A GALIZA COMO TAREFA – limites? – Ernesto V. Souza

2 headsSão inúmeros os ensaios sobre Espanha e Portugal: como conjunto ibérico já possível já impossível; como identidades opostas construídas ou como conjuntos que se desconhecem e ignoram. Por separado também a bibliografia nacional é ingente: no caso da Espanha abrumadora e “doorosa”, no caso de Portugal não escassa e mais bem “chorosa”.

O “mal de Espanha”, a lamentação patética pela sua impossível vertebração ou desleigamento de boa parte dos seus cidadãos e territórios incapazes de convergir numa identidade nacional construída pelas suas elites, enche páginas e páginas de livros e jornais e hoje na rede desde fins do século XIX, remontando-se na procura de fontes precursoras aos tempos das primeiras construções da unidade política, pela Coroa no século XVI-XVII e pelo nacionalismo desde fins do século XVIII. Mas, e com tudo, a identidade nacional espanhola é fraca ou mesmo inexistente, por isso é ferozmente polêmica e propagandística desde o Estado, e ainda hoje nos jornais e no ensaio, e apresenta uma forte e fetichista dependência da questão territorial, ainda afetada pela perca mítica das últimas colônias americanas e pelo match catalão e basco.

A questão portuguesa é carateristicamente outra, a identidade nacional é inquestionável e sólida, a questão territorial é secundária, sempre que não antigir o espaço central-nuclear de Portugal (como evidencia o tratamento com a Olivença, os Açores ou mesmo a Galiza). Porém Portugal parece afetado pelo panico à obliteração dos outros. Um medo ao acanhamento por parte da Espanha, a Inglaterra, a França parece pairar constantemente sobre o discurso nacional. A história contemporânea, o deixar de ser Potência marítima, tecnológica, económica e colonial, tem gerado umas dinámicas económicas e políticas que se apresentam como doenças crónicas e causantes da “prostração” e “o atraso”. O papel do Portugal moderno como potência menor ou subsidiaria parecem marcar um discurso nacional no que a “imagem” mítica, saudosa, invadem uma procura indefinida de Projeto de país moderno que não consegue confrontar a realidade presente.

Mas e a Galiza? o que dizer a respeito do seu discurso nacional?

Parece lógico pensar que o nacionalismo galego, o discurso nacional galego, fosse um discurso maioritariamente a contrário, de resistência ou reivindicativo: dadas as condições políticas, económicas e sociais, da periferização económica, social, populacional, administrativa, territorial, industrial, da sua função como espaço extrativo (de elites, população e matérias primas) com que a caraterizou o desenvolvimento do estado espanhol desde o século XIX até hoje.

Porém na Galiza, como em toda a parte, um discurso nacional a contrário, ou apenas de resistência, não enche, ou tem apenas utilidade quando o confronto ultrapassa as questões culturais e linguísticas e afeta evidentemente à economia e a fazenda das pessoas. E a questão é que na Galiza é difícil superar as condições de miséria que se deram nos últimos dous séculos e também que o modelo nacional espanhol moderno (fraco e com não poucos elementos tomados da própria Galiza) dificilmente (por mais que as aparências e a questão da língua pareçam evidenciar o contrário) pode confrontar a vaga, flexível, adaptativa mas fortíssima etnicidade galega, desenhada justamente para deliciar-se, digerir e incorporar as novidades.

O verdadeiro problema da construção de um discurso e projeto nacional galego são os limites da identidade. Se bem podemos procurar remontando camadas até origens remotíssimos a presença ininterrompida da Galiza, da sua população, cultura e até língua, alvejando admirados o “desde quando” é verdadeiramente difícil estabelecermos desde há muito e mais no hoje o “até onde”.

Toda nação deve ter entre as suas caracterizadoras reivindicações um território definido, uma língua ou variedade diferenciada. Mas postos a perguntar: quais são os limites territoriais da Galiza? quais são os limites da sua língua? Onde termina a Galiza e começam Espanha e Portugal? onde termina o Galego e começam o Castelhano e o Português?

Difícil questão. Ou não. A Galiza forçada pelas circunstâncias e a evolução política estadual da Península desde o renascimento aconteceu-lhe não ser. Ou ser, com as desavantagens daquele gigante de duas cabeças em desacordo, do relato do genial G.K. Chesterton. Já no século XIX Benito Vicetto enunciara que a Galiza ficara desativada por não ter sido capaz de impedir (por três vezes: na origem, na mudança de dinastia dos Avis e na época filipina) a separação de Portugal ou por não ter sido capaz de se unir a Portugal renunciando a Castela.

O que não pode ser, não pode ser. A permanência e ausência dessa dupla articulação como essência de todas as potências, combinada nessa forte identidade atada a passados remotos, conformam um relato difuso e não concreto que se espelha em objetivos coletivos e propostas por igual de extravagantes e fantasiosas. A Galiza, refugiada como bem disse o poeta em lenços de mil anos, passo adiante e atrás, aparece como figura dormente que não “esperta do seu sono”, por mais que cantemos em todas as alvoradas. Esfinge, rosa mística de pedra que apenas o tempo pode erodir enquanto espera – num jogo estranho apostado contra de si – pela chegada do seu próprio tempo.

Talvez é esta indefinição, produto da história, a marca da identidade e o cerne do discurso e debate nacional na Galiza. A razão da sua não-língua, da sua não-territorialização, da sua não enunciação nacional. Isto tudo assim complexo e poético supedita a concretização de um discurso nacional simples, direto e moderno. Mas a Galiza é-che-vos o que vai sendo… já que outra cousa não pode ser.

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