A GALIZA COMO TAREFA – escola – Ernesto V. Souza

Eu, confesso, fui sempre mal aluno. Não desses conflituosos ou de maus resultados académicos, mas pior: impermeável, desconfiado do que me contavam os docentes e da narrativa aborrecida e repetitiva dos livros de texto.

Fui, contrariamente à atónica massa de alunos submissos, um rebelde. Primeiro selvagem, depois dissimulado, após ter compreendido pelas más e muito cedo que a crítica e o diálogo não faziam parte de um sistema escolar onde permanecer horas com o cu no assento sem tumulto ou agitação era o mais proveitoso.

Do infantário até o doutoramento, e até no derradeiro master e curso profissional, poderia se me classificar como um aluno passivo e aparentemente deslocado de lugar ou de tempo. Normalmente evadido, nas margens perfeitas dos cadernos e dos livros onde desenhar fantasias, nos tectos das aulas ou nos textos soltos e lâminas dos livros em lições mais adiante, na espera até as palavras e conceitos no fundo do ouvido chamarem a atenção no meu cérebro.

De poucos docentes, teve má sorte, posso dizer que foram mestres. Predomina em mim a imagem de um sistema aborrecido, memorístico, de exames e provas absurdos que não avaliam mais que o índice de credulidade e adequação ao sistema, de perguntas sem respostas claras, de textos maçadores, pacatos, conservadores, patrióticos, repetitivos. Horas perdidas para os nenos, os adolescentes, os moços.

Agora, sendo pai, e após não sei quantas reformas e melhoras tecnológicas nos centros escolares observo os mesmos males, dinámicas e princípios.

Por que o ensino não ensina? porque se perdem infinitas horas repetindo conceptos vagos de filologia, gramática, matemática teórica, história, geografia, ciências, filosofia, ética?  sem contar com as absurdidades das religiões ou os cultos cidadãos à nação e à sociedade capitalista?

Por que no sistema educativo não se mima a crítica, a prática, a participação, a democracia, não se dedicam horas à leitura, à escrita, às contabilidades cálculo e matemática prática e diária, à resolução de documentos e a enfrentar as burocracias, às manualidades, carpintarias, eletricidade, uso de ferramenta, condução de carros e maquinária? por que não se aprende em laboratórios e em pequenos hortos o cultivo, a pequena gadaria doméstica, as noções básicas de alimentação, nutrição, reciclagem, química e física aplicada?

Para que tantas horas? para criar cidadãos acríticos, bem guiadinhos, não auto-suficientes e incapazes de ser revoltar contra as pautas de consumo?

E bem que na Galiza há Sementes

1 Comment

  1. Magnífico e brilhante artigo. Vou tomar-me o direito de difundi-lo e de citá-lo. Uma obra mestra de sintese e de sabedoria

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