EDITORIAL: Estados Unidos: A Bela e o Monstro

logo editorialEram 04,53, hora de Lisboa, quando a sonda Juno entrou na órbita de Júpiter, segundo informou a NASA, agência espacial norte-americana, que tem como objectivo para a missão conhecer as origens do maior planeta do sistema solar. Atraída pela gravidade de Júpiter, o centro de controlo recebeu a informação. A Juno é um observatório espacial não tripulado e movido a energia solar. Chegou cinco anos após ter sido lançada da Terra. Deslocou-se a uma velocidade superior a 209.200 quilómetros por hora em direcção ao gigante do sistema solar. Se não fosse bem-sucedida, passaria por Júpiter e deixá-lo-ia para trás, acabando assim uma missão de 15 anos a 869 milhões de quilómetros da Terra. Quase tão grave como Cristiano Ronaldo falhar um penalti decisivo no jogo de amanhã.

Fez ontem 240 anos, em 4 de Julho de 1776, foi publicada a Declaração da Independência dos Estados Unidos da América, texto que foi uma das mais profundas inspirações para a Grarde Revolução de 1789. Das nações americanas foi a primeira, ou das primeiras a separar-se da potência colonial europeia – só no século seguinte se daria o boom das independências no continente – independências que foram a maneira de os europeus ou crioulos manhosos conservarem o domínio e a posse sobre os povos que eram os legítimos donos dos territórios. Foi excelente porque desferiu um golpe no poderio britânico e foi um incentivo para as lutas independentistas nas

Américas e uma fonte inspiradora para a grande Revolução de 1789. Não temos ilusões sobre o carácter conservador dessas luitas-Vejamos:Bolívar nasceu em Caracas, mas toda a sua formação foi feita em Espanha e França. O’Hoggins, José Artigas, San Martín…heróis do grande Pablo Neruda e do seu Canto General, culturalmente europeus, anteciparam-se ao perigo de revoltas de autóctones ou escravos africanos, como ocorreu no Haiti em 1803, que na mais genuína revolta independentistas, liderados por Toussaint-Louverture, expulsaram as tropas francesas.

O México e a Colômbia em 1810, A Venezuela em 1811, a Argentina em 1816, o Chile em 1818, a Guatemala em 1821, o Brasil em 1822… «libertaram” estas colónias. A verdade é que as potências coloniais, envolvidas nas suas querelas continentais, afrouxavam a vigilância. No caso do Brasil é óbvia a colaboração dos colonos e da própria família real – Pedro de Bragança, primeiro imperador do Brasil, vencida a guerra civil contra seu irmão Miguel e é coroado rei de Portugal. Se a independência tivesse sido litigiosa, Pedro seria enforcado como traidor. O Brasil não foi libertado. Mudou formalmente de donos. A escravatura acabou no Brasil em 1888 – em Portugal, onde o tráfico constituía crime desde 1810, foi extinta em 1869. O estado espanhol quis impedir militarmente as independências – perdeu todas as guerras.

A independência dos  Estados Unidos foi conduzida e ganha pelos colonos e para impor as ideias e a concepção económica, passou  por uma dura guerra civil onde se enfrentaram duas idades da História. Venceu a que, em nome dos direitos dos cidadãos, transformou os homens em mera força de trabalho-, em menos de dois séculos e meio, o capital de esperança criado pela nova Nação foi desbaratado e a luz cegante do american dream transformou-se num pesadelo, no buraco negro onde a liberdade e a democracia se são sorvidas para uma realidade paralela – «a realidade americana». A american way of life constitui um modelo implantado à escala global, dos cereais do pequeno-almoço até às séries televisivas e aos programas com que preenchemos os serões. Sentimo-nos como se deviam sentir os nossos ancestrais depois da ocupação romana da Península – obrigados a arranhar o latim e a adoptar hábitos e leis impostos por Roma. O Império Romano não durou eternamente, dissolvendo-se na sua degenerescência. Não há impérios eternos. Porém, duram sempre mais do que aqueles que lhes profetizam o fim. Duram sempre demais. Tal como os iogurtes, têm prazos de validade que não são observados. Sobrevivem à própria decomposição.

A nação que ontem completou 240 anos e fez Juno entrar na órbita de Júpiter, que tem uma literatura maravilhosa e um cinema de inexcedível brilho, è a Bela. O pior é o Monstro, o coração das trevas que, por vezes se esconde sob o manto diáfano da Bela.

2 Comments

  1. * A Hitória é cíclica .*

    *Tanto que subscrevo- * Não há impérios eternos. Porém, duram sempre mais do que aqueles que lhes profetizam o fim. Duram sempre demais. Tal como os iogurtes, têm prazos de validade que não são observados. Sobrevivem à própria decomposição.”Maria

    No dia 5 de julho de 2016 às 20:53, A Viagem dos Argonautas escreveu:

    > joaompmachado posted: “Eram 04,53, hora de Lisboa, quando a sonda Juno > entrou na órbita de Júpiter, segundo informou a NASA, agência espacial > norte-americana, que tem como objectivo para a missão conhecer as origens > do maior planeta do sistema solar. Atraída pela gravidade de J” >

  2. Os EUAN tem tudo que há de melhor mas para o seu Governo, desde há muito, escolhem sempre o pior que podem. Desde a derrota no Vietname a decadência é evidente e as escolhas políticas vão de mal a pior. O Mundo que o diga!

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