A COR DOS HOMENS/8 – ROMANCE DE FERNANDO CORREIA DA SILVA

6. Chega um ratinho à Casa Grande

 

Sábado, logo a seguir ao jantar, cerca de quatro meses depois do casamento de Frigia, Sara entrou na sala grande e avisou-nos que o Sr. Brichna estava lá fora, na entrada, e pedia para ser recebido.

Brichna era um daqueles pobretanas que estão sempre a vir do Norte para o Sul, a tentar negócios disparatados. Viera em busca do Eldorado e mais pelintra ficara em Palmira. Apesar de branco, ex-branco, mandei que Sara o enxotasse. Frigia opôs-se. Tinha que se opor, estava-se mesmo a ver… Através dela mandava sempre o garanhão:

— Sara, manda o Sr. Brichna entrar.

Sara retirou-se. Virei-me contra a minha irmã:

— Mas onde é que nós estamos? Onde é que nós vamos parar? Agora até um borra-botas como o Brichna passa a ser visita da Casa Grande?

— É preciso.

— É preciso? Transigências? É uma novidade, por essa não esperava eu… Não estou a reconhecer-te. Logo tu, a mais altiva dama de Palmira? Mas é preciso porquê? Não me queres dizer?

— Alfonso convocou a reunião para hoje.

Por essa altura os crocodilos começavam a chafurdar nos meus sonhos. Não tentei detê-los, antes crocodilos do que homens encobertos. Dei rédeas soltas ao verbo, eu a galopar por entre a bruma:

— Alfonso é quem manda agora na Casa Grande? E o que sou eu? Um verbo de encher?

— Eurico, ninguém quis desautorizar-te.

— Ninguém quis mas todos desautorizam. Alfonso manda e todos obedecem, cegos, todos cegos. Ninguém repara nos crocodilos. Ninguém repara que Brichna é metamorfose de crocodilo. Só eu sei o que é, o que vai ser. Um dia, não tarda muito, liberta-se do lodo, vai ser o pandemónio… Até lá, fica a chorar nas margens do pântano, é assim que atrai os incautos. Vão todos em cortejo a caminhar para a sua boca. Frigia, abre os olhos. Repara como Brichna tem os dentinhos aguçados… Vai ser um festim. Cabeças para um lado, pernas e braços para outro, os troncos esfacelados, sangueira muita…

Cortou:

— Eurico, vê lá se acabas com esses disparates, não há pachorra…

— Mais cego é quem não quer ver…

— Andas muito confuso, não dizes coisa com coisa.

— César, César, onde estás, onde te ocultas, porque te escondes?

— Eurico, vê lá se te acalmas… César e Marco um dia destes aparecem por aí.

— Passaram por pretos, fugiram da Capital.

— É o que eu dizia, eles conseguiram fugir da Capital, tenho a certeza.

— Fugiram da Capital, uma pega saiu-lhes ao caminho.

— São rapazes corajosos e inteligentes.

— À noite acampam debaixo de uma árvore, durante a caminhada ninguém os apanha.

— Ninguém os apanhou, podes ter a certeza.

— Tenho, tenho a certeza, só tenho é medo dos crocodilos, eles estão à porta da cidade, esperam por alguém. E Brichna? O que é que vem fazer um crocodilo na Casa Grande?

— Brichna é um assunto resolvido, Alfonso também o convocou para a reunião desta noite.

