UM ACTO DE OMISSÃO por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

O menino sírio Aylan Kurdi deitado já sem vida numa praia turca, quem não se lembra? Essa fotografia correu o mundo, pois, só por si dizia quão sofredora foi aquela criança e tantas outras que se vêem obrigadas a fugir da guerra.

Este menino tem pai e mãe, tem irmãos, tem amigos e teve uma vida vivida no meio de uma guerra. Este menino não teve tempo de conhecer as coisas boas da vida. Os homens da guerra tiraram o futuro a este menino e deram-lhe um presente de sofrimento, não teve tempo de conhecer o passado…

Muitos meninos e meninas como o Aylan Kurdi andam pelo mundo, algumas deitadas mortas na praia outras procurando, sem companhia, um lugar em que seja aceite e onde possa viver e ter afecto.

Muitas crianças deambulam pelo chão da Europa ainda com a esperança de encontrar alguém que as mime.

Daqui a uns anos as sociedades europeias terão vergonha de nada terem feito por estas crianças. Será assim tão difícil?

Estamos a conviver e a banalizar a Violência de Estado como estamos a encolher os ombros à Violência no seio das famílias.

Há tempos, e mais vezes do que se supõe, as praias portuguesas foram também o leito onde meninos e meninas descansaram para sempre, depois de terem sido atiradas ao mar ou ao rio pelas próprias mães.

A Violência não escolhe as pessoas ou os Estados, a Violência dá asas à sua presença desde que haja poder e elos mais fracos nas sociedades.

Meninos e meninas portuguesas vão para o hospital com as mãos queimadas, com nódoas negras, com sinais de violação.

As crianças, como sempre, são o alvo preferido porque o mais vulnerável, para além das mulheres, dos idosos, dos deficientes…

Porque existe Violência sobre as crianças?

Meninos e meninas portuguesas estão tristes, deprimidos, revoltados, maltratados física e psicologicamente, são, acima de tudo, negligenciados.

 A Negligência é uma forma de Violência sobre a Criança, de difícil definição e medição por se tratar de um acto de omissão. Os padrões de Negligência são ditados pelas comunidades, das representações que têm de criança e do seu bem estar.

Muitas vezes é considerada desleixo, descuido, desatenção grave persistente, falta de disponibilidade para a satisfação da Criança e ausência de afecto.

As crianças negligenciadas são fruto da impossibilidade dos pais para proporcionarem à Criança as condições necessárias para um desenvolvimento físico, psicológico e emocional adequado.

A Negligência tem sido alvo de grande atenção por parte das pesquisas mais recentes, estimando-se que os fenómenos de Negligência sejam superiores aos dos maus-tratos físicos.

A Negligência parental continua a ser um dos maiores factores que contribuem para a abertura de processos de promoção e protecção de menores, atingindo todas as classes sociais. Um dos grandes mitos existentes por muitas décadas, era de que apenas as famílias desestruturadas e de baixos rendimentos económicos eram de certa forma, levadas a praticar este tipo de actos contra a criança. Na verdade, o que se tem observado, cada vez com maior transparência, é que as famílias ditas estruturadas e de classe média e média/alta são também incluídas.

Estar sentado à mesa, para jantar, e deixar os filhos a jogar durante todo o tempo nas tablets e no Telemóvel, é negligência, é estar a contribuir para a falta de diálogo e para a falta de afectos que serão difíceis de recuperar, tudo tem o seu tempo.

Será tudo um problema da crise?

A ideia da crise global veio em certa parte, funcionar como justificação para todos os problemas que até então sempre foram difíceis de justificar. Mas será a crise a resposta correta? A crise foi criada pelos adultos, cabe aos adultos bater o pé à crise e contribuir para um mundo novo. Cabe aos Estados e aos Cidadãos inverter a ordem dos mercados.

 

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