Não é possível imaginar o impacto que teria nos meios de comunicação um acontecimento como o que ocorreu na noite de 19 de Outubro de 1921, quando marinheiros e arsenalistas percorreram Lisboa numa camioneta recolhendo elementos do Governo e assassinando-os. Foi a chamada «Noite Sangrenta» em que, reagindo contra a demissão do governo de Liberato Pinto, foi assassinado António Granjo, novo chefe do Governo e muitos outros, incluindo figuras históricas da Proclamação da República, tais como Machado dos Santos e José Carlos da Maia, entre muitos outros. Na Alemanha, na noite de 30 de Junho para 1 de Julho de 1934, foi levada a cabo um expurgo em que Hitler suprimiu toda a oposição, incluindo as figuras do Partido Nazi que se lhe opunham, tais como Gregor Strasser – noite sangrenta que se conhece sob a designação de “A Noite das Facas Longas” (Nacht der langen Messer).
Ernst Röhm liderava uma facção que contava com três milhões de apoiantes dentro do Partido Nacional Socialista. Röhm queria desencadear uma “segunda revolução” para redistribuir a riqueza na sociedade alemã. As teses de Röhm colidiam com as da ala mais radical personificada por Hiltler que fora nomeado chanceler. O chanceler podia ter encetado um debate parlamentar; porém, isso seria moroso – executou um expurgo em que, durante a noite, foram mortos 85 adversários políticos, e presos milhares de outros- militantes nazis e de outros partidos Hitler não tinham paciência para debates. Para ele, a sua razão era tão evidente que discuti-la era pura perda de tempo. Um ataque nocturno das SS, tropa de elite, valeu por mil discursos. A Gestapo e os seus interrogatórios letais completou o trabalho.
O expurgo consolidou o apoio do Reichswehr a Hitler, e proporcionou o suporte jurídico para o nazismo. Toda a estrutura político-militar compreendeu que era mau para a saúde não aprovar com celeridade tudo o que o chanceler e a sua matilha de rotweillers propunha. Contraste com o sistema de Salazar que consistia em manter um parlamento mais afinado que o coro infantil de Santo Amaro de Oeiras. Hitler ladrava, Salazar piava, Mussolini sacudia as asas como um vistoso papagaio… Hoje, tudo é diferente. Na nossa AR aplaude-se os discursos dos correligionários, por mais estúpidos que sejam, faz-se chacota do que vem da bancada adversária, joga-se no tablet e passa-se pelas brasas.
Atenção: não estamos a dizer que era preferível a camioneta fantasma à tontice de alguns deputadosl. Lamentamos é que os pressupostos da Revolução Francesa continuem por atingir.
