as suas malas de cartão e os seus embrulhos, estavam  num pedaço de praia pedregosa, protegida por colinas, entre Gela e Licata: tinham aí chegado ao anoitecer e  partido de madrugada das suas aldeias; aldeias interiores, longe do mar, agrupadas na árida chaga do feudo. Alguns deles viam pela primeira vez o mar: e assustava o pensamento de ter que o atravessar todo, daquela praia deserta da Sicília, de noite, para outra praia deserta da América, também de noite. Porque o pacto era este – Eu embarco-vos de noite – tinha dito o homem, uma espécie de caixeiro-viajante dado o modo como falava mas sério e honesto no rosto – e de noite vos desembarco: na praia de Nujorsi vos desembarco, a dois passos de Nova Iorque… E quem tem familiares na América pode escrever-lhes para que esperem na estação de Trenton, doze dias depois do embarque… Façam a conta vocês… Certamente que não posso assegurar o dia preciso: suponhamos que o mar está agitado, supunhamos que a guarda-marinha está a vigiar… Um dia a mais ou a menos não tem importância: o importante é desembarcar na América.

O importante era deveras desembarcar na América; como e quando  não tinha importância. Se aos seus familiares chegassem as cartas, com aqueles endereços confusos que conseguiam escrever nos envelopes, chegariam, também eles; «quem tem língua passa o mar», dizia justamente o provérbio. E passariam o mar, aquele grande mar obscuro; e chegariam aos “stori” e às “farme” da América, ao afecto dos seus irmãos, tios, sobrinhos, primos; às quentes, ricas e abundantes casas, aos automóveis grandes como casas.

Duzentas e cinquenta mil liras: metade à partida, metade à chegada. Traziam-nas, à maneira de escapulários, entre a pele e a camisa. Tinham vendido tudo o que possuiam para as juntar: a casa térrea, a mula, o burro, as provisões do ano, a cómoda, as mantas. Os mais astutos tinham recorrido aos usurários, com a secreta intenção de os enganarem, uma vez, ao menos, depois de anos em que lhes suportavam a tirania: e já gozavam de satisfação só com o pensamento da cara que fariam ao receberem a notícia: «Vem procurar-me na América, sanguessuga; talvez te dê o teu dinheiro, mas sem juros, se conseguires encontrar-me». O sonho da América transbordava de dólares: não mais o dinheiro guardado nas velhas carteiras ou escondido entre a camisa e a pele, mas metido com negligência nos bolsos das calças, tirado às mãos cheias como tinham visto fazer aos seus parentes, partidos sem nada, magros e queimados do sol; e que, depois de vinte ou trinta anos, voltavam para umas breves férias, com a face lisa e rósea que contrastava com os cabelos brancos.

Eram já onze horas. Um deles acendeu uma lanterna de bolso: o sinal de que podiam vir buscá-los para os levar para o barco. Quando a apagou, a obscuridade pareceu mais densa e de meter medo. Mas alguns minutos depois, do respirar obsessivo do mar aflorou um mais humano, um doméstico som de água: como se baldes se enchessem e esvaziassem, com ritmo. Depois sentiu-se um rumor, um palrar submerso. Encontraram-se diante do senhor Melfa, com este nome conheciam o empresário da sua aventura, ainda antes de ter percebido que o barco tinha chegado a terra.

– Estamos todos? – perguntou o senhor Melfa. Acendeu a lanterna, fez as contas. Faltavam dois. Talvez se tenham arrependido, talvez cheguem mais tarde… Pior para eles, de qualquer maneira. E estamos aqui a esperá-los com o risco que corremos?

Tiodos disseram que não valia a pena esperá-los.

– Se algum de vós não tem o dinheiro à mão – avisou o senhor Melfa – é melhor refazer o caminho e voltar para casa, porque se pensa fazer-me uma surpresa a bordo, está muito enganado; levo-vos a todos para terra como é verdadeiro deus. E que, por um, tenham que pagar todos, não é coisa justa:  portanto, quem for o culpado levará de mim e dos companheiros um pontapé que recordará para sempre, se não for pior.

