3. Reversões da bruma
Virgílio Vossler, o patriarca, o meu Pai, era um homem muito severo. Quase um gigante, bigodes brancos e arrebitados, metia medo. Gostaria eu de ter a sua estatura mas, infelizmente, saio ao lado materno.
Frigia, a minha irmã, é que sai ao Pai, é até mais alta do que eu. Isto sem falar na altivez, iguaizinhos que eles eram, pai e filha.
Quando eu tinha mais ou menos 18 anos, o velho Virgílio agarrou-me por um braço, tinha mão de ferro, e disse-me:
— Eurico, és um caso perdido. És o primogénito mas, infelizmente, és incapaz de comandar. Guiaste apenas por impulsos. Não pensas, não raciocinas a frio, nunca sabes qual é o objectivo principal, pareces uma bússola doida, a agulha sempre a girar à procura do norte sem nunca o encontrar. Por desgraça nossa não tens irmãos, só tens uma irmã. És o herdeiro maior de uma das principais fortunas da Província de Palmira. Tivesse Frigia nascido homem e tudo poderia ser diferente. Apesar de filho segundo não hesitaria em passar o comando da família para as suas mãos. Mas nasceu mulher, azar nosso, também teu.
— Meu? Porquê meu?
— Porque vais levar a nossa Casa à ruína, é o que eu prevejo. Tu é que devias ser a donzela irascível e Frigia é que devia ser o rapaz destemido, o homem de muito querer. E eu pergunto: o que vai ser da tua vida, o que vai ser do nosso império assim que eu fechar os olhos?
O sermão aconteceu logo depois de eu ter abandonado o quarto onde, por birra, ficara trancado durante uma semana. Sem comer nem beber, nem sequer atender a quem me batia à porta. A minha Mãe, coitada, era a mais insistente. Plantou-se no corredor durante os sete dias da minha clausura voluntária. Lamentava-se, chorava muito, e eu lá dentro a fingir a indiferença. Motivo da birra: o meu cavalo caíra, partira a mão direita, tivera de ser abatido. A raiva e o desgosto é que me empurraram para a solidão do meu quarto. Gostava muito daquele bicho, o Bucéfalo vinha comer à minha mão, era capaz de conduzi-lo sem rédeas, nem sela, nem esporas, bastava um toque de joelhos. Bucéfalo, tal e qual o cavalo guerreiro de Alexandre Magno, o meu herói…
O meu Pai lá teria as suas razões para não confiar em mim. Realmente, não sei ainda hoje o que fazer da vida. Já tenho sessenta anos, acabei de fazer o cálculo. Mas já tive quarenta, já tive vinte e quinze e dez. Tudo me parece estar a acontecer num só presente. Faço um grande esforço para conceber o que seja ontem e anteontem. Concluo que tempos idos são agora reversões da bruma.
Dinheiro nunca me faltou no bolso. E no banco, à minha ordem. Desde sempre fui o herdeiro e herdeiros não podem levar vida de pelintra. O que não impede que tudo seja sempre muito monótono, repetitivo. Não tenho pachorra para ouvir o que já espero ouvir, as convenções, as parvoíces, as patacoadas dos outros. Não suporto os realejos a tocarem sempre a mesma melodia.
Casei porque tinha de casar, era a tradição. Não queria mas transigi, sacrifiquei-me pela família, era preciso herdeiro para continuar a Casa Vossler. Tenho ou tive dois filhos, César e Marco. Desses eu gostava, gosto muito. A minha esposa morreu de cancro nos ovários quando César, o mais velho, tinha apenas seis anos. Marco tinha quatro. Tanto amor lhe dedicava que não sou capaz de recordar as suas feições… Os meninos foram criados por Sara, a nossa cozinheira. Ela é que foi a verdadeira mãe-preta dos meus filhos. Até nisso falhei. Eu deveria era ter casado outra vez para que uma senhora branca cuidasse, como devia ser, da educação dos rapazes. Mas casar não quis, já chegava de rotina. Preferi andar na estroina com mulheres da vida e coristas em tournée. Fui muito censurado pelas mães de donzelas casadoiras.
