A COR DOS HOMENS/6 – ROMANCE DE FERNANDO CORREIA DA SILVA

 

4. Esgrima

 

Abro a porta da grande sala térrea e ali surpreendo Sara a limpar o pó, mas lentamente, lerda que ela é. Não gosto que pretos, a propósito disto ou daquilo, pousem aqui na minha sala. Ainda por cima esta anda a martelar-me os ouvidos com a mesma frase de sempre, Sinhô Voss, curri, curri, chegou dois rapaz na Palmira. Agarro-a pelos cabelos. É muito fácil, agora são lisos. Dou-lhe um puxão, cai de joelhos. Encho-lhe a cara de bofetadas, bem as merece. Enquanto bato, cá por dentro consigo ouvir o que vou dizendo:

— Cala-te! Já sei que chegaram dois rapazes à cidade. Quem te deu licença para entrares aqui na sala grande? Pensas que eu não te conheço? Agora escondem-se por baixo do lilás mas conheço-os a todos pela catinga, só pela catinga.

Castigo o eco do que Sara disse um dia… Vejo lágrimas a saltar dos seus olhos mas não solta um pio, a negra é muito firme. Então alguém, lá de cima, manda:

— Eurico, pára com isso!

Bem sei quem é a mandona. A minha irmã, depois que o garanhão lhe deu a volta, ficou ainda mais soberba. Casou tarde, já teria uns trinta anos. Fora sempre recusando os sucessivos pretendentes. Por isto ou por aquilo nenhum deles lhe servia, nenhum deles se enquadrava no seu ideal de marido, príncipe encantado. Mas quando, depois da peste, surgiu Biarni, ficou encandeada, acelerou a corte, rendeu-se, em três meses noivou e casou. Pudesse eu descascar a nova cor… Frigia, ao começar a ter filhos, e teve dois, já os meus eram uns homenzinhos. Isto passou-se há muito tempo, tenho consciência disso. Apenas consciência, sentir não sinto, tudo parece que está a desenrolar-se agora.

Na grande sala térrea eu a bater em Sara e a minha irmã a mandar que eu pare. Ergo a cabeça e, ao erguê-la, distraio-me e largo os cabelos da preta. Sara aproveita e foge para a cozinha. Frigia vem a descer a escada. Porque há uma escada de mogno, com dois lances, a baixar do mezanino sobre a grande sala térrea. A meio, no patamar, há um relógio antigo. De noite as suas badaladas escorrem por toda a casa, ressonâncias. Por causa delas, às vezes não consigo adormecer. Estou sempre à espera de contar quantas irão soar na próxima hora ou meia-hora. Depois que deixei de receber notícias dos meu filhos a expectativa tornou-se ainda mais enervante.

Vem a descer e reparo na sua mão esquerda apoiada no corrimão. Dá-me vontade de rir. Fosse antes e os seus dedos níveos, ex-níveos, fariam um belo contraste contra a madeira escura. Tudo se degrada: os dinossauros em crocodilos, os brancos em espantalhos iguais aos pretos. Mas Frigia parece que não dá conta disso ou finge que não dá. Não se importa ou finge não se importar. A altivez de sempre a censurar:

— Eurico, de uma vez por todas acaba com essa mania de bater em Sara! Bem sabes que Alfonso não apreciava os castigos sem motivo. São tiros que saem pela culatra, dizia ele. E não há motivo, nenhum, para bater em Sara. Percebes? Estás a ouvir? Não respondes?

Não respondo. Não me apetece responder. Enfurecê-la é o que pretendo.

— Eurico, perdeste a língua? Já tomaste o teu calmante?

Como tudo mudou… Dantes, quando garotos, quando adolescentes, éramos inseparáveis, unha com carne. Um sempre a defender o outro contra a severidade de Virgílio Vossler:

— Pai, a culpa é minha, eu é que mereço o castigo. — Paizinho, não bata no Eurico, fui eu que tive a culpa.

Depois apareceu Biarni, rodeou-a, tomou conta dela como um garanhão toma conta das suas éguas. Pudesse eu descascar a nova cor… Agora, ela e eu andamos sempre a esgatanhar-nos. Exige que lhe responda. E eu respondo, palavras sem rédeas:

— Sara, a pobre Sara, os meus filhos que não voltam da Capital. Ou talvez tenham regressado, mas não sei porque se escondem. Onde se ocultam eles? Porque não sobem até ao planalto? Por acaso temem que haja por aqui um preto a mandar em brancos? Sara disse-me que chegaram dois rapazes à cidade. Mas há sempre dois rapazes a chegar a Palmira, vieram de muito longe, bem os vejo. A pobre Sara, os pobres rapazes… Algo andam os crocodilos a tramar. Creio que de noite sobem do pântano e vão a rastejar até às portas da cidade. Quem pensam eles devorar? Quem será o justiçado? Ou justiçado já foi?