Todos asseguraram e juraram que o dinheiro existia até ao último cêntimo.

– Embarcar – disse o senhor Melfa. E de repente cada um dos viajantes tornou-se numa informe massa, um confuso cacho de bagagens.

– Por Deus!, trouxeram a casa com vocês? – começou a desfiar impropérios: e acabou quando toda a carga, homens e bagagens,  se arrumou no barco com o risco de que um homem ou um embrulho acabasse no mar. E a diferença entre um homem e um embrulho consistia, para o senhor Melfa, no facto de que o homem trazia as duzentas e cinquenta mil liras cosidas no casaco ou entre a camisa e a pele. Ele conhecia-os, conhecia-os bem, estes camponeses obstinados e rústicos.

                                                           ***

A viagem durou menos do que o previsto: onze noites, incluindo a da partida. E contavam as noites em lugar dos dias, visto que as noites eram de atroz promiscuidade, sufocantes. Sentiam-se imersos no cheiro a peixe, a nafta ou a vómito, como num líquido quente, de negro betume. Disso escorriam de madrugada, arrasados, quando subiam para se embeberem de luz e de vento. Mas como a ideia de mar era para eles o plano verdejante de searas quando o vento as agita, o mar verdadeiro aterrava-os:  as vísceras espremiam-nos, os olhos ardiam-lhes dolorosamente com a luz, mesmo olhando-a de relance.

Mas na undécima noite o senhor Melfa chamou-os à coberta: e num primeiro momento acreditaram que densas constelações tivessem descido para o mar como rebanhos; e, em vez disso, eram lugares, lugares da rica América que, como jóias, brilhavam na noite. E a própria noite era um encanto: serena e doce, uma meia-lua que corria entre uma transparente fauna de nuvens, uma brisa que consolava os pulmões.

– Aqui têm a América – disse o senhor Melfa.

– Não corremos o risco de estar noutro lugar? – perguntou um deles, dado que, durante toda a viagem tinha pensado que, no mar, não existem nem estradas nem caminhos, e era um milagre percorrer a via justa, sem se enganar, conduzindo um barco entre céu e água.

O senhor Melfa olhou-o com compaixão, perguntou a todos – Já alguma vez viram, lá para os vossos lados, um horizonte como este? E não sentem que o ar é diferente? Não vêem como brilham estes lugares?

Todos concordaram, com compaixão e ressentimento olharam para o companheiro que tinha ousado uma tão estúpida pergunta.

– Façamos as contas – disse o senhor Melfa.

Procuraram debaixo da camisa, pegando no dinheiro.

– Preparem as vossas coisas – disse o senhor Melfa depois de guardar o dinheiro.

Foram precisos pouco minutos: tendo quase esgotado as provisões de viagem que tinham trazido, só restava alguma roupa e os presentes para os familiares da América: alguns queijos de ovelha, algumas garrafas de vinho velho, alguns bordados para colocar ao centro da mesa ou nas costas dos sofás. Desceram para o bote sem dificuldade, rindo e cantarolando; e um deles pôs-se a cantar em voz alta, mal o bote se pôs em marcha.

– Vocês não perceberam nada? – disse o senhor Melfa. – Querem  meter-me em sarilhos?

Logo que vos deixe em terra, podem correr para o primeiro chui que encontrarem para que vos faça repatriar com o primeiro transporte: estou-me nas tintas, cada um é livre de matar-se como quer… Por mim, cumpri o combinado: aqui é a América, o meu dever cumpri-o… Mas dêem-me o tempo de voltar para bordo, almas do diabo!

Deram-lhe mais do que o tempo para tornar a bordo: ficaram sentados na fresca areia, indecisos, sem saber o que fazer, bendizendo e maldizendo a noite, cuja protecção, enquanto estavam parados na praia, se poderia mudar em terrível cilada se ousassem afastar-se.