Sempre me dei bem com os meus filhos. Nunca fiz imposições, nada exigi, dei-lhes sempre o que pediram. Fui exactamente o oposto do velho Virgílio Vossler. Quando tinham 16 e 18 anos mandei os rapazes para a Capital, a estudar. Mas um ano depois aconteceu a peste e até agora eles não voltaram.
Acho que não voltaram, mas nem disso tenho a certeza. De nada tenho a certeza, cá está a bússola doida. Talvez eles tenham regressado para aqui serem mortos porque eu não pude ou não quis reconhecê-los. Quando a agonia se torna insuportável, deixo que a bruma outra vez me enfie o capacete e assim me desligo da ronçaria. Só nessas ocasiões é que os outros me deixam em paz. Tornam-se tolerantes, respiram simpatia. É muito gratificante regressar à bruma, estou sempre a flutuar, maré me leva. Às vezes sou atirado contra um rochedo e nessas ocasiões volto a reparar que sou lilás e recordo a peste: o vírus, a febre, a mudança de pele, os cabelos alisados, os linchamentos, os suicídios, a infiltração dos pretos! Pudesse eu descascar a nova cor…
Seis meses depois da peste, Frigia casou com Alfonso Biarni. Pelas maneiras e pelo porte seria, evidentemente, um Senhor. Homem de fortuna, nascera e vivia na Capital quando eclodiu a peste. Mas conseguiu escapar aos linchamentos. Fugiu, arribou a Palmira. Contou uma história de aventuras, astúcia e coragem e todos acreditámos nela. Foi ele quem, em Palmira, mobilizou todos os brancos, os ex-brancos atordoados com o lilás, contra a infiltração dos negros, ex-negros, entre nós. Biarni, um homem lúcido, isso não se discute. Mas também um homem estranho. Frigia, a donzela altiva, ficou logo fascinada, rendeu-se. Mas nele eu pressenti um alçapão. Pudesse eu descascar a nova cor… Temi denunciá-lo. Fiz bem, fiz mal? Tenebroso que ele era, se picado podia virar-se e engolir todos nós…
Palmira fica num vale. A meio da avenida principal, num caneiro a céu aberto, de leste para oeste corre o rio Palma, apenas quatro metros de largura. Mas na época das chuvas transborda, andamos todos a chapinhar pelas ruas, uma chatice. Dantes, no tempo seco, corria apenas um fio de água. Para embelezar a avenida principal construíram uma pequena represa a jusante da cidade. O rio alaga e, das esplanadas de uma e outra margem, ficamos a contemplar os cisnes a singrar. As comportas da represa são escancaradas na época das chuvas e mesmo assim há inundações.
Do planalto é fácil observar que a cidade vai crescendo de oriente para ocidente, tenta repetir o percurso do sol. E conforme cresce para poente, vai-se degradando a zona oriental. É ali que vivem os pretos, ex-pretos, ruínas e bairros de lata. Já fora de Palmira, não muito longe, o rio Palma embica para o Sul e vai desaguar no pântano. Não será a melhor localização para uma cidade, os mosquitos não param de atormentar-nos.
Cá em cima, no planalto, na Casa Grande, é que vive a nossa família. Por causa da altitude estamos livres dos mosquitos. Porém, os nossos tormentos são bem maiores do que picadas de mosquito…
A nossa Casa Grande domina um imenso prado verde. Aqui é que anda a pastar e a correr, de colina em colina, a nossa manada de cavalos brancos, raça apurada, o nosso orgulho, a nossa fortuna. Nem do gabinete da torrinha se consegue avistar o limite do nosso território que se alastra desde os altos de Palmira até à Serra do Mar. Condado dos Vossler, é como lhe chamam.
O gabinete da torrinha foi o escritório do meu Pai. Frigia não respeitou a sua memória, consentiu que ali pousasse Alfonso Biarni, o senhor das solidões. Jamais consegui aproximar-me dele, nem sequer para tomar um copo no fim da tarde. Era um homem que repelia intimidades. Pudesse eu descascar a nova cor…
Hoje em dia, quando os cavalheiros se encontram no Clube de Palmira, localizado a meio da avenida principal, frente ao rio transformado em lago onde singram cisnes, dou em reparar que todos vestimos fatos de linho branco. Dantes, seria defesa elegante contra o calor. Agora será mais por nostalgia da antiga cor das nossas peles.
