RAINER MARIA RILKE E LOU ANDREAS – SALOMÉ FALAM SOBRE O NARCISISMO Por Rachel Gutiérrez

riojaneiro2

Nota: Na ausência da nossa colaboradora voltamos a trazer a sua reflexão sobre “Narcisismo e poesia”, que aborda a natureza e o papel da poesia. Será repartido ao longo do mês.

 

Como podem estar juntos esses dois elementos, a felicidade e a tristeza,

o que escapa de si- mesmo e o que se encerra em si- mesmo,

o dom de si e a afirmação de si ?

Só o poeta pode verdadeiramente imaginar.

                                      Lou Andreas – Salomé

 

Narziss

        Rainer Maria Rilke

  

Dies also: dies geht von mir aus und löst

Sich in der Luft und im Gefühl der Haine,

Entweicht mir leicht und wird nicht mehr das Meine

Und glänzt, weil es auf keine Feindschaft stösst.

 

Dies hebt sich unaufhörlich von mir fort,

Ich will nicht weg, ich warte, ich verweile;

Doch alle meine Grenzen haben Eile,

Stürzen hinaus und sind schon dort.

 

Und selbst im Schlaf. Nichts bindet uns genug.

Nachgiebige Mitte in mir, Kern voll Schwäche,

Der nicht sein Fruchtfleisch anhält . Flucht, o Flug

Von allen Stellen meiner Oberfläche.

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Dort ist es nicht geliebt. Dort unten drin

Ist nichts als Gleichmuth überstürzter Steine,

Und ich kann sehen, wie ich traurig bin.

War dies das Bild in ihren Augenscheine?

 

Hob es sich so in ihrem Traum herbei

Zu süsser Furcht? Fast fühl ich schon die ihre;

Denn wie ich mich na meinem Blick verliere,

Ich könnte denken, dass ich tödlich sei.

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 É isto: o que  sai de mim e se dilui

Leve no ar , nas sensações do bosque,

Escapa e deixa de me pertencer

E resplandece porque nada o tolhe.

 

Sem cessar , de mim vai se afastando,

Não  quero partir, espero , me demoro

Inda que minhas fronteiras tenham pressa,

Pois se libertam e já estão lá longe.

 

Até dormindo. Nada mais nos une.

O dócil centro meu é  núcleo  frágil

Para conter a carne. Arroubo e fuga

Dos pontos todos de minha superfície.

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Não há amor no fundo. Tão somente

Desmoronadas  pedras impassíveis,

E  então percebo toda a minha tristeza.

E penso: foi   assim que ela me viu?

 

Imagem de seu sonho transformada

Em doce medo? O medo que  pressinto

Porque ao  perder no seu o meu olhar

Descubro nele a minha própria morte.

A figura mítica de Narciso, muito antes de entrar na história da psicologia sexual, decorre da lenda para a literatura, da  antigüidade clássica para os tempos modernos. Percorrendo o caminho inverso, chegamos ao mito em As metamorfoses  de Ovídio, sua forma mais bela e completa. Já o termo “narcisismo” que, segundo Havellock Ellis, foi criado pelo psiquiatra alemão Paul Näcke em 1899, só aparece publicado na obra de Freud em uma nota acrescentada à segunda edição dos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, em 1910.

Lou Andreas-Salomé, em seu diário de Viena, In der Schule bei Freud, comenta no dia 5 de março de 1913:

É certo que o conceito é empregado em dois sentidos que podem provocar sérios mal-entendidos, especialmente em mãos inimigas. Por um lado, define-se como um estágio particular de desenvolvimento a ser superado – exatamente como diz Havellock Ellis. Mas isso implica de saída em duas direções: como uma transição entre o auto-erótico e o homossexual na primeira infância; e também como a atração por si mesmo que certamente aparece por volta da época da puberdade, depois de ter conhecido um objeto mas continuando a considerar a si mesmo como o mais desejável dos objetos.

(……) essa fase particular da puberdade, esse “segundo nascimento”, quando o eu e o sexo aparecem unificados em uma nova vida, pode mostrar feições que sugerem não só qualidades neuróticas mas também qualidades criativas.

No mesmo dia, Lou Salomé anotara uma observação feita por Freud sobre a permanência do narcisismo no artista “ porque ele precisa do narcisismo, isto é, precisa, para criar, da onipotência de pensamentonarcisística infantil ”. E completava adiante:

O Narcisismo em sua forma criativa já não é apenas um estágio a ser superado; é, mais precisamente, o acompanhamento persistente de toda a nossa experiência mais profunda, sempre presente, embora ainda muito longe de qualquer possibilidade de traçar seu caminho do inconsciente para a consciência..

(…….) Sem dúvida alguma, esse ponto que há de se tornar uma questão crucial, só pode ser tratado filosoficamente.

(continua)

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