Portanto, facto consumado: entrou Brichna, entrou o acanhamento na sala grande. Assim, todo encolhido, bem disfarçava o crocodilo que havia dentro dele. Mais parecia um rato assustado e foi então que me lembrei do Leopardo. Na Casa Grande, para nos defender dos ratos, há sempre uma legião de gatos, cinco, seis ou sete. Às vezes mais, se uma gata é parideira e nos esquecemos de oferecer ou afogar as crias. Os bichanos circulam em torno da mansão, trepam às varandas e aos telhados. Não dão tréguas ao batalhão de roedores que, vindos do mato, estão sempre a tentar invadir a Casa Grande. Interrompem a caçada apenas para miar e vir dar marradinhas contra as nossas pernas. Quando eu tinha uns oito anos, o rei dos nossos gatos era o Leopardo. Junto à entrada principal da Casa Grande vi, no princípio de uma manhã, o Leopardo agachado. De repente deu um salto, elasticidade. Com a pata esquerda acertou cutilada num ratinho. O coitado rolou, guinchou, ficou atordoado. Quando se recompôs, tentou fugir. O Leopardo, com a direita, acertou-lhe segunda patada. Nova tentativa de fuga, nova patada. Ficou nessa brincadeira até ao final de manhã. Quando o ratinho morreu, o Leopardo abocanhou-o e veio depô-lo a meus pés, troféu e vassalagem.

Para suportar a presença de Brichna, decidi começar a brincar de gato e rato, patada aqui, patada acolá, ele a guinchar e a rebolar. Mas quando, por fim, eu o abocanhasse, iria depô-lo aos pés de quem? Do garanhão? Nem pensar nisso era bom… Nunca prestei, nem presto, nem prestarei vassalagem a ninguém. E muito menos ao garanhão.

Levantei-me da poltrona. Acolhi Brichna de braços abertos:

— Entre, Brichna, entre, bons olhos o vejam, fique à vontade, sente-se aí nessa poltrona.

— Muito obrigado, Sr. Vossler, é uma grande honra, é realmente uma grande honra.

Surpresa da minha irmã, gosto muito de assombrá-la. Confiante, o ratinho cumprimentou-a:

— Senhora D. Frigia, peço desculpa, eu não queria incomodá-los, longe de mim tal ideia. Mas o Sr. Biarni convidou-me e aqui estou eu, não podia faltar à chamada. Que os pretos estão a querer levantar cabeça, parece que é esse o motivo da reunião. Pensando melhor, não sei se fiz bem em vir. Talvez o Sr. Biarni me tenha convidado apenas por delicadeza. Afinal, quem sou eu, para ser convidado para a Casa Grande?

Não soube o que dizer mais. Emudeceu e sentou-se na ponta da poltrona que eu lhe indicara. Os seus pezinhos mal chegavam ao chão. Baixou a cabeça, parecia um garoto envergonhado. Ficou-se a contemplar os próprios dedos que se moviam em paciência circular, o indicador de uma mão ao polegar da outra, alternância. Irritei-me, dei a primeira sapatada no ratinho:

— Então Brichna, sempre a subir, não é?

— Pois é, Sr. Vossler, é uma grande subida desde Palmira à Casa Grande, demorei um bocadinho. O motor do meu carro está com falta de compressão. Tenho de mandar rectificá-lo.

— Mesmo assim foi o primeiro a chegar.

— Tive medo de chegar atrasado mas cheguei antes do tempo, precipitei-me.

— Deixe lá… Se demorou a subir, quando começar a descer vai a toque de caixa, até chispa por aí abaixo. É a lei das compensações…

Frigia abanou a cabeça, era a sua maneira de censurar-me o despropósito. Ficou ainda alguns minutos a ouvir a nossa conversa. Pediu licença, retirou-se, subiu as escadas. Certamente respondia ao silencioso apelo do garanhão.

Voltei ao ataque:

— Então, meu caro Brichna, como é que vão os seus negócios?

— Ó Sr. Vossler, não me fale nisso…

— Ainda existem senhoras e meninas, damas e donzelas predispostas a comprar cosméticos para branquear a pele?

Eu a rir e ele amarfanhado. Lá respondeu:

— É muito triste, Sr. Vossler. É um caso muito triste… A peste dá conta de todos nós…

Mas de repente empinou-se, surpreendeu-me, foi ao revide, mordeu e roeu aqui no peito, aonde me doía mais:

— Sr. Vossler, já teve notícias dos seus filhos?

(continua)

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