PEDRO OOM NASCEU HÁ 90 ANOS – por Carlos Loures

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Colaborou no 1º número da Pirâmide, mas foi o Mário Cesariny de Vasconcelos que me entregou sua colaboração. Nesse ano de 1959, ou não frequentava  o  Café Gelo ou fazia-o a horas diferentes das minhas. Vi-o duas ou três vezes.

Pedro dos Santos Oom do Vale, nasceu em Santarém no dia 24 de Junho de 1926 e morreu em Lisboa em 26 de Abril de 1974. Esteve ligado ao neo-realismo, vindo a ser, no final da década de 40, um dos fundadores  do Grupo Surrealista de Lisboa e, depois do grupo dissidente, designado simplesmente por os surrealistas. Criou a teoria abjeccionista, redigindo em 1949 o Manifesto Abjeccionista, texto que se perdeu. Dedicou-se, entretanto, com entusiasmo, ao xadrez modalidade na qual se distinguiu. Morreu no dia 26 de Abril de 1974, pelas duas e trinta da tarde, no Restaurante “13” quando, com alguns amigos, celebrava a Revolução – segundo o António José Forte, que era um dos convivas, me contou, a alegria de ver os odiosos agentes da PIDE a fugir pelos telhados contíguos ao quartel-general da sinistra corporação, provocou-lhe uma alegria tão intensa que caiu vitimado  por um ataque cardíaco. No livro  “E Tudo Era Possível” (Clube do Autor, 2013), Pedro Oom terá falecido no dia 30 de Abril de 1974, “fulminado por um ataque cardíaco”, no aeroporto da Portela, no regresso do exílio em Paris de José Mário Branco, Luís Cília e Álvaro Cunhal. “Um poeta surrealista acabara de morrer, na hora da celebração do regresso dos exilados à pátria reconciliada com a liberdade e com a promessa de um futuro democrático”, escreveu José Jorge Letria. No entanto, a versão do Forte é confirmada por mais pessoas. Num artigo que escrevi há tempos, mal informado, afirmei que Oom morrera no próprio dia 25.

Não é fundamental saber se morreu no «13» do Bairro Alto ou no Aeroporto; se a 26, se a 30 de Abril. Importa, sim,  destacar a importância da sua obra literária, poética e panfletária, de uma escrita fortemente influenciada pelo surrealismo, servindo-se de imagens insólitas e impregnada de uma ironia violenta e mordaz, obra que ficou dispersa por jornais e revistas, entre as quais a Pirâmide (1959-1960) de que fui um dos responsáveis . Apenas em 1980 foi reunida e publicada postumamente nos dois volumes de Actuação Escrita.

Quando, em 1959, organizei a revista Pirâmide, ele colaborou no primeiro número com o poema inédito “Um ontem cão” (que não transcrevo por ser muito longo). Estive depois uns anos sem o ver, pois saí de Lisboa. Voltámos a encontrar-nos em 1973. Encontrávamo-nos, num dia certo da semana, num restaurante da Rua João Crisóstomo, o Forte, a pintora Aldina, sua mulher, eu e a minha mulher, o Jaime Camecelha, o Pedro Oom, que éramos o núcleo duro do projecto, e mais alguns que apareciam com menos regularidade.

O Pedro só deixava revelar o poeta surrealista que o habitava quando falava. O seu aspecto era muito formal – roupa cuidada, gravata… Ninguém diria o que ia por aquela cabeça – a criatividade, as ideias inusitadas, mas de uma lógica impecável. E dizia todas aquelas inesperadas coisas., numa voz baixa, contida, com palavras muito correctas – só as ideias eram surpreendentes – a da comuna, por exemplo.

No Restaurante (Pelé, salvo erro) falávamos da queda do regime (tínhamos acesso aos comunicados que saíam das reuniões do MFA) e projectávamos criar uma comuna, uma espécie de falanstério. A ideia fora lançada pelo Pedro. Chegámos, eu e o Jaime num fim-de-semana, a ir ver terrenos no Ribatejo – iríamos todos viver para lá e seríamos auto-suficientes. Era um projecto que o Pedro pensara ao pormenor e de que um dia talvez aqui fale. Andávamos muito entusiasmados com a ideia.

Com a morte do Pedro Oom, o utópico projecto não voltou a ser debatido.

Na minha opinião, surrealismo e neo-realismo não são movimentos vincadamente antitéticos. Poetas como Paul Éluard, através de uma forma subsidiária do surrealismo, são de um agudíssimo realismo. Entre nós, Pedro Oom é um exemplo simbiose entre temas realistas que respiram por uma forma surrealista.

Alguns desses textos poéticos, foram postumamente compilados em Actuação Escrita (1980) e em Histórias para Crianças Emancipadas, pequenos poemas ou relatos escritos com um aparentemente insólito non sense próprio da poesia surrealista. Como o poema «Pode-se escrever» que podemos ouvir, declamado por Mário Viegas.

 

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