O senhor Melfa tinha recomendado: – dividam-se -, mas ninguém conseguia separar-se dos outros. E sabe-se lá quanto distava Trenton, quanto tempo era preciso para chegar.

Sentiram, ao longe e de modo irreal, um canto. «Parece um carreiro nosso», pensaram; e que o mundo é igual em toda a parte, por todo o lado o homem exprime em canto a mesma melancolia, a mesma dor. Mas estavam na América, as cidades que cintilavam por detrás do horizonte de areia e de árvores eram da América.

Dois deles decidiram ir explorar. Caminharam na direcção da luz porque a povoação mais próxima se reflectia no céu. Quase imediatamente encontraram a estrada: «asfaltada, bem conservada,  é diferente das nossas», mas, na verdade, esperavam que fosse mais larga, menos sinuosa. Permaneceram fora da estrada para evitar encontros: seguiam-na caminhando entre as árvores.

***

Passou um automóvel: «parece um seiscentos»; e depois um outro que parecia um mil-e-cem, e outro ainda: «eles têm os nossos carros por capricho, compram-nos aos filhos como fazemos nós com as bicicletas». Depois passaram, ensurdecedoras, duas motos, uma atrás da outra. Era a polícia, não se podia errar: ainda bem que tinham ficado fora da estrada.

E eis que finalmente encontraram as setas. Olharam para todos os lados, entraram na estrada e aproximaram-se para ler. «Santa Croce Camarina – Scoglitti».

– Santa Croce Camarina: não me é estranho este nome.

– Também a mim me parece; e nem sequer Scoglitti me é estranho.

– Talvez algum dos nossos parentes  habitasse aqui, talvez o meu tio antes de se transferir para Filadélfia, porque recordo que ele estava noutra cidade antes de ir para Filadélfia.

– Também o meu irmão, estava noutro lugar antes de ir para Bruquilin… Mas como se chamava não me recordo: e, além disso, nós lemos Santa Croce Camarina, lemos Scoglitti; mas como lêem eles não o sabemos, o americano não se lê como se escreve.

– É isso, a coisa boa do italiano é esta: tu lês como está escrito… Mas não podemos passar aqui a noite, é preciso encher-se de coragem… Eu, o primeiro automóvel que passa, mando-o parar: perguntarei apenas «Trenton?»… Aqui as pessoas são mais educadas… Mesmo que não percebamos o que dizem, deixarão escaparr um gesto, um sinal e, pelo menos, perceberemos de que lado é esta maldita Trenton.

Da curva, a vinte metros, despontou um Fiat quinhentos: o automobilista viu-os deslizar diante de si, com as mãos levantadas para o fazer parar. Travou, proferindo insultos: não pensou num roubo porque a zona era uma das mais calmas; acreditou que pedissem boleia, abriu o vidro.

– Trenton? – perguntou um dos dois.

– O quê? – disse o automobilista.

– Trenton?

– Mas que trenton do caraças – imprecou o homem do automóvel.

– Fala italiano – disseram entre si, olhando, como para se consultarem, se não seria o caso de revelarem a um compatriota a sua condição.

O automobilista fechou o vidro, ligou o carro. Retomou a marcha e só então gritou aos dois que ficaram na estrada como estátuas: – bebedolas, cornudos bebedolas, e filhos da… – o resto perdeu-se na distância.

Alastrou o silêncio.

– Estou a recordar-me – disse, depois dum momento, aquele para o qual o nome de Santa Croce não parecia estranho – a Santa Croce Camarina, num ano mau lá para os nossos lados, veio meu pai para a ceifa.

Atiraram-se, abatidos, para a orla da valeta: não havia pressa em levar aos outros a notícia que tinham desembarcado na Sicília.

21 de Outubro de 1962

Leave a Reply