EXPOSIÇÃO “LIVRO DO DESASSOSSEGO”, DE SÍLVIA HESTNES FERREIRA NA BIBLIOTECA NACIONAL

 

 |21 jun. – 17 set. ’16 | Sala de Exposições | Entrada Livre

De visita ao atelier de Sílvia Hestnes Ferreira, por entre a apreciação dos seus desenhos e guaches e em conversa com ela, fomos de repente levados a falar sobre o Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa. Havia na sua peculiar representação pictórica do mundo qualquer coisa que me fazia lembrar os fragmentos de diário do ajudante de guarda-livros Bernardo Soares, um dos heterónimos de Pessoa. E Sílvia, que é de Lisboa, disse-me que gostava muito do autor.

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A uma pergunta minha sobre se poderia imaginar-se a ilustrar Pessoa, obtive um ano depois surpreendente resposta, ao mostrar-me grande quantidade de desenhos seus, com a observação: «Não, não consigo».

Sílvia Hestnes tinha-se entretanto aplicado no livro por cujos textos ia metódica e cuidadosamente semeando desenhos dispersos. Nasceram assim reflexos visuais dos conteúdos estudados. Ao mesmo tempo mergulhava nos espaços entre palavras e neles deixou expressa uma ou outra ideia que o texto lido lhe suscitasse. Não, isto não são de facto ilustrações.

Como se de uma pantomima se tratasse, que não fornecesse qualquer tradução directa da linguagem oral, mas antes representasse uma sua versão mímica ─ assim se apresentam os desenhos de Sílvia Hestnes como peculiares formas de expressão, autónomas, mediante uma linguagem artística própria.

Por vezes, fixando-se numa única frase fundamental, persiste nessa sua espécie de transferência por vários e sucessivos desenhos fora. Dá então a impressão de ser quase como num filme que essas sequências e metamorfoses dos seus próprios desenhos se pretendem e se sucedem, a partir da sua própria representação inicial e abreviada.

Uma vez por outra, aqui e ali, acontece também uma quase ilustrativa ligação com o texto. Uma palavra descritiva torna-se quadro, e podem dar-se a conhecer figuras humanas; para logo a seguir essa comunicação se diluir e se transfigurar de forma abstracta, tornando-se ambígua, inapreensível.

O mundo que Bernardo Soares atentamente descreve e em que filosoficamente se projecta, criando assim todo um universo, fica a descoberto nos desenhos de Sílvia Hestnes.

Um aspecto essencial da sua abordagem artística é a apreensão do mundo não a partir da observação do exterior, mas a partir da sua própria vivência desse mundo, num recolhimento íntimo, como quem capta e exorcisa em quadros, abandonando-o, um inquietante mundo exterior que lhe é alheio.

Não são realmente ilustrações o que Sílvia Hestnes fez para os apontamentos reunidos no Livro do Desassossego. Em contrapartida, apresenta-nos um impressionante ciclo de desenhos nos quais interpreta aquilo que numa particular cosmografia suscita mais atenção e meditação ─ para poderosamente o transfigurar na sua própria forma de expressão.

Gottfried Hafemann
Trad. Maria Teresa Arsénio Nunes

 

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