A CANETA MÁGICA – António Maria Lisboa, um poeta do futuro – por Carlos Loures

 

caneta1Poucos escritores portugueses, como aconteceu com o poeta surrealista António Maria Lisboa, que morreu com com apenas 25 anos, terão num percurso tão curto, marcado tão indelevelmente a literatura – a do seu tempo e a das décadas seguintes . Em «O senhor cágado e o menino», auto-retrata-se nestas palavras: «O Menino de bronze repousa na solidão da lua nasceu-lhe um olho de chacal que é o animal que só passa nos caminhos livres e são todos – os lobos é que andam à espreita – e o coração é de Leão. E esta é a sua Lealdade e o seu Amor como o Destino e o seu Sentido que tem e chama-se António Maria Lisboa.» Herberto Hélder disse-me um dia que os romancistas devem escrever as suas obras usando a maturidade e a experiência que só a idade permite; em contrapartida, na poesia surgem jovens com o poder de adivinhar o futuro e de escrever, não para a sua geração, mas para as que virão depois . Referia-se Rimbaud, mas o caso de António Maria Lisboa enquadra-se na teoria do Herberto. Chamo a vossa atenção para a rubrica «Frases de sempre» – hoje, com um belo retrato do poeta da autoria de Dorindo Carvalho, inaugura a nossa série matinal. O poema que escolhi foi dedicado pelo autor ao seu amigo, o também surrealista, Mário-Henrique Leiria e chama-se

Projecto de sucessão

Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua

continuar deitado até se destruir a cama

permanecer de pé até a polícia vir

permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária

amar continuamente a posição vertical

e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora

pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo

fazer gestos no café até espantar a clientela

pregar sustos numa esquina até que uma velhinha caia

contar histórias obscenas uma noite em família

narrar um crime perfeito a um adolescente loiro

beber um copo de leite e misturar-lhe nitroglicerina

deixar fumar um cigarro só até meio

Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias

beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.

*

 

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