Também donzelas e damas passaram a vestir-se de branco. Onde os vestidos coloridos de antigamente? O azul safira, o verde esmeralda, o carmim e o salmão, o púrpura, o ouro baço? Dantes, donzelas e damas gostavam tanto de andar por aí a drapejar o arco-íris…
Já passaram cinco anos desde o início da peste e continuo sem ter notícias dos meus filhos. Isto mesmo é o que os outros cavalheiros esperam que eu diga e lamente. Pois digo e lamento, caso contrário ficariam muito chocados e não estou nada interessado em promover antipatias gratuitas. Porque a minha suspeita, quase uma certeza, é outra. Tentam animar-me, palavras de esperança e reconforto, palmadinhas nas costas e beba lá mais este copo, ó Eurico.
Já a cambalear saio do Clube. Bebedeira de álcool? Os outros cavalheiros, ou mesmo os pretos, ex-pretos, que nos servem, podem pensar que sim. Eu sei que é de outra qualidade…
Lá consigo montar o meu cavalo branco, ó bicho bonito, calma aí. Acompanho o rio Palma. Agora está quase seco, corre apenas um fio de água.
Cruzo as portas da cidade. Lentamente, a trote, vou-me aproximando do charco. Contemplo as águas paradas. Quando eu era garoto, uma equipa de naturalistas andou por aqui a fazer levantamento de pegadas e de ovos fossilizados de dinossauros. Aqui viveram há milhões e milhões de anos, disseram eles. Viveram? Vivem, vivem! Sei que no fundo do pântano sobrevive um rebanho de monstros antiquíssimos. Os crocodilos são os seus bastardos. E apesar da bastardia, talvez um dia, lentos, possam subir do pântano para exercerem a vingança que já tarda. É então que ouço uma voz a gritar-me:
— Sinhô Voss, curri, curri, chegou dois rapaz na cidade.
Interrogo os crocodilos que se aproximam da margem:
— Digam-me lá, ó pasmados, ó bastardos, ó sardões, ó lagartixas, onde é que eu já ouvi essa voz que anda sempre a perseguir-me? Há tanto tempo… Antes ou depois? Quem me dividiu a memória em duas metades? Talvez um branco, talvez um preto.
Não consigo obter resposta. Mas de repente reconheço a voz de Sara. É ela quem me chama, é ela quem me avisa que chegaram dois rapazes à cidade. Porém, Sara, neste momento, há-de estar lá em cima, na cozinha da Casa Grande, a cuidar dos temperos. Ou então na horta a colher um pé de alface, talvez espigas de milho ou ervas aromáticas. Sei disso muito bem. O que não impede que a sua voz, a sua frase que disse um dia, martele sempre os meus ouvidos, esteja eu onde estiver. É este o tributo que eu tenho de pagar por estar sempre a ouvir e a falar dentro da bruma.
É evidente que Sara tem paixão assolapada por Marco e César, afinal foi ela quem os criou, foi ela quem deles cuidou desde a primeira infância. Está sempre à espera que regressem os meus filhos. Está sempre a ver dois rapazes, vindos de longe, que se aproximam lentamente de Palmira. Nisto, os meus miolos são parecidos com os da preta.
Cá em cima, na Casa Grande, apenas Sara parece querer reinventar a felicidade. Não o declara, mas acha que o lilás é obra divina, salvação dos homens. Mas de todos os homens, ex-brancos e ex-pretos. A tal fraternidade de que tanto falam os lunáticos, acabou-se o preto, acabou-se o branco, os homens são iguais, racismo nunca mais…
Muitas vezes ouvi Sara a entoar a nova canção que inventara. A plenos pulmões ao nascer do sol, em surdina ao fim do dia:
— Ó Senhor, nosso Senhor,
é formosa a Tua cor…
Formoso o rosto dos homens,
aleluia!
aleluia!
só agora somos jovens…
