JEAN-ARTHUR RIMBAUD – POETA E TRAFICANTE DE ARMAS – II – por CARLOS LOURES

DEBATE: QUE RUMO QUEREMOS PARA A DEMOCRACIA EM PORTUGAL? – Depoimento de Carlos Loures

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À volta da mesa, por Henri Fantin-Latour, 1872, Rimbaud é o segundo à esquerda, tendo ao seu lado direito Paul Verlaine.

 

Transcendência poética e poder visionário obtida através do “longo, imenso e sensato desregramento de todos os sentidos.”, dizia numa carta Rimbaud, descrevendo o seu projecto . Com 16 anos escreveu uma obra que século e meio depois ainda surpreende pela sua audácia e pelo fulgor das imagens. Ainda hoje pode ser considerada uma poesia ousada. Mas não é da poesia que quero falar – é do mistério que envolve este adolescente genial que se transforma num adulto que em nada corresponde ao que o enfant terrible prometia vir a ser e a fazer. Vejamos em muito breves traços como foi feito esse percurso de vinte anos.

A sua curta mas fulgurante obra, foi criada após um não longo, mas intenso desregramento dos sentidos – álcool, drogas, sexo, tudo isso em doses desmedidas, terá contribuído para conferir ao adolescente uma inusitada experiência de vida. Começou por uma atribulada ligação amorosa com Paul Verlaine, que deixou a mulher e um filho para ir com o seu jovem amante mergulhar nas emoções da Comuna de Paris, após o que foram ambos para Londres. A relação desembocou numa situação conflituosa, chegando ao ponto de Verlaine o tentar matar, desfechando-lhe dois tiros, os quais, no entanto, apenas feriram Rimbaud superficialmente. Rimbaud voltou a casa de sua mãe, em Charleville, nas Ardenas, e completou Une saison en enfer. A tradução óbvia seria “Uma estação no Inferno” ou “Uma Temporada no inferno”. Abro um parêntesis para referir que a primeira tradução portuguesa foi a de Mário Cesariny de Vasconcelos, em 1960, com o título de “Uma Época no Inferno”. Depois, Cesariny lançou nova edição com o título de ‘Iluminações – Uma Cerveja no Inferno”. Porquê  “Uma Cerveja”? Cesariny tinha a convicção de que “Saison” era uma marca de cerveja que se vendia nas Ardenas – algo como “Uma Sagres no Inferno”. A obra parece traduzir os alucinantes meses vividos com Paul Verlaine. Poetas malditos, foi como Verlaine se descreveu a si e a Rimbaud.

Jean-Arthur deambulou pela Europa, cobrindo grandes extensões a pé. Após estas viagens em que ainda se encontrou em Estugarda com Verlaine (1875), escritas as suas Illuminations, decidiu deixar de escrever. Há várias interpretações sobre esta decisão – há mesmo quem pense que Rimbaud tinha como objectivo enriquecer tão depressa quanto possível para poder voltar a escrever sem se preocupar com a subsistência. É aqui que se situa a encruzilhada. Em breves linhas, vamos ver no que resultou dessa opção.

Em 1876, com 22 anos, alistou-se como voluntário no Exército Colonial Holandês indo para Java, na actual Indonésia. Desertou pouco depois, regressando a França clandestinamente num barco de carga. Em 1878 vamos encontrá-lo em Lanarca, na ilha de Chipre onde trabalhou como capataz numa pedreira. Adoeceu, contraindo uma febre tifóide, e voltou ao seu país. Em 1880, vemo-lo chegar a Aden, no actual Iémen, onde obteve um lugar de responsável pelo escritório da companhia Pierre Bardey. Em 1884, com 30 anos, demite-se da Bardey e torna-se mercador por conta própria em Harare, na Abissínia (Etiópia). Embora negoceie outras mercadorias, o fulcro do seu negócio é o tráfico de armas.Tudo parece correr bem quando um cancro num joelho o obriga a voltar a França onde em Marselha lhe amputam a perna direita. Ainda volta a África, mas o estado de saúde depressa se degrada, forçando-o  a um novo regresso a França. Após meses de sofrimento, em 1891, apenas com 37 anos, morre.

Jean-Arthur Rimbaud – uma poesia magnífica, profética, incendiária – o adolescente que a escreveu, deu lugar a um traficante de armas.  O Ladrão de Fogo, o Príncipe Poeta, como se auto-designou, transformou-se num homem que nada tinha a ver com o jovem que passou uma temporada no Inferno ou, segundo Cesariny, ali desceu, apenas para beber uma cerveja.

Havemos de voltar a Rimbaud.

Foto tirada no período em que viveu em Aden, na Abissínia. Rimbaud é o segundo a contar da direita (sentado).
Foto tirada no período em que viveu em Aden, na Abissínia. Rimbaud é o segundo a contar da direita (sentado).

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Este trabalho de Carlos Loures foi publicado no Estrolabio em 13 de Fevereiro de 2011. Clique em:

http://estrolabio.blogs.sapo.pt/1036132.html

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