O menino sírio Aylan Kurdi deitado já sem vida numa praia turca, quem não se lembra? Essa fotografia correu o mundo, pois, só por si dizia quão sofredora foi aquela criança e tantas outras que se vêem obrigadas a fugir da guerra.
Este menino tem pai e mãe, tem irmãos, tem amigos e teve uma vida vivida no meio de uma guerra. Este menino não teve tempo de conhecer as coisas boas da vida. Os homens da guerra tiraram o futuro a este menino e deram-lhe um presente de sofrimento, não teve tempo de conhecer o passado…
Muitos meninos e meninas como o Aylan Kurdi andam pelo mundo, algumas deitadas mortas na praia outras procurando, sem companhia, um lugar em que seja aceite e onde possa viver e ter afecto.
Muitas crianças deambulam pelo chão da Europa ainda com a esperança de encontrar alguém que as mime.
Daqui a uns anos as sociedades europeias terão vergonha de nada terem feito por estas crianças. Será assim tão difícil?
Estamos a conviver e a banalizar a Violência de Estado como estamos a encolher os ombros à Violência no seio das famílias.
Há tempos, e mais vezes do que se supõe, as praias portuguesas foram também o leito onde meninos e meninas descansaram para sempre, depois de terem sido atiradas ao mar ou ao rio pelas próprias mães.
A Violência não escolhe as pessoas ou os Estados, a Violência dá asas à sua presença desde que haja poder e elos mais fracos nas sociedades.
Meninos e meninas portuguesas vão para o hospital com as mãos queimadas, com nódoas negras, com sinais de violação.
As crianças, como sempre, são o alvo preferido porque o mais vulnerável, para além das mulheres, dos idosos, dos deficientes…
Porque existe Violência sobre as crianças?
Meninos e meninas portuguesas estão tristes, deprimidos, revoltados, maltratados física e psicologicamente, são, acima de tudo, negligenciados.
A Negligência é uma forma de Violência sobre a Criança, de difícil definição e medição por se tratar de um acto de omissão. Os padrões de Negligência são ditados pelas comunidades, das representações que têm de criança e do seu bem estar.
Muitas vezes é considerada desleixo, descuido, desatenção grave persistente, falta de disponibilidade para a satisfação da Criança e ausência de afecto.
As crianças negligenciadas são fruto da impossibilidade dos pais para proporcionarem à Criança as condições necessárias para um desenvolvimento físico, psicológico e emocional adequado.
A Negligência tem sido alvo de grande atenção por parte das pesquisas mais recentes, estimando-se que os fenómenos de Negligência sejam superiores aos dos maus-tratos físicos.
A Negligência parental continua a ser um dos maiores factores que contribuem para a abertura de processos de promoção e protecção de menores, atingindo todas as classes sociais. Um dos grandes mitos existentes por muitas décadas, era de que apenas as famílias desestruturadas e de baixos rendimentos económicos eram de certa forma, levadas a praticar este tipo de actos contra a criança. Na verdade, o que se tem observado, cada vez com maior transparência, é que as famílias ditas estruturadas e de classe média e média/alta são também incluídas.
Estar sentado à mesa, para jantar, e deixar os filhos a jogar durante todo o tempo nas tablets e no Telemóvel, é negligência, é estar a contribuir para a falta de diálogo e para a falta de afectos que serão difíceis de recuperar, tudo tem o seu tempo.
Será tudo um problema da crise?
A ideia da crise global veio em certa parte, funcionar como justificação para todos os problemas que até então sempre foram difíceis de justificar. Mas será a crise a resposta correta? A crise foi criada pelos adultos, cabe aos adultos bater o pé à crise e contribuir para um mundo novo. Cabe aos Estados e aos Cidadãos inverter a ordem dos mercados.