Continua a descer a escada, já ultrapassou o relógio. Altiva, sempre altiva. De donzela disputada, converteu-se na grande dama de Palmira. Mas está perturbada com o meu discurso, bem vejo pela sua cara, mordisca o lábio inferior, avança o queixo. Só os meus discursos ditados pela bruma conseguem varar as suas defesas. Faço uma vénia grotesca, saúdo:

— Alva Frigia, mas outrora. Da cor antiga sobra hoje o teu vestido branco. E os cabelos, os teus cabelos loiros, o teu orgulho… Mas hoje será essa a melhor coroação para a tua nova cor de rosto? Melhor seria pintá-los de verde, ou talvez azul…

Vejo que raiva, esforço para conter-se. Pára no princípio do segundo lance. Não espero por ela, viro-lhe as costas. Vou até à grande porta de vidro que dá para o alpendre. Abro-a de par em par, as cortinas enfunadas. Ao longe, os meus cavalos brancos a correr. Montar, galopar e olvidar, ser outra vez dono do vento…

Já está a meu lado. Passa o braço esquerdo pelos meus ombros. Não gosto que me toquem e ela bem sabe disso. Mas insiste, insiste, está cada vez mais chata. E aconselha, está sempre a aconselhar. Não suporto conselhos, fiquei lotado com aqueles que o Pai me deu.

Talvez os meus filhos apareçam de um momento para o outro, é o que ela diz. Talvez estejam longe, o que era preciso era fugir da Capital, fosse para onde fosse. Devo ter esperança e não começar a disparatar. Que eu repare no seu exemplo: perdeu o marido, tem dois filhos para criar e nem por isso passa a vida a lastimar-se, contenção é que é distinto…

Repudio o seu abraço, afasto-me. Não gosto que me toquem, já disse. Planto-me no centro da sala. Faço um esforço para sacudir a bruma. Pergunto-lhe se alguma vez notara algo de esquisito em Alfonso, o seu falecido. Pudesse eu descascar a nova cor… Responde que não percebe a pergunta, nada notara. Lembro-lhe que Sara começara a cantar formoso o rosto dos homens só depois de Biarni entrar na Casa Grande pela porta da frente. A cozinheira notara e a esposa não? Fica gelada, ilude a resposta. Insisto, pergunto-lhe qual seria a cor original do garanhão. Outra vez se esquiva. Outra vez coloca a mão sobre o meu ombro, a pegajosa. Agora quer puxar-me para as recordações da nossa infância. Acha que tal evocação me deixará mais calmo.

— Eurico, lembras-te daquele pretinho que açoitaste um dia quando se atreveu a entrar aqui na sala grande?

Recuo, despego-me.

— Frigia, o que é um preto? Tu é que deves saber o que é um preto…

Parada e resposta, bem sei que a minha irmã não aguenta mais esta esgrima. Desanda. Recomeça a subir as escadas. Vou atrás dela, foi um repente.

— Frigia, a imponente, a bela, a altiva e aristocrática donzela da Província de Palmira! Uma corte de pretendentes, cada qual mais imbecil do que o outro.

Antigamente, donzela ainda, Frigia matava-se a rir com os meus comentários a respeito dos seus muitos pretendentes. Muitos, não só por ela, mas também pelo dote e pelo nome da família. Porque um, dizia eu, tinha o porte de uma cegonha, e outro exibia um focinho de javali, e outro ainda argumentava com miolos de galinha.

Pára no primeiro lance de escadas, sustém a subida. Vira-se para mim. Pousa os dedos no corrimão. Olha-me com insistência, ainda não sabe bem o que pretendo, hesita em ficar ou subir. Para sossegá-la, resolvo pisar os terrenos da evocação, é a estratégia de que mais gosta:

— Lembras-te do teu primeiro baile?

Ela sorri. O que eu já esperava, tudo marcha como eu quero…

— Foste o meu par. O Pai dizia que uma donzela Vossler, tendo irmãos, deve ser apresentada à sociedade pelo braço do mais velho. Para que todos soubessem que os Vossler permaneciam pela linhagem masculina e que regenerariam o sangue da aristocracia da Província de Palmira pela linhagem feminina. Lembras-te do meu vestido?

Levanto os braços, simulo o deslumbramento:

— Vermelho! Uma cascata de rosas, rubro, uma irreprimível onda de sangue vivo.

Memória de tempos idos, felicidade. Abri-lhe a guarda, disparo:

— Hoje, maninha, o vermelho não combina com a tua cor de pele. És quase roxa, vaidade em cacos…

Corta a conversa, corre pelas escadas acima. Só pára lá no alto. Debruça-se no parapeito do mezanino, manda a estocada final:

— Eurico, chega! De uma vez por todas, chega! Não há quem te aguente! Vai mas é tomar o teu calmante.

Perdeu as estribeiras. Gosto muito quando vacila, dá-me gozo